Bom Natal!

Menino:
Hoje
que é noite
do teu
Natal,
venho pôr
na lareira
que não se acendeu
em todo o dia,
a minha bota
rota,
à espera da tua
prenda.

Tu
que, como eu,
és filho de gente
pobre,
julgo que não te esquecerás
de mim
– que preciso de tudo,
desde umas botas
usadas
que não metam água,
até um pouco
de pão,
para enganar
a fome.

Hoje,
que toda a gente
come
coisas boas,
lembrando
o teu
nascimento,
a fome
custa mais
a suportar,
roi
mais

dentro
e faz sentir
ódios
e maldades
e vontade
de dizer
palavras feias
– mesmo para ti,
Menino,
que parece
que te esqueceste
do frio
que já passaste
e só te lembras dos ricos,
que compram coisas caras
para os filhos,
dizendo-lhes
que foste tu
quem lhas mandou
do céu.

Para nós,

há chuva
e frio
e vento
e lama
e nortada.
E há fome
– há fome, Menino,
daquela que dói cá dentro
e até faz pôr labaredas,
mesmo em olhos de meninos!…

Hoje que ceei saudades
do que comi no outro dia
e, antes de ver
se adormeço,
vou descalçar
esta bota
e deixá-la
aqui,
à espera
dum presente
que me dês.

(Presente, não;
um futuro,
porque o presente que tenho
é bem pior
que o passado
que foi
bem pior
que o teu …)

Alfredo Reguengo
24/12/1969

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Barcarola Negra

Companheiro que remas junto a mim,
nesta galera de escravos
em que nos embarcaram, logo depois de nascer
– é preciso acabar este fadário,
ou ir ao fundo com a nau maldita!..

Nós andamos aqui
– eu,
tu,
nós todos –
a expiar um crime que não cometemos!..

Ao longe,
pra lá das vagas altas e das montanhas de espuma,
está a terra donde nos roubaram
do colo das nossas mães!

É para lá – eu sei –
é para lá que voam
os nossos olhos tristes,
como aves de arribação, buscando os ninhos …

Pois bem.
Nós temos de ir, também com eles
– com nossos olhos meninos
que nunca serão escravos!..

É preciso coragem, companheiros
– um esforço tremendo de músculos e vontade –
é preciso largar as mãos dos remos:
– quebrar os remos
– … ou quebrar os braços! …

Alfredo Reguengo
Inédito 1945
(Poemas da Resistência)

por Fernando Publicado em Poesia

Sol

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Há sempre sol,
mesmo que não o vejas
mesmo
que seja noite
e que o céu todo
seja
um borrão
de nuvens negras
que te abafam!

Há sempre
Sol,
a dar calor
e luz;

sempre
Sol
– mesmo que tudo
o negue!

Ninguém
te rouba
o Sol,
irmão;
ninguém
to
rouba
– que não
pode
roubá-lo,
nem guardá-lo
para si!

O Sol
não é uma esperança,
é
uma
certeza
para todos.

E não há nuvens
que possam
apagá-lo,
nem noites
que o abafem
e façam
desaparecer.


sempre
Sol!
Há-de
haver
sempre
Sol!
– mesmo
que os nossos olhos
o não vejam
e a noite
julgue
que
é
rainha
e dona!

Alfredo Reguengo
10/12/1970
Poemas da Resistência

por Fernando Publicado em Poesia

Divagações

A tempo

Eu gosto do tempo
e ter tempo.
Tempo para dispor dele
e fazer
ou não fazer
… tempo.

Tempo para deixar para amanhã
e para o último segundo
… dentro do tempo.

Eu gosto do tempo
e ter tempo
… para ver que tenho tempo.

Eu acordo mais cedo
para ter tempo!
… mais tempo.

Mais tempo
para fazer
ou não fazer
… dentro do meu tempo.

Há tempo suficiente para tudo
… desde que tenha tempo.

E há tempo …
e tanto para fazer…
e
não
sei
o que hei-de fazer
… ao tempo
… que tenho para fazer.

Eu preciso do tempo!

O tempo
está
a
andar
depressa
demais.

O tempo não pára.
O tempo está quotidianamente
superficial,
monótono.

Onde está o tempo?
Para onde foi o tempo?
Porque foge o tempo?

Que dia é hoje?

Tanto para fazer
e eu com tempo…
sem saber o que hei-de fazer
… ao tempo.

Que fazer?
Como fazer?

A tempo!

Fernando Marques
(31 de Outubro de 2006)

por Fernando Publicado em Poesia

A balançar entre estados de alma

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Alarme

Quem foi que anoiteceu a tarde em água e vento
o encheu de Inverno o Outono em que me escondo?
Quem foi que amarfanhou o meu sorriso antigo
e encheu de lama estrelas que sonhava?
(…)
É preciso
acordar
a madrugada
-antes que a matem,
inda mal desperta! …

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Destino

É em vão que bradais para que a minha voz se cale!
Em mim,
o pensamento
é voz e é semente!

Hei-de falar, porque penso e vivo
e hei-de pensar
constantemente
(…)

Alfredo Reguengo
(Poemas da Resistência)