Bom Natal!

Menino:
Hoje
que é noite
do teu
Natal,
venho pôr
na lareira
que não se acendeu
em todo o dia,
a minha bota
rota,
à espera da tua
prenda.

Tu
que, como eu,
és filho de gente
pobre,
julgo que não te esquecerás
de mim
– que preciso de tudo,
desde umas botas
usadas
que não metam água,
até um pouco
de pão,
para enganar
a fome.

Hoje,
que toda a gente
come
coisas boas,
lembrando
o teu
nascimento,
a fome
custa mais
a suportar,
roi
mais

dentro
e faz sentir
ódios
e maldades
e vontade
de dizer
palavras feias
– mesmo para ti,
Menino,
que parece
que te esqueceste
do frio
que já passaste
e só te lembras dos ricos,
que compram coisas caras
para os filhos,
dizendo-lhes
que foste tu
quem lhas mandou
do céu.

Para nós,

há chuva
e frio
e vento
e lama
e nortada.
E há fome
– há fome, Menino,
daquela que dói cá dentro
e até faz pôr labaredas,
mesmo em olhos de meninos!…

Hoje que ceei saudades
do que comi no outro dia
e, antes de ver
se adormeço,
vou descalçar
esta bota
e deixá-la
aqui,
à espera
dum presente
que me dês.

(Presente, não;
um futuro,
porque o presente que tenho
é bem pior
que o passado
que foi
bem pior
que o teu …)

Alfredo Reguengo
24/12/1969

Anúncios