O défice chegou aos três por cento. “Foi duro! Mas valeu a pena…”

Genial rábula dos Gatos Fedorentos neste Domingo.

Anúncios

07 – Casa comigo Marta

Chamava-se ela Marta
Ele Doutor Dom Gaspar
Ela pobre e gaiata
Ele rico e tutelar
Gaspar tinha por Marta uma paixão sem par
Mas Marta estava farta mais que farta de o aturar
– Casa comigo Marta
Que estou morto por casar
– Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo, deixa-me da mão

Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
Tenho talheres de prata
Que estão todos por lavar
Tenho um faisão no forno e não sei cozinhar
Camisas, camisolas, lenços, fatos por passar
– Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
– Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão

Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
Tenho uma cama larga
Num dos meus apartamentos
Tenho ouro na Suíça e padrinhos aos centos
Empresto e hipoteco e transacciono investimentos
– Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
– Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão

Casa comigo Marta
Tenho rédeas p´ra mandar
Tenho gente que trata
De me fazer respeitar
Tenho meios de sobra p´ra te nomear
Rainha dos pacóvios de aquém e além mar
– Casas comigo Marta
Que eu obrigo-te a casar
– Casar contigo, não maganão
Só me levas contigo dentro de um caixão

Letra: Sérgio Godinho
Música: José Mário Branco
Álbum: Mudam-se os tempos mudam-se as vontades

05 – Nevoeiro

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Num lençol amortalhado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Sem leme nem gageiro
E com o casco arrebentado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Com teus olhos em braseiro
E teu rosto afogueado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Por alcunha a desejado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Sem leme nem gageiro
Num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Porque levas caminheiro
tanta pressa no cajado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Num lençol amortalhado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Esperado primeiro
E depois desesperado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Que traz ó caminheiro
Esse príncipe encantado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
À tanto tempo esperado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Sem glória nem dinheiro
Num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Era príncipe ou sendeiro
Sebastião o desejado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Num lençol amortalhado
Era príncipe herdeiro
Nevoeiro
O príncipe agoireiro
o príncipe mal esperado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Porque paras caminheiro
Se é Sebastião finado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Sem leme nem gageiro
Num lençol amortalhado
Vou ao cais do terreiro,
Nevoeiro,
Pra ficar bem certeiro
De que é morto e enterrado

Letra e música: José Mário Branco
Álbum: Mudam-se os tempos mudam-se as vontades

04 – Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte

Letra: Natália Correia
Música: José Mário Branco
Álbum: Mudam-se os tempos mudam-se as vontades

03 – Charlatão

Na ruela de má fama
faz negócio um chalatão
vende perfumes de lama
anéis d’ouro a um tostão
enriquece o charlatão

No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f’rido
e outro em França anda perdido

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga

No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome

(É entrar,…)

Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-s’em quatro zonas
instalados em poltronas

Pr’á rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca d’alguns patacos

(É entrar,…)

Entre a rua e o país
vai o passo dum anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

(É entrar,…)

É entrar, senhorias
É entrar, senhorias
É entrar, senho…

Letra: Sérgio Godinho
Música: José Mário Branco
Álbum: Mudam-se os tempos mudam-se as vontades

02 – Cantiga do fogo e da guerra

Há um fogo enorme no jardim da guerra
E os homens semeiam fagulhas na terra
Os homens passeiam co´os pés no carvão
que os Deuses acendem luzindo um tição

Pra apagar o fogo vêm embaixadores
trazendo no peito água e extintores
Extinguem as vidas dos que caiem na rede
e dão água aos mortos que já não têm sede

Ao circo da guerra chegam piromagos
abrem grande a boca quando são bem pagos
soltam labaredas pela boca cariada
fogo que não arde nem queima nem nada

Senhores importantes fazem piqueniques
churrascam o frango no ardor dos despiques
Engolem sangria dos sangues fanados
E enxugam os beiços na pele dos queimados

É guerra de trapos no pulmão que cessa
do óleo cansado que arde depressa
Os homens maciços cavam-se por dentro
e o fogo penetra, vai directo ao centro

Letra: Sérgio Godinho
Música: José Mário Branco
Álbum: Mudam-se os tempos mudam-se as vontades

01 – Cantiga para pedir dois tostões

A partir de hoje e todos os dias, vão ser colocadas as músicas do José Mário Branco, do álbum, “mudam-se os tempos mudam-se as vontades”, considerado por alguns, como o melhor do canto de intervenção. Este Álbum foi gravado em França e editado pela primeira vez em LP em Novembro de 1971.

Estas músicas estão todas disponíveis na Box.net, e aqui na coluna do lado esquerdo deste Blogue. Esta iniciativa tem prosseguimento com outros músicos após o fim da publicação destas músicas.

Nos carris
Vão dois comboios parados
Foste longe e regressaste
Trazes fatos bem cuidados
E já pensas
Em dourar o teu portão
Se és senhor de dez ou vinte
És criado de um milhão
Regressaste
Com um dedo em cada anel
E projectos num papel
E amigos esquecidos
Tempos idos
São tempos que voltarão
Em que pedirás ao chão
Os banquetes prometidos

Milionário que voltaste
Dois tostões p´rós que atraiçoaste

Fazes pontes
Sobre rios e valados
Mas quando o cimento seca
Já morremos afogados
Fazes fontes
No silêncio das aldeias
E a sede é tal que bebemos
Até ter água nas veias
Instituíste
Guarda-sóis e manda-chuvas
Lambe-botas, beija-luvas
Pedras-moles e águas-duras
Inauguras
Monumentos ao passado
Que está morto e enterrado
Entre naus e armaduras

Milionário que voltaste
Dois tostões p´rós que atraiçoaste

Quanto a nós
Nós cantores da palidez
Nosso canto nunca fez
Filhos sãos a uma mulher
Nem sequer
Passa mel nos nossos ramos
Pois a abelha que cantamos
Será mosca até morrer

Milionário que voltaste
Dois tostões p´rós que atraiçoaste

Letra:Sérgio Godinho
Música:José Mário Branco
Álbum:Mudam-se os tempos mudam-se as vontades

Voo Nocturno

A seguir a José Mário Branco (José Mário Branco está, para mim, em primeiro lugar), Jorge Palma é o cantor que mais aprecio na actualidade. Jorge Palma, está aí novamente com um novo álbum de nome, Voo Nocturno, uma viagem entre o Amor e o retrato social. A comprar e a ouvir, como todos os seus álbuns.

Videoclip “encosta-te a mim”

A opinião de Tiago Videira

Jorge Palma está de volta três anos depois de “Norte” com um “Voo nocturno” especial. O seu melhor disco, na sua própria concepção.

“Este foi um disco que correu bem”. É assim que o próprio descreve o seu trabalho. Muito contente, com o resultado alcançado, nós também estamos. De facto o disco é uma pérola. Será discutível se será mesmo o melhor disco de Palma (“Só” continuará ainda a ser uma referência inolvidável), mas se não é, anda lá muito perto. Um disco intimista, construído com arranjos simples, gravado apenas pelo Jorge e os seus “demitidos”, é um disco quase acústico. Um convite a um eco social.

“Encosta-te a mim” é o single do álbum. Quanto a mim, não sendo a canção mais apelativa é uma bela balada de amor, típica de um Jorge maduro e pronto para finalmente, não só, se dar com toda a gente, mas se dar a alguém…

“Voo nocturno” é uma faixa retirada directamente do imaginário de Saint-Éxupery, e fala-nos de um Jorge que se sente mais leve do que o ar e que “só quer resistir”. É um belíssimo momento contemplativo e introspectivo onde a voz de Jorge é obrigada a atacar uma tassitura invulgarmente aguda para o próprio o que não deixa de ser um momento peculiar.

Segue-se “Rosa Branca”, e é um puro rock, com a guitarra eléctrica e o hammond organ a fazer-se ouvir. Um pequenino momento selvagem a lembrar aquele Jorge de outros tempos, do casaco de cabedal e da mota.

“O Centro comercial fechou”, é uma balada ao piano. O momento claramente mais pesado do disco é uma história social. Uma reflexão e uma intervenção aos momentos mais duros deste mundo, mostrando-nos o outro lado da vida, aquele menos bom, mas que também existe.

“Olá, cá estamos nós outra vez” é uma balada ociosa que atira para o passado. Jorge repega uma história antiga começada a contar num outro álbum e aqui dá-lhe uma continuação. Parecendo um mestre da banda desenhada ou do romance que vai buscar as referências antigas que já ninguém lembra e aparecem do nada no presente. A canção é melancólica e triste, mas por outro lado uma canção de esperança. Referências a Fausto ou a processos rítmicos utilizados pelos Da Weasel são assumidos.

“Abrir o sinal”, é um arranjo muito simples em que o Jorge toca o piano e a guitarra e é uma canção decalcada do um original inglês já composto há muitos anos atrás e agora recuperada. A técnica de reciclagem de material é sempre um bom recurso e Jorge sabe bem quando as coisas devem finalmente ver a luz e sair do baú. Belíssimo solo de piano, quase ao estilo de Jazz lounge.

“Gaivota dos Alteirinhos” é uma canção típica de Jorge, romântica que nos conta uma história claramente pessoal. A praia dos Alteirinhos é um paraíso perdido perto da Zambujeira do Mar (onde Jorge costuma veranear), e remete para uma experiência biográfica do próprio. O acordeão nesta faixa empresta um novo tom a toda a canção tornando-a a mais étnica e a mais puramente portuguesa de todo o álbum.

Segue-se um inédito tema instrumental. Muito em jeito de chill-out lounge, quase um tema para ser incluído num disco do Buddha bar. Jorge espraia-se pela melhor técnica do que aprendeu recentemente nas suas aulas no Hot club em Lisboa.

“Vermelho redundante” é mais uma balada rock, desta vez com letra de Carlos Tê, é mais uma canção de amor, com laivos de sedução dos anos noventa.

“Quarteto da corda” é mais um petisco. Um jazz “maroto” e sedutor em que se conta uma história entre Justina e Baltazar que se entrecruzam com Cleia e Montolivo. Uma misturada das referências literárias de Jorge Palma. Um trocadilho amoroso e jocoso, com a tragédia misturada na criança que não sabe que não vai ter lar.

“Finalmente a sós” é o que se pode chamar um lamento rockado. Jorge, enérgico, grita a plenos pulmões e expande-se no infinito nesta faixa, onde a guitarra eléctrica e o hammond, condizentes, se mostram poderosos.

“A velhice” é uma pequenina canção de menos de um minuto a (quase) fechar o álbum. Um momento cénico resulta de uma colaboração para uma peça de João Lagarto e é um belo Dixie a fazer lembrar uma antiga colaboração também com João Lóio (Eras linda).

Após tudo isto, uma faixa escondida, desta vez sem rabo de fora. Ruídos de rua começam-se a ouvir, após o que Jorge se apresenta a solo com a guitarra cantando uma naïf canção em inglês. Claramente um regresso ao passado, ao tempo em que ainda cantava no metro de Paris para ganhar o pão.

Jorge maduro, de bem com a vida e a recomendar-se, a mostrar o que de melhor sabe fazer. É sempre um prazer tê-lo a voar connosco.