“… tomara que outro Zeca Afonso rasgue a mentira desta dinastia.”

Do livro Do Tempo de Quando de Adelaide Graça, as palavras da avó (Adelaide Graça) “à minha neta Camila, vinte anos depois da morte do Zeca Afonso.”

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E outras flores virão …

Olha o vento da janela e as flores no vaso. Estas são vermelhas. Estas são amarelas.

Trago-te uma boneca e biscoitos. Ah, já sei, precisas de tempo para te afeiçoares às coisas e às pessoas. E às bonecas. Preferes o boneco Tim-Tim. Eu também gostei dele mal o vi, talvez pelo jeito desarrumado e descuidado. Queres partilhar com ele o biscoito. E comigo. As migalhas não. As do chão não. São para o cão, o Taurus.

Vamos dançar. Olha os meus pés. Olha os pés desta avó.

Estás a ouvir? Estão a cantar as canções do Zeca Afonso. Estás a dizer não! Claro tu não sabes, não sabes ainda quem é o Zeca Afonso. Um dia dir-te-ei quem foram os Zecas Afonsos todos e mais aqueles de quem nunca ninguém falou.

Sabes, tomara que outro Zeca Afonso rasgue a mentira desta dinastia. De muitas outras dinastias.

Depois, meu amor, minha inocente criança … depois, sentirás o vento a correr pelo meio das árvores e a desfolhar as flores, não as do vaso, mas as dos jardins. De todos os jardins. E outras flores virão com outras cores … muitas outras cores, acredita.

E verás as pétalas, as vermelhas e as amarelas, a irem alto e a dançarem com outros pés, noutros sapatos, e as tuas bonecas e o Tim-Tim a perder as calças e o Nenuco que entretanto cresceu, a correrem na prais atrás do vento, das pétalas e das cores.

As migalhas, essas, não voam, lambe-as o cão, o gato, não todos os cães nem todos os gatos.

“Do Tempo de Quando”

O Álvaro de Oliveira faz uma breve apreciação, do último livro de Adelaide Graça.

A Prosa Poética como um Voo de Ave

na escrita de Adelaide Graça.

capa-do-tempo-de-quando-frente1.jpgNuma época em que são visíveis os avanços da globalização tecnológica e o homem tende a valorizar a sua passagem pelo mundo, desprezando pequenas e grandes guerras, ainda por cima injustas, e, por via disso, as consequentes crises que neste início de século disparam no sentido da sua resignação, é na escrita que encontramos o lugar sagrado para a visitação dos dias, estes dias que, plenos de transformação, nos levam a um constante arregaçar das mangas com o objectivo central de quebrar monotonias e enfados.

Tezvetan Todorov. Fala-nos dum objectivo da pesquisa e, sobre ele, sugere que cada acto pode revelar apenas o resultado de um tempo. E a pergunta nasce de chofre e é pertinaz: o tempo de quando? De sempre… de ontem, de hoje, de amanhã.

Acontece que este tempo que ora atravessamos é, isso sim, de procura e descoberta de novas formas poéticas. A palavra é, por assim dizer, a chave que abre portas para todas as buscas e serve de elemento a todas as formas ou regras. Ora, o objectivo da pesquisa, segundo Todorov, propõe descrever formas de linguagem próprias da poesia, por oposição à prosa. A quebrar tal ideia, e já em plena transformação de novas formas de linguagem, em inícios da década de sessenta, poetas como Nuno Júdice e Carlos de Oliveira, evidenciaram-se no uso de uma estratégia de liberdade, tendo como objecto a palavra livre, o que provocou fissuras de opinião em alguns sectores mais conservadores.

E devemos convir que os poetas e escritores quando escrevem fazem-no com a certeza dum destinatário específico que exige mudança e renovação: o leitor. Nesta exigência, o autor é o ponto de partida e o leitor o ponto de chegada, num eixo transversal que deve espraiar num mar de prazer do texto.

Neste sentido, a escritora Adelaide Graça desprezando as tradicionais “formas de linguagem próprias de poesia” traz a público uma mão cheia de poemas livres de encher o branco da página numa prosa poética onde empresta o sentido das coisas em mensagens projectadas pelo jogo irreverente de palavras que encarnam realidades e fantasias, sonhos e paixões, loucuras e enigmas, a suavidade de uma flor ou um voo de ave, imagens subtis de uma beleza funda, buscada numa vivência interpessoal, em ambientes naturais tal como escreve em “Do Tempo de Quando”: «… adormeceram todos os pássaros e todas as aves…» e transfigura um tempo sem idade pelos indizíveis carreiros da infância num traço que se adivinha a lavrar eternidades, registadas num livro que teve já apresentação no decorrer das feiras do livro de Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira. Aliás palcos que lhe são familiares e que a autora conhece desde o seu Limites da Razão editado em 1998.

Neste seu novo livro, encontramos páginas e páginas de prosa poética que encanta pela musicalidade e ritmo, pelo poder suave das imagens, pela discrição das coisas simples, como um voo de ave, a ocultação dos trilhos onde deixamos as nossas pegadas, pela evocação dos dias que percorrem o mesmo destino das mãos, a revelação de segredos fixados pela água dos olhos até ao pôr do sol, porque a poesia tem a particularidade de colocar o poeta antes e depois de si, depois de tudo, como se tudo fosse apenas a confissão duma loucura – a de ser-se poeta – em perfeito abandono pelas regras estabelecidas.

Nesta linha de conta, e depois de saltar adentro destas páginas e fruir da beleza que delas emerge, é-me grato dirigir-me à autora para lhe confessar: morri como se nascesse, agora nasci para morrer na beleza dum poema.

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À esquerda a escritora Adelaide Graça.

Um conselho

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A nota vem atrasada mas espero que ainda chegue a tempo.

Façam o favor de dar corda aos sapatos e passar pelo quiosque mais próximo, para comprar o jornal Público de hoje (17 de Abril de 2007). Não pelo jornal em si (cada vez pior) mas pelo livro de oferta. Um pequeno livro de bolso, 10X15, de Amos Oz – contra o fanatismo. Um pequeno livro de 95 páginas, extraordinário. São três pequenos ensaios, simplesmente fabulosos, com uma abordagem sobre a natureza do fanatismo e as suas consequências, que explica os conflitos, as guerras, e nos transmite uma forma de olhar para os problemas de uma forma surpreendentemente óbvia, tipo Ovo de Colombo”, que me tem surpreendido (li nesta tarde 50 páginas, mas vou ler e reler e reler e reler e reler), porque é uma análise que sai do comum e que nos dá um olhar sobre os acontecimentos, que decerto, nos irá fazer ver as coisas, a partir de agora, de um modo diferente. No meu caso tem sido assim …até ao momento.