Um dia de férias

valadie-jean-baptiste-peches-capitaux-la-luxure-4704709.jpg

 Ílhavo, verão de 1997

Já por aqui ficamos até muito tarde. E tu, Lucinda, embalada por uma estória de infância, adormeceste. Nascia a noite por Agosto. Lembro-me: eram de um azul celeste os lençóis da cama onde nos deitamos pela primeira vez. E verdes eram os teus olhos. Verdes ainda as palavras, as tuas palavras como gaivotas a voarem no quarto: “não, não vás… agora não.”

As mãos, as nossas mãos ainda teciam passagens de outro tempo, esse apressado sopro de vida que ficou para trás. Por assim dizer, nem disso nos lembramos; apenas a sombra dos dias nos tangia o olhar e nos perpetuava os passos, um a um. Era o início de uma longa e pesada caminhada – a de carregar sobre os ombros o cinismo dos tiranos que nos perseguiram até ao fim da linha. Lembras-te? E aqueles rostos sisudos e duros atirados contra nós.

Depois tomamos o sol para o farnel dos dias e, mais tarde, bebemos a água dos dedos que brotava de uma fonte que nos era íntima: E os teus olhos verdes num brilho de orvalho matinal. Os meus perdiam-se em constantes paisagens de brancura. De qualquer modo, dois rios gigantes onde nos afogamos! Era ainda o início da linha ao atravessar os nossos meninos vinte anos.

Já por aqui ficamos até muito tarde saboreando as maçãs na primeira tentação e morremos na loucura de um pecado que nunca foi pecado. Não, não digas que me perdi ou nos perdemos. Se assim fosse, só o faríamos por amor, Lucinda. E, afinal, não foi isso que aconteceu? Não, não nos perdemos; foi aí que nos encontramos.

Depois demo-nos à vadiagem dos corpos até ao amanhecer. Os teus olhos ainda verdes e mexidos, o sabor trincado da maçã e o perdido gesto de um poema. E porque me disseste adeus para adormeceres tão cedo?

Álvaro de Oliveira 

Anúncios

Desejo ou Tentação

Quando, às primeiras horas da manhã, a voz atravessa a rua, e nos dá, por um último instante, a definição do silêncio, e nos traz aquele divino cheiro a rosmaninho, é aí que ficamos como se a porta do templo se abrisse com total permissão de entrada. É então que se ouve:

– E que tenho eu a ver com essa coisa da paralítica voltar a andar? Não acredito em milagres, já to disse. Levanto-me pela manhã, tomo o meu café, sinto que estou vivo e, por isso, dou graças a Deus. Chega?

É assim, como um murmúrio forte de vento, a voz áspera e ríspida de frei Bentes ao falar na sacristia com Ana Maria Pereira.

Imagina-se aquele olhar ensosso, o nariz achatado, as pontas do véu a tapar a boca, o rosto a mostrar um ar incrédulo e ela a pensar que o frei se deixara possuir por satanás. Era assim, simplesmente assim, na radicalização das palavras impensadas. Até nos gestos. Já o mesmo aconteceu, outrora, ao aconselhar o frei à excomunhão para Maria José, por esta ter confessado abortar com a cumplicidade de Angelo Passos.

– Este sacana que nunca eu o vi entrar numa igreja. – Dizia ela.

O frei Bentes emoldurava-se numa paciência de santo. Passeava por ali e atendia às confissões, queixumes e misérias dos paroquianos. Sorria, passava a palma da mão pelas cabeças pecadoras e dava palavras de tranquilidade e paz.

Contudo, Ana Maria Pereira irritava-o. Era chata, muito chata, a Ana Maria Pereira. E, não raro, a voz do frei Bentes ouvia-se no exterior da sacristia:

– E fica sabendo, criatura de Deus, que não devemos colocar o Senhor nesta dualidade: não é milagre quando um seu filho paralítico recupera o andar; como não é maldição quando um outro, por qualquer razão, perde o andar. E quanto à Maria José, que tens tu a ver com isso? Olha para a trave que tens no olho.

A rua amparava as palavras que o vento arrastava como folhas secas de plátano. E, ao entardecer, eram as aves, na adivinhação da sede, que ocupavam o seu desterro. Hábeis, seguravam-se na lentidão das águas. E o seu leito saciado num olhar de asa. O voo era perpendi­cular aos plátanos perfilados na rua de acesso à igreja por onde beatas vestidas de negro peregrinavam logo às primeiras horas da manhã.

Ana Maria Pereira parecia enlouquecer. Nessa tarde apeteceu­-lhe despir-se. Deitou-se ao comprido na cama com uma rosa branca entre os seios e desejou o seu João (o homem há uma data de anos no Canadá, sem lhe ligar patavina. A bem dizer, desapareceu) e, por instantes, adormeceu.

Depois levantou-se da cama, pousou muito devagar a rosa branca sobre a mesa da cabeceira, fixou o olhar no último raio de sol que atravessou o vidro, ouviu chamar, entreabriu a porta interior e atendeu:

– Que me quer?

O frei Bentes com a cabeça metida já no interior do postigo quando deu com os olhos na mulher estava para cair de espanto.

– Que estás a fazer, mulher?

Emudeceu. Por um momento, apetecia-lhe dizer que estava às ordens do seu João. E se estivesse, por um só momento ela estivesse às ordens do seu João, mas não, agora não. De súbito, olhou-se de cima a baixo, um rosto inocente, a tez do corpo que as vestes escuras sempre esconderam e descobriu em si traços atraentes de alguma beleza. Lembrou-se de frei Bentes. Afinal um padre, só porque é padre, não deixa de ser homem. Deu-lhe em convidar frei Bentes para entrar.

– Ó rapariga, tu enlouqueceste?

Estava nua. A polpa dos dedos caída sobre o sexo, a outra mão a afagar a mama esquerda. Ela perdera o sentido dos dias, das horas, do lugar, e deixara-se conduzir por um desmesurado desejo de oferecer o corpo ao frei Bentes e fornicar com ele até fazer doer as horas. Às vezes, perguntava-lhe baixinho:

– Ó mór, ainda acreditas em milagres?

A tarde oferecia uma maré de sol e o vento agitava ao de leve os ramos das árvores e varria pensamentos de Verão. E, no desenrolar dos lençóis, já os instantes se perdiam pelo quarto num odor a incenso.

E ela gritava:

– O frei deixou-se possuir por satanás!

As árvores projectavam sobre a rua um contorno de sombra. E, com o entardecer, um cheirinho à flor da tília. Era aí que as palavras e a voz desapareciam.

Do livro “Os dias Imprecisos” de Álvaro de Oliveira

À Míngua dos Espaços

A manhã está calma. Aqui no Minho as manhãs são de sol, sempre calmas e floridas, oferecendo uma ideia de sossego e pacatez. Nem o Inverno, que parece agora menos rigoroso e agressivo, (Fevereiro já convida a umas tardes de praia) consegue desfazer tanta beleza. Razão porque um dia o Ribeirinho se deixou por cá ficar de alma e coração.

-Sabem, quero paz. O mundo está em guerra mas eu quero paz.

Depois, atirou um olhar largo sobre o prado onde pastam manadas de gado, um número maior de cabras escuras e de bom leite, e a água, ao lado, a correr num murmúrio leve. De repente, parou. Uma derra­deira voz ainda parece prender Ribeirinho às últimas notícias da TV sobre os esporádicos rebentamentos de bombas por algures no Iraque, mas preferiu dobrar-se ao cheirinho de um pé de rosmaninho, e ao aroma que por Maio as tílias e as laranjeiras começam a oferecer.

Respirou fundo, e optou por uns breves de sombra. Maio está no fim e despede-se numa tarde granjeada por cores e por sorrisos.

A manhã foi calma. Como Ribeirinho é calmo. Ele enrola a morta­lha e passa a sua extremidade pela ponta da língua de modo a fazer um cigarro. Fuma. E entretém-se com duas argolas de fumo para o ar que consegue fazer com os lábios arcados. Mesmo assim, Ribeirinho crispa-se com a notícia que lê na última página: “… George Bush está profundamente entristecido com a morte de Spot, a sua cadela…”.

O jornal aberto entre as mãos, o tempo parece ter parado no olhar,de Ribeirinho, e fica-se assim com aquela cara de espanto.

– Caramba, profundamente entristecido! – Depois disparou: ­grande sacana!

Parou. Parou ele, parou o olhar dele e parou o tempo. Parou o olhar dele, mas não parou o cheiro a rosmaninho nem o aroma da flor da laranjeira e das tílias a entrar pela janela do quarto de Ribeirinho.

Parece que parou o tempo. Apenas aquele sopro de tempo.

Não, nesse instante não estava com certeza Ribeirinho a lembrar­-se daquele General que um dia lhe terá dito que preferia a morte de vinte soldados à morte de um cavalo. Mas era Bush que não lhe saía da cabeça: este tirano dos novos tempos que já devia estar no Tribunal de Haia a responder pelos crimes de guerra que vem cometendo contra a humanidade.

– Que estranha gente é esta que num dia manda matar estupi­damente milhares de seres humanos e, num outro dia, chora a morte de um cão? Que estranha gente é esta que, a pretexto de bombas de destruição maciça, num dia manda invadir e arrasar um país e, num outro dia, vem o mundo a saber que foi por engano dos seus serviços secretos? Que estranha gente é esta?

Ribeirinho enrola as mãos como quem faz enrolar o pensamento e volta a atirar o olhar para os campos cobertos de centeio e de trigo e repara que a tarde vai ao fim.

Na véspera, adormecera. As pernas, por fim, cederam ao cansaço da caminhada. E Ribeirinho ali ficou, por algumas horas, deitado ao comprido na cama.

Descreveu os espaços e acertou os limites do interesse: poder, muito poder e petróleo. Depois, diamantes e armas, muitas armas e ouro. E cães, muitos cães rafeiros e vadios.

É assim, o Ribeirinho: gosta da América, mas não gosta do Bush; gosta da Democracia, mas não gosta dos democratas (diz isto esbo­çando um gesto com os dedos em jeito de aspas); gosta da Europa, mas não gosta dos europeus; gosta do Minho, mas não gosta dos minhotos. E gosta da mulher do tasqueiro mas não gosta do tasqueiro.

O tasqueiro, é um tipo asqueroso: sobrancelha em rês, mostra um ar vitorioso sempre que um míssil, e ele foram aos milhares, caía sobre o povo iraquiano. Ali está ele, dentro da tasca, uma cara de gozo e arredondada, a testa longa a entrar na calvície e a barriga inchada, aquele riso sarcástico e safado. Entre migas, o tasqueiro perde­-se, tomado pelas moscas. Junto dele há um cheiro a suor tardio que faz enjoar. Amofina-se por detrás do balcão e bebe até encharcar.

Ribeirinho procura fugir desta travessia que o conduz a ambientes bafientos sem respiração que chega a aumentar nele a montanha de dúvidas das tantas que já tem sobre esta sociedade civilizada. Fica-se para responder a esta vontade sem vontade, revendo passagens recen­tes que o dia-a-dia com ou sem surpresa lhe oferece. Pousou o jornal e levantou-se com uma lágrima vertida de sangue.

– Sabem, quero paz. O mundo está em guerra mas eu quero paz.

Porém, no livro de notas, apenas dois apontamentos: a morte do cão do Bush, e a profunda tristeza da família pelo sucedido. Isto sem esquecer a mulher do tasqueiro que da cozinha lhe oferecia um sorriso malandro e severamente provocador a desafiar convites para uma noite no quarto.

– Prefiro o dia e, com ele, o cheirinho à flor da laranjeira – diz ele sorrindo – mas quero entrar no teu olhar à luz do dia. O corpo desnudado. É assim que tomo o fruto proibido.

Anoitecia. Só os morcegos preferem a escuridão, e à sorrelfa, alimentam-se do azeite no interior das igrejas. E o Ribeirinho sabe que há morcegos que gostam de petróleo e, em nome de um deus qualquer, fazem a guerra. Pela noite. E matam.

Do livro “Os dias Imprecisos” de Álvaro de Oliveira

A quadratura do medo

alegre.jpg

Manuel Alegre, escreve hoje no Público sobre o medo. Não sei bem o que faz o Manuel Alegre para além de escrever. Parece que é deputado mas não se dá pela sua presença. Há muito tempo. Há muitos anos. É um vice-presidente da assembleia do parlamento, sem presença activa, não intervém nos debates, não apresenta propostas, não aparece em qualquer comissão parlamentar, não participa nas iniciativas parlamentares do seu partido. Manda umas bocas, de vez em quando. Acertadas é verdade, mas sempre extemporâneas. Sempre muito atrasadas. Quando já falaram tantos. Depois de toda a esquerda. Depois de alguma direita, imagine-se. Depois de alguns dos companheiros de partido, inclusive Mário Soares, mas principalmente, Medeiros Ferreira, Vera Jardim ou Ana Gomes e tantos militantes anónimos. Depois do deputado do PSD, Paulo Rangel, ter falado de um ambiente, de “claustrofobia democrática”. Manuel Alegre de vez em quando precisa de sair do quadrado. Foi assim no passado é-o agora no presente. No vislumbre estará ainda o lugar de Presidente da República. O Manuel Alegre chega atrasado, muito atrasado. Não gosto deste tacticismo político. Manuel Alegre, para ganhar a minha simpatia e a simpatia de muitos eleitores quando for de novo candidato, ou se criar um novo partido, precisa de juntar mais naturalidade à sua intervenção política. Assim não. Mas talvez isto baste para negociar o seu futuro político com Sócrates.

“… tomara que outro Zeca Afonso rasgue a mentira desta dinastia.”

Do livro Do Tempo de Quando de Adelaide Graça, as palavras da avó (Adelaide Graça) “à minha neta Camila, vinte anos depois da morte do Zeca Afonso.”

sonho.jpg

E outras flores virão …

Olha o vento da janela e as flores no vaso. Estas são vermelhas. Estas são amarelas.

Trago-te uma boneca e biscoitos. Ah, já sei, precisas de tempo para te afeiçoares às coisas e às pessoas. E às bonecas. Preferes o boneco Tim-Tim. Eu também gostei dele mal o vi, talvez pelo jeito desarrumado e descuidado. Queres partilhar com ele o biscoito. E comigo. As migalhas não. As do chão não. São para o cão, o Taurus.

Vamos dançar. Olha os meus pés. Olha os pés desta avó.

Estás a ouvir? Estão a cantar as canções do Zeca Afonso. Estás a dizer não! Claro tu não sabes, não sabes ainda quem é o Zeca Afonso. Um dia dir-te-ei quem foram os Zecas Afonsos todos e mais aqueles de quem nunca ninguém falou.

Sabes, tomara que outro Zeca Afonso rasgue a mentira desta dinastia. De muitas outras dinastias.

Depois, meu amor, minha inocente criança … depois, sentirás o vento a correr pelo meio das árvores e a desfolhar as flores, não as do vaso, mas as dos jardins. De todos os jardins. E outras flores virão com outras cores … muitas outras cores, acredita.

E verás as pétalas, as vermelhas e as amarelas, a irem alto e a dançarem com outros pés, noutros sapatos, e as tuas bonecas e o Tim-Tim a perder as calças e o Nenuco que entretanto cresceu, a correrem na prais atrás do vento, das pétalas e das cores.

As migalhas, essas, não voam, lambe-as o cão, o gato, não todos os cães nem todos os gatos.

Ele e Ela

Mais uma incursão erótica

casalnussebeijandomolhados2.jpg

Ele deixou-se conduzir. Aquele instante era há tanto tempo desejado. Retribuiu-lhe o beijo, docemente. Os lábios de ambos permaneceram colados, uns minutos, tentando adivinhar sabores, comprazendo-se no momento esperado.

Estava tudo muito calmo. As línguas tocaram-se muito de leve. Ele tomou-a só para si. Arrepanhou-a pela força dos seus lábios sequiosos, para dentro da sua boca, com tanta vontade que nem reparou no gesto mais brusco. Ela não se desfez. Apenas o leve gemido o alertara.

Ela suave e compreensivelmente pousou generosamente os seus lábios nos dele e respondeu-lhe com uma leve mordidela no lábio inferior.

Era o sinal de cumplicidade e de ousadia que ambos esperavam. Os corpos já estavam seminus.

O desejo era muito forte. Ele não estava a conseguir resistir àquele corpo com corpo. Aos beijos afectuosos dela percorrendo o seu corpo ele já não correspondia. Estava extasiado, seu corpo arrepiava-se, quase não se sentia a sua respiração, não conseguia reagir.

Os olhos dele brilhando, denunciavam-no. Ele não conseguia esconder a vontade, o desejo indómito de a tomar selvaticamente.

Ele não estava a conseguir conter-se. Ela percebeu-o bem na troca de olhares ligeiro que se seguiu.

Ela enérgica, avançou. Desabotoou-lhe os botões das calças enquanto lhe mordia levemente os bicos dos seus peitos até sentir um leve gemido. Ela estava a desbravar terreno. A conquistar tempo e espaço. A gozar o momento e o tempo. Ela estava a gerir o tempo. Tinham tempo. Havia muito tempo pela frente.

Ele estava mais inquieto. A ânsia estava estampada no seu rosto. Ele comprazia-se…

Com um pequeno gesto de corpo, ele deixou escorregar as calças pelas pernas abaixo. Ela baixou-se e suavemente tirou-lhe a última peça de roupa que faltava.

Depois… depois, agarrou-lhe no pénis já duro e levantando os olhos, como que a dizer; “pronto, amor, cheguei” num gesto sublime e único, meteu o pénis dele na sua boca até onde conseguiu entrar, apertou-o forte com os lábios e o corpo dele todo tremeu.

“Do Tempo de Quando”

O Álvaro de Oliveira faz uma breve apreciação, do último livro de Adelaide Graça.

A Prosa Poética como um Voo de Ave

na escrita de Adelaide Graça.

capa-do-tempo-de-quando-frente1.jpgNuma época em que são visíveis os avanços da globalização tecnológica e o homem tende a valorizar a sua passagem pelo mundo, desprezando pequenas e grandes guerras, ainda por cima injustas, e, por via disso, as consequentes crises que neste início de século disparam no sentido da sua resignação, é na escrita que encontramos o lugar sagrado para a visitação dos dias, estes dias que, plenos de transformação, nos levam a um constante arregaçar das mangas com o objectivo central de quebrar monotonias e enfados.

Tezvetan Todorov. Fala-nos dum objectivo da pesquisa e, sobre ele, sugere que cada acto pode revelar apenas o resultado de um tempo. E a pergunta nasce de chofre e é pertinaz: o tempo de quando? De sempre… de ontem, de hoje, de amanhã.

Acontece que este tempo que ora atravessamos é, isso sim, de procura e descoberta de novas formas poéticas. A palavra é, por assim dizer, a chave que abre portas para todas as buscas e serve de elemento a todas as formas ou regras. Ora, o objectivo da pesquisa, segundo Todorov, propõe descrever formas de linguagem próprias da poesia, por oposição à prosa. A quebrar tal ideia, e já em plena transformação de novas formas de linguagem, em inícios da década de sessenta, poetas como Nuno Júdice e Carlos de Oliveira, evidenciaram-se no uso de uma estratégia de liberdade, tendo como objecto a palavra livre, o que provocou fissuras de opinião em alguns sectores mais conservadores.

E devemos convir que os poetas e escritores quando escrevem fazem-no com a certeza dum destinatário específico que exige mudança e renovação: o leitor. Nesta exigência, o autor é o ponto de partida e o leitor o ponto de chegada, num eixo transversal que deve espraiar num mar de prazer do texto.

Neste sentido, a escritora Adelaide Graça desprezando as tradicionais “formas de linguagem próprias de poesia” traz a público uma mão cheia de poemas livres de encher o branco da página numa prosa poética onde empresta o sentido das coisas em mensagens projectadas pelo jogo irreverente de palavras que encarnam realidades e fantasias, sonhos e paixões, loucuras e enigmas, a suavidade de uma flor ou um voo de ave, imagens subtis de uma beleza funda, buscada numa vivência interpessoal, em ambientes naturais tal como escreve em “Do Tempo de Quando”: «… adormeceram todos os pássaros e todas as aves…» e transfigura um tempo sem idade pelos indizíveis carreiros da infância num traço que se adivinha a lavrar eternidades, registadas num livro que teve já apresentação no decorrer das feiras do livro de Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira. Aliás palcos que lhe são familiares e que a autora conhece desde o seu Limites da Razão editado em 1998.

Neste seu novo livro, encontramos páginas e páginas de prosa poética que encanta pela musicalidade e ritmo, pelo poder suave das imagens, pela discrição das coisas simples, como um voo de ave, a ocultação dos trilhos onde deixamos as nossas pegadas, pela evocação dos dias que percorrem o mesmo destino das mãos, a revelação de segredos fixados pela água dos olhos até ao pôr do sol, porque a poesia tem a particularidade de colocar o poeta antes e depois de si, depois de tudo, como se tudo fosse apenas a confissão duma loucura – a de ser-se poeta – em perfeito abandono pelas regras estabelecidas.

Nesta linha de conta, e depois de saltar adentro destas páginas e fruir da beleza que delas emerge, é-me grato dirigir-me à autora para lhe confessar: morri como se nascesse, agora nasci para morrer na beleza dum poema.

p1010005.jpg

À esquerda a escritora Adelaide Graça.

Na hora que havia de vir.

De novo a minha escrita erótica

royo.jpg

Os lábios se uniram num beijo de gratidão recíproco e selaram o encantamento que ambos sentiam. Deixaram-se cair para o lado, com os seus corpos nus enlaçados, num abraço forte que teimava em não se desunir. Ficaram assim uns tempos. Um tempo que não existia. Não havia horas. Só as horas seguintes. Havia um só corpo, um só coração, em dois corpos fundidos.

A respiração sufocante, a palpitação descompassada, iam abrandando, tomando o seu ritmo normal. Estavam no deleite dos virtuosos a comprazer-se com a ocasião ímpar.

Amor, paixão, desejos tudo ali estava presente a querer continuação. Na hora que haveria de vir. As roupas no chão, a cama desfeita, os lençóis embrulhados, os corpos húmidos de transpiração, deixavam adivinhar o que ali se tinha passado. Não durou muito e adormeceram nos braços um do outro, muito agarradinhos.

Não sei quanto tempo se passou. Pareciam ter sido horas. Ali não havia relógios. Irá ficar para sempre a dúvida. Os olhos resplandecentes dela abriram-se, sacudiu os cabelos com as mãos e aplicou-lhe um beijo suave e terno nos seus olhos semicerrados que se tinham recusado a fechar ao inesquecível acontecimento. Ele despertou sobressaltado. Num ápice passou-lhe pela cabeça que teria estado a sonhar. Mas não, o sorriso radioso da amada, não enganava. Delicadamente retribui-lhe com um beijo na boca. Estavam ambos acordados.

Abraçaram-se de novo. Não falaram, não era preciso. Pela cabeça de cada um deles o filme era mil e uma vez rebobinado. Suas bocas se uniram uma vez mais. As línguas se tocaram outra vez. Estavam insaciáveis. Ela gostava muito de o beijar e ao mesmo tempo mergulhava o seu olhar penetrante, nos dele, tentava perceber as suas motivações próximas. Não precisou de muito tempo.

Seus corpos se entregaram um ao outro, de novo. De repente sem darem por isso estavam no chão embrulhados e balanceados em movimentos puros de sedução e atracção que os deslumbrava. Ele pegou nela e sentou-a no seu colo, frente a frente, as costas dele coladas à parede fria, mas isso não importava. Na sua frente estava a mulher que queria possuir.

Um tsunami de prazer

De volta à minha escrita erótica.

namoro.jpg

Os lábios apertavam com vigor o membro duro. A língua dela desenhava uns belos e harmoniosos movimentos geométricos, numa dança sensual de cobiçada cumplicidade. E o pénis hesitava entre acompanhar o saracotear da língua e entrar no bailado ou espraiar-se egoísta, a acompanhar tão bela e lasciva demonstração de amor.

Ela lambia o seu sexo degustando seu cheiro, o paladar, e a sua língua percorria todo o canal ejaculador firme e cheio em movimentos desregrados, por onde haveria de passar o líquido cremoso, deleitoso, que seria oferecido à sua companheira, vertido na mais bela salva, para ser sorvido, ate saciar a sua sede do prazer e da paixão.

Os movimentos dos corpos eram consistentes. Na cama já, estendidos, seus corpos se entregavam à volúpia desmedida e descontrolada. Os beijos sucediam-se, as línguas confundiam-se, as salivas misturavam-se, num dois em um, em cadência e resplendor. Nada os poderia fazer parar. Ela e ele não viam mais, não sentiam mais nada, o tecto podia cair, a casa desabar, um tsunami de desejo e sensualidade estava a acontecer naquele preciso momento. A chama estava ateada. Ninguém poderia prever a dimensão e as consequências daquele fogo.

Ela tomou de novo seu sexo. Sentiu que ele estava muito perto do orgasmo. Agarrou-o com vontade, passou-lhe a língua pela glande, introduziu-o na boca e em movimentos mais acelerados, em vaivém, sentiu, na quentura do seu membro e nos gemidos incontroláveis que a “combustão” estava demasiado próxima. Antes do tempo desejado. Não demorou um minuto sequer. Um jacto de prazer e de paixão afogou-se na sua boca. Os olhos dele reviraram-se. Não via nada. Sentia-se nas nuvens. Ela, por seu lado, não desperdiçou peva. Engoliu tudo até à última gota e lambeu o seu sexo com doçura, lavando-o em saliva. Com prazer e com muito amor. Acabaram por adormecer, extasiados. Sem contar.