Debate à esquerda

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À esquerda, na Blogosfera, está a travar-se um intenso e interessante debate ideológico. Muito à distância, vou acompanhando com alguma curiosidade e alguma piada, mas mesmo assim, não a suficiente, para me entusiasmar, por aí além.

Digamos que aquelas discussões são muita areia para a minha cabeça. Não apenas porque a discussão é muito teórica e especializada, tão ao gosto de jovens intelectuais e debutantes políticos, e portanto não ao alcance de pessoas comuns, como eu – com débeis conhecimentos de ciência política, de economia e dos pensadores políticos, clássicos ou contemporâneos – e cuja aprendizagem política foi a escola da vida, mas porque discussões e polémicas do género, são recorrentes e no que me toca já a tive a minha parte, há muitos e muitos anos, quando militei na OCMLP (organização comunista marxista leninista portuguesa) e a esquerda (à esquerda do PCP) se entretinha em discussões estéreis, indubitavelmente sectárias e intolerantes, mas com o mesmo denominador; estarem desligadas dos problemas reais das pessoas e das suas necessidades objectivas.

Com isto não pretendo depreciar o debate de ideias, sério, frontal, apaixonado, mais ainda sendo da minha área política, a esquerda. Apenas, pretendo deixar um alerta, como homem de esquerda; não se distraiam com coisas acessórias, com pontos finais e virgulas, com pequenas diferenças políticas cujo importância política, poderá interessar para o novo milénio. A esquerda já perdeu demasiado tempo. O que importa agora é o momento. A vida concreta das pessoas: como resolver o problema do desemprego, pagar a renda de casa, os livros dos filhos, os encargos bancários, acabar com a pobreza, dar de comer a quem precisa, uma casa a quem não tem onde dormir, protecção e segurança social aos idosos, integrar os excluídos, respeitar as diferenças, acabar com as guerras…

As pessoas de esquerda, sem deixar de cair os grandes sonhos, as suas saudáveis utopias, precisam de ser mais práticas, em nome dos que sofrem hoje. Deixando de lado, vanguardismos ou arrogâncias intelectuais e actuando com muito humildade democrática. Para ganhar a maioria social. Para ganhar o poder. Para dar combate a políticas injustas e capitalistas. Por uma esquerda nova, adulta, de confiança.

A série de debates está aqui.

Venezuela e Chavez. Uma Democracia um democrata. Até ver …melhor.

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Chavez foi a votos, perdeu e aceitou os resultados. A Venezuela é um país democrático. A prova está feita. Ganhou a oposição. Num regime anti-democrático as oposições não ganham as eleições. Hugo Chavez, aparentemente, também é um democrata. Agora terá de experimentar um longo “período de nojo”, se quiser apresentar novamente esta sua proposta de “revisão constitucional” aos eleitores. É o mínimo que se exige a um democrata. Em democracia ninguém é excluído e todos devem poder defender as suas posições. É assim a democracia. Até ver não têm razão quem arremessava os maiores impropérios a Chavez, como as de um ditador. Até ver.

Até ver também não têm razão quem temia a vitória do Sim. Porque em democracia não há que temer as escolhas dos eleitores. Em democracia, claro. E sendo a Venezuela uma democracia, a democracia recusou alterar alguns princípios constitucionais que a maioria, considerava ter laivos anti-democráticos. Ou pelo menos tinha receios.

Pessoalmente não tenho uma posição definitiva sobre Hugo Chavez. Não sei se é um (potencial) tirano ou se é ou revolucionário dos novos tempos. Nunca me entusiasmaram muito as boas medidas no campo político e social ou as diatribes contra o imperialismo americano ou as multinacionais, mas também nunca dei crédito a quem o qualifica de ditador ou populista. Não aprecio especialmente o estilo nem a forma como pretende instaurar o “socialismo”. Mas é cedo para julgar o seu carácter e a “bondade” das suas intenções e as suas propostas ainda não são suficientemente claras.

Mas uma coisa deveria saber Chavez se é um revolucionário; é que nos regimes democráticos a revolução, não se faz por decreto, nem o socialismo se impõem à “bruta”: em democracia, a revolução e o socialismo progride, em primeiro lugar, através da criação de poderosos mecanismos de participação livre, democrática e cidadã e também de instrumentos de controlo popular e democrático, das decisões dos órgãos do poder. É isto que os revolucionários esperam de Chavez, agora …se Chavez for realmente um revolucionário.

Aprofundar e dar mais qualidade à democracia e depois deixar nas mãos do Povo a escolha dos seus destinos, sem medos. Caso contrário, as dúvidas sobre as reais intenções de Chavez, subsistirão. Um ditador ou um revolucionário? Ou alguém bem intencionado mas com falta de cultura democrática? Estou mais inclinado para esta última. Até ver.

Limpar a palavra Socialismo

“Hu Jintao [ Presidente do Partido Comunista Chinês e Presidente da China] lançou um apelo aos 73 milhões de membros do partido para que mantenham levantada a “grande bandeira do socialismo com características chinesas”.

Sempre que a China é notícia, os camaradas comunistas do PCP que me desculpem, lembro-me sempre das relações amistosas entre o Partido Comunista Português e o Partido Comunista Chinês. Não consigo perceber estas amizades, sinceramente.

A China é um país onde impera um capitalismo de Estado selvagem e uma ditadura feroz, não tem nada a ver com o Socialismo. É preciso devolver dignidade à palavra Socialismo.

Hasta la Victoria Siempre!

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UM SONHO PODE CUSTAR UMA VIDA.

FAZ HOJE, 9 DE OUTUBRO DE 2007, QUARENTA ANOS QUE UM SARGENTECO DO EXERCITO BOLIVIANO, A SOLDO DA CIA E DOS ANTICASTRISTAS, CEIFOU A VIDA A ERNESTO GUEVARA DE LA CERNA. (IRONIA DO DESTINO. CURIOSAMENTE ESSE SARGENTECO ACABA DE READQUIRIR A VISÃO P’LAS MÃOS DE MÉDICOS CUBANOS. DUPLA VITORIA DO CHE COMO ALGUÉM ESCREVEU)

“En nuestro afanoso oficio de revolucionarlo, la muerte es un accidente frecuente” escreveu Che.

Este poema de Álvaro de Oliveira lembrou-me Che, em homenagem ao guerrilheiro ouso usurpar as palavras do poeta:

“O TEU OLHAR / QUE SOLTO TE CONVOCA / E NOS CONVOCA ”

[Aquele olhar captado por Alberto Díaz Gutiérrez, – que o mundo conheceu como Alberto Korda – imortalizou na celebre fotografia de Che, tirada a dia 5/3/1960 quando este participava protesto contra a explosão de um barco que matara 136 pessoas. Alberto Korda estava então longe de imaginar que a sua foto correria mundo e se transformaria maior ícone da esquerda de todo o mundo.]

Desculparão o abuso mas hoje, particularmente hoje, senti necessidade de homenagear Che, uso para isso o espaço do Fernando, sei que ele não se me levará a mal.

De igual modo imagino que Álvaro de Oliveira não se sentirá incomodado com o uso do seu poema. Até porque, como escreveu Manuel Alegre “A qualquer momento / qualquer um / pode dizer: eu sou o Che.”

São de Alegre as palavras que ilustram a minha homenagem:

“De todos os guerrilheiros / ele é o único insepulto / nem sequer se sabe se ressuscitou / ao terceiro dia / Não está em parte nenhuma / o que significa que pode estar em toda a parte
“O foco guerrilheiro existe sempre. Em cada um de nós/ existe um foco. Uma guerrilha possível / uma insubmissão, / Nem é preciso procurar além a serra / o lugar propício / inacessível / A serra está em nós. Começa / em certas noites no nosso próprio quarto / irrompe subitamente sobre a mesa de trabalho / pode aparecer à esquina / em plena rua”

JC

Nota: O tempo, nesta altura, é curto já o tinha dito aqui, ocupado que ando noutras coisas da vida. Por isso e certamente com a cumplicidade do JC, aproveito o seu comentário para dar o destaque que Che merece, prestando-lhe a minha homenagem também.

Divagações.

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Qual o caminho para capitalizar o descontentamento gerado pela social-democracia tecnocrática de José Sócrates? Talvez dissolver o Bloco de Esquerda para criar uma nova plataforma que junte o eleitorado de Manuel Alegre e Helena Roseta e o dinamismo de um novo líder chamado Carvalho da Silva? Não: aconteceu o mesmo na Alemanha no Verão e acontecerá em Itália ainda este ano.

(da Focus de hoje)

Será que é possível à esquerda, às várias esquerdas, esquerdas-esquerdas, encontrarem plataformas mínimas de entendimentos, cada vez mais alargadas? Serão possíveis, entendimentos que conduzam a um partido único, a um Partido da Esquerda Portuguesa, como é o meu desejo?

Que esquerda nova queremos, afinal? Estamos dispostos a sacrificar os nossos “grupos”?

É possível construir um movimento ainda mais largo e mais aberto? É possível chamar os renovadores comunistas, os independentes, os votantes de esquerda, doutros partidos a esta nova organização?

Em que domínios e quais os pontos comuns, susceptíveis de unir a esquerda, na prática e concertadamente?

Serão movimentos tipo “Movimento Intervenção Cívica”, Fórum Social, ATTAC, espaços privilegiados e adequados, de discussão, de procura dos caminhos, de reflexão sobre as escolhas fundamentais e prioritárias, da congregação dos esforços para dar forma a actuações mais eficazes?
(…)

(de A hora que há-de vir!..)

Os partidos são um instrumento político, não podem ser o fim.

Miguel Portas (citado pela Focus)

O povo não pode esperar

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Eu ando um pouco zangada com a esquerda. Em particular com o Bloco de Esquerda. Porque é do Bloco de Esquerda que espero alguma coisa mais.

O PCP sabe-se, não quer mudar nada à esquerda. A existência do PCP resume-se a fazer uma oposição conservadora e corporativista. Aos dirigentes do PCP chega-lhes a CGTP para a luta política e o protesto, uma dúzia de deputados para quase nada de relevante e um passado político na luta antifascista.

O Bloco de Esquerda deve querer mais. Eu quero mais do Bloco senão não vale a pena. O Bloco deve querer ser um partido do poder. Agora. É isso que deve anunciar. Sem isso nada feito. O Bloco com três, sete ou dez deputados, é a mesma coisa. Para mim bastava um com o tempo de antena dos sete. O Bloco de agora não é melhor que o Bloco quando tinha dois deputados. O que eu espero é um Bloco a influenciar a governação. O mais rápido possível. Com acordos ou partilhando o poder.

Com este PS de Sócrates não há acordos possíveis, mas o discurso do Bloco deve ir ao encontro das expectativas dos eleitores do PS, quebrando o PS, provocando divisões internas. Precisa de olhar igualmente para a massa de eleitores do PSD. Para isso precisa de fazer algumas reorientações no discurso político. Também na prática política. Precisa adaptar a linguagem. Inventar formulações. Ser popular. Não aparecer aos olhos dos eleitores como estando sempre do contra.

Tal não significa abdicar dos princípios, dos objectivos, das propostas políticas. O Bloco tem um projecto político e em algum momento deve ser colocado em causa.

Mas não se pretende a revolução amanhã. Pode ser depois de amanhã. Mas para isso é preciso conquistar as pessoas com inteligência. Desde que sejam povo todos os apoios são bem-vindos.

O que as pessoas, todas as pessoas de esquerda desejam, se verdadeiramente são de esquerda é antes de tudo, o bem-estar do povo, é dignidade e justiça social, são enfim melhores condições de vida para todos. E liberdades.

Quero dizer por fim que estou mais à esquerda que nunca. Mas as discussões filosóficas e ideológicas, não podem iludir um problema premente; o povo não pode esperar.

Uma nota final. Gostava de ver o PCP empenhado numa convergência à esquerda sem preconceitos e sem pretensões de liderança. Será um dia… porque o PCP é indispensável.

Vulnerabilidades

Francisco Louçã considerou a eleição de Luís Meneses para Presidente do PSD, como um sinal da crise do sistema político e da sua “vulnerabilidade ao populismo”.

A mim também me preocupa o populismo enquanto “exploração das emoções e da ignorância com fins políticos”. Mas não é qualquer um que, o querendo, consegue ser “populista”.

Para ser “populista” também é preciso estar ligado ao povo, conhecer os seus problemas, dificuldades e dramas. E ter obra feita. É isso que explica, tal-qualmente, as vitórias dos Jardins, Isaltinos, Valentins, Fátimas. E também de Luís Meneses.

Mais do que a preocupação por “um sinal de crise do sistema político” a classe política bem pensante, devia aprender com o que de melhor tem esta gente; uma efectiva ligação ao povo, em vez dos discursos técnicos, estereotipados, inacessíveis à maioria das pessoas.

A vitória do Luís Meneses significou a derrota das elites, dos barões, dos intelectuais bem pensantes, dos “indígenas” do Compromisso Portugal. E para mim significou uma indicação de vontade de mudanças políticas à esquerda.

Sendo-me indiferente o estilo e a forma de fazer política de Meneses, uma espécie de santanismo travestido, pouco edificante politicamente, fico encantado com a derrota de uma parte da corja política que vem administrando o nosso “sistema político”. E estou-me nas tintas para o futuro do PSD. Ou melhor espero que se afunde …

Esperava que Louçã também se tivesse referido à derrota do “sistema político” dos poderosos derrotados.

Pensar à esquerda (II)

(continuando)

Estando o PS tomado por políticos com princípios neoliberais e a realizar com sucesso as políticas da direita, seria espectável um suplemento de embaraço nos partidos à direita e uma oportunidade dos partidos à esquerda.

Há direita os embaraços são evidentes com um PSD destrambelhado e um CDS sufocado.

O escorregamento para a direita do PS lançou o pânico às hostes do PSD ao pressagiarem um longo afastamento da governação, depois do PS ter ocupado o espaço político que era o deles. Os rapazes do CDS por sua vez andam de cabeça perdida, sem ideias, sem propostas, sem saber que fazer para não fenecer. A direita está perturbada.

As eleições para líder do PSD vieram ainda exibir os sórdidos e inconfessáveis interesses pessoais e/ou a soldo de gente poderosa que fazem com que o PSD se mexa, patenteado nas múltiplas e nebulosas “movimentações”, dos últimos dias que envolveram destacados militantes, actuais e antigos dirigentes, ex-ministros, empresários, ao ponto de perderem a compostura com insinuações grosseiras, ataques raivosos, ofensas pessoais e acusações de toda espécie e feitio.

De há muito que se fala na refundação da direita portuguesa. Parece ter chegado o momento. Se por acaso querem chegar ao Governo do país na próxima dúzia de anos.

Há esquerda …

( a continuar com calma e tempo)

As bestas fascistas querem passear em “liberdade” em Viana

Um grupo de fascistas planeia no próximo sábado, um passeio em Viana “pela liberdade”, segundo anuncia o blogue fascismo na rede.

Como é sabido a Constituição proíbe as organização fascistas e a difusão “.. dos valores, os princípios, os expoentes, as instituições e os métodos característicos dos regimes fascistas …”, proibindo-lhes o exercício de toda e qualquer actividade.

Cá por mim concedo o direito individual a esses energúmenos de se manifestarem em liberdade, no estrito respeito constitucional, sem contudo deixar de os considerar uns seres asquerosos, reles e desprezíveis.

A confirmar-se o desfile, espero que os cidadãos vianenses, uma terra das liberdades, da resistência antifascista e de democratas, manifestem o seu desprezo vigoroso a essas figuras abjectas.

Pensar à esquerda (I)

Penso não estar enganado se disser que nos espera um largo tempo de governos do Partido Socialista pela frente. Creio não exagerar se disser que o próximo mandato são já favas contadas. O Governo até agora conseguiu passar as medidas mais gravosas de sempre dos interesses populares, apesar dos constantes e grandiosos protestos de centenas de milhares de pessoas, nas ruas e nas empresas, por todo o país, como nunca foram vistos, mas com as sondagens surpreendentemente a marcar sempre uma hegemonia do governo, à custa de uma hábil e bem conseguida manipulação da opinião pública, entre outras razões.

Agora a meio do mandato, com uma oposição incapaz de contraditar as políticas e a propaganda do Governo, com um povo resignado e complacente, com um programa de reformas mais leve a fechar e com uma conjuntura económica mais favorável, o Governo passeia-se vitorioso até 2009, com grande exuberância, sobranceria e arrogância, e posteriormente a um novo mandato, sem que se vislumbre quem possa impedir esta marcha triunfante.

O Partido Socialista acabou com o resto de alma socialista, deitou fora as promessas eleitorais, o programa eleitoral, o programa do partido, borrifou-se para os militantes, simpatizantes e eleitores e “governou-se” por sobre a acostumada apatia e indulgência dos portugueses, apoiado, numa eficaz e capciosa máquina de comunicação, para atraiçoar as esperanças e os sonhos de muitos portugueses.

Hoje, ironicamente, o país está mais à direita, com um governo de “esquerda” do que com os governos de direita. Para a história ficará um Partido Socialista a realizar políticas de direita que nenhum governo de direita, alguma vez conseguiu e que não tem paralelo na Europa e que própria direita teria pudor de consumar.

O PS está hoje, circunstancialmente ou não, confiscado por políticos com princípios neoliberais e internamente não se descortinam alternativas e vontades, competentes e credíveis, para ensaiar uma tentativa de inversão destas políticas, sendo que as dificuldades são imensas, por causa de uma conseguida propaganda que as faz chegar como inevitáveis e únicas.

Por outro lado a restante esquerda partidária, no debate político e ideológico, na apresentação de propostas concretas, na afirmação de políticas alternativas, não consegue perante o povo de esquerda, marcar as diferenças, aparecer como uma opção credível ou mesmo ser capaz de se entender em políticas comuns mínimas, suficientes para mexer as águas, agitar consciências, desenvolver inquietações, em particular dentro do Partido Socialista, por forma a alimentar descontentamentos e provocar fissuras ou roturas definitivas com as políticas seguidas.

(talvez continue)