O povo não pode esperar

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Eu ando um pouco zangada com a esquerda. Em particular com o Bloco de Esquerda. Porque é do Bloco de Esquerda que espero alguma coisa mais.

O PCP sabe-se, não quer mudar nada à esquerda. A existência do PCP resume-se a fazer uma oposição conservadora e corporativista. Aos dirigentes do PCP chega-lhes a CGTP para a luta política e o protesto, uma dúzia de deputados para quase nada de relevante e um passado político na luta antifascista.

O Bloco de Esquerda deve querer mais. Eu quero mais do Bloco senão não vale a pena. O Bloco deve querer ser um partido do poder. Agora. É isso que deve anunciar. Sem isso nada feito. O Bloco com três, sete ou dez deputados, é a mesma coisa. Para mim bastava um com o tempo de antena dos sete. O Bloco de agora não é melhor que o Bloco quando tinha dois deputados. O que eu espero é um Bloco a influenciar a governação. O mais rápido possível. Com acordos ou partilhando o poder.

Com este PS de Sócrates não há acordos possíveis, mas o discurso do Bloco deve ir ao encontro das expectativas dos eleitores do PS, quebrando o PS, provocando divisões internas. Precisa de olhar igualmente para a massa de eleitores do PSD. Para isso precisa de fazer algumas reorientações no discurso político. Também na prática política. Precisa adaptar a linguagem. Inventar formulações. Ser popular. Não aparecer aos olhos dos eleitores como estando sempre do contra.

Tal não significa abdicar dos princípios, dos objectivos, das propostas políticas. O Bloco tem um projecto político e em algum momento deve ser colocado em causa.

Mas não se pretende a revolução amanhã. Pode ser depois de amanhã. Mas para isso é preciso conquistar as pessoas com inteligência. Desde que sejam povo todos os apoios são bem-vindos.

O que as pessoas, todas as pessoas de esquerda desejam, se verdadeiramente são de esquerda é antes de tudo, o bem-estar do povo, é dignidade e justiça social, são enfim melhores condições de vida para todos. E liberdades.

Quero dizer por fim que estou mais à esquerda que nunca. Mas as discussões filosóficas e ideológicas, não podem iludir um problema premente; o povo não pode esperar.

Uma nota final. Gostava de ver o PCP empenhado numa convergência à esquerda sem preconceitos e sem pretensões de liderança. Será um dia… porque o PCP é indispensável.

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Vulnerabilidades

Francisco Louçã considerou a eleição de Luís Meneses para Presidente do PSD, como um sinal da crise do sistema político e da sua “vulnerabilidade ao populismo”.

A mim também me preocupa o populismo enquanto “exploração das emoções e da ignorância com fins políticos”. Mas não é qualquer um que, o querendo, consegue ser “populista”.

Para ser “populista” também é preciso estar ligado ao povo, conhecer os seus problemas, dificuldades e dramas. E ter obra feita. É isso que explica, tal-qualmente, as vitórias dos Jardins, Isaltinos, Valentins, Fátimas. E também de Luís Meneses.

Mais do que a preocupação por “um sinal de crise do sistema político” a classe política bem pensante, devia aprender com o que de melhor tem esta gente; uma efectiva ligação ao povo, em vez dos discursos técnicos, estereotipados, inacessíveis à maioria das pessoas.

A vitória do Luís Meneses significou a derrota das elites, dos barões, dos intelectuais bem pensantes, dos “indígenas” do Compromisso Portugal. E para mim significou uma indicação de vontade de mudanças políticas à esquerda.

Sendo-me indiferente o estilo e a forma de fazer política de Meneses, uma espécie de santanismo travestido, pouco edificante politicamente, fico encantado com a derrota de uma parte da corja política que vem administrando o nosso “sistema político”. E estou-me nas tintas para o futuro do PSD. Ou melhor espero que se afunde …

Esperava que Louçã também se tivesse referido à derrota do “sistema político” dos poderosos derrotados.

Ganda noia

Vencer o Marques Mendes ou o Luís Meneses interessava-me pouco. O que contou foi que a arraia-miúda do PSD derrotaram as elites, “as armas e os barões assinalados”, as criaturas do Compromisso Portugal. Tenho a impressão de que as bases do PSD também querem mais esquerda para o país. Será por aí que o Menezes enfrentará o PS. Curioso!

A questão do poder e alguma esquerda …e também direita

O acordo entre o PS e o Bloco para a Câmara de Lisboa continua a ser uma fonte de notícias nos jornais diários. Isto por si não teria nada de mal, afinal trata-se de um acordo inédito entre duas forças, em muitos aspectos, com propostas, práticas e programas políticos, muito distintos e opostos.

Mas as notícias têm um denominador comum. Todas elas extrapolam para um acordo, em 2009 ou mais tarde, um dia qualquer, se o PS não conseguir a maioria absoluta. Este teria sido o primeiro passo, segundo eles.

O jornal Público oferece mesmo um quarto de página, a um quase desconhecido, movimento político de extrema-esquerda, “Política Operária”, para chamar de “O acordo da vergonha” o entendimento entre o PS e o Bloco.

Vejo conjugar-se na mesma apreciação sobre o acordo e sobre os seus efeitos, pessoas de direita e pessoas de uma esquerda de “contra-poder”. Ambas as opiniões bradam contra uma “deriva de direita” que visa guiar o Bloco para dentro da área governativa, oh céus!…

Eu na minha santa ignorância penso que a ambição dos partidos é conquistar o poder, para governar o país e cumprir opções de vida, modelos de sociedade, na lógica dos interesses que norteiam cada um deles.

Estar de fora, do chamado “arco do poder”, apenas na resistência, no contra-poder, a defender os nossos interesses, os interesses dos outros mais desfavorecidos, é uma luta necessária, importante, mas por si só é inglória, desgastante, desmotivante e desistente. E claro … também com fracos resultados para quem mais precisa.

A Esquerda a sério não deve temer assumir responsabilidades. Não deve temer confrontar políticas, propostas, ideias, práticas. É assim que conquistará a confiança das pessoas, dos mais pobres, é assim que ganhará credibilidade. Um partido que não almeje a conquista ou a partilha do poder não é um partido político. É um sindicato, uma associação é outra coisa qualquer.

Esta lógica de pessoas da direita que criticam o Bloco por “correr por fora”, mas que criticam também, por querer, justamente, “correr por dentro” não tem sentido, é uma artimanha, é o medo de contaminação das propostas políticas de esquerda, na sociedade portuguesa.

De igual modo, também aquela esquerda, que teme assumir o confronto em questões melindrosas, é uma esquerda que não tem confiança no projecto político, na força das ideias, não tem confiança nos dirigentes políticos, nos militantes, na organização, no povo, não tem confiança, enfim e em última análise, na possibilidade da conquista suprema de uma sociedade mais justa, mais solidária … uma sociedade socialista.

Uma nota: estou novamente de férias e por isso com menos tempo por aqui

Paulo Portas e BES, a mesma luta!

Um telefonema interceptado ao antigo director financeiro do CDS/PP, Abel Monteiro e Paulo Portas acabou como suspeito de envolvimento num negócio de favorecimento do consórcio alemão, vencedor do concurso para o fornecimento de dois submarinos para a Marinha portuguesa, quando era ministro da Defesa.

A Polícia Judiciária está agora na pista de 24 milhões de euros para agarrar o fio à meada. Foi no seguimento do telefonema interceptado, que a polícia soube que o consórcio alemão, GSC – German Submarine Consortium, transferiu 24 milhões de euros, para uma empresa do grupo Espírito Santo, a Escom UK, a laborar no Reino Unido que por sua vez, deslocou para umas contas bancárias, ainda desconhecidas, em paraísos fiscais.

Perceber a relação entre o destino final desse dinheiro e as vicissitudes que conduziram ao consórcio ter sido o escolhido para fornecer os submarinos, num caso que gerou muita polémica, depois deste consórcio vencedor ter alterado o valor inicial da sua proposta e o tipo de submarinos, é a razão da investigação da PJ, em que Paulo Portas é o protagonista principal.

Tal como no caso da Portucale, também o Banco Espírito Santo, aparece envolvido nesta operação, com o CDS/PP, onde se suspeitam de envolvimentos e apoios financeiros ilegais. Aguardemos.

Sarkozy impressionado com Sócrates.

O candidato a presidente da república francesa Sarkozy mostrou-se surpreendido com as “reformas” do governo Sócrates, tendo afirmado que “se os socialistas franceses fossem como ele, teria dificuldade em posicionar-me”.

Segundo conta o jornalista Dominique Audibert, da revista francesa Le Point, numa extensa reportagem sobre o encontro entre Sócrates e Sarkozy, no passado mês de Março, em Portugal, Sarkozinem queria acreditar no que estava a ouvir”, perante o entusiasmo com que o primeiro-ministro português, descrevia “como desfez a maioria das regalias adquiridas na função pública”.

Colocado perante a pergunta do jornalista sobre o “segredo” para apesar de ter tomado medidas impopulares, ter índices elevados de popularidade, Sócrates, riu e afirmou, “é sem dúvida um milagre”.

Não sei porquê mas veio-me à memória a frase publicitária de uma conhecida empresa “eu é que não sou parvo”. Sócrates acha que é um milagre. Eu não deixo de pensar na frase publicitária.

E não deixo de pensar que a greve geral é acertada.

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Eu não gosto.

Eu não gosto de nacionalismos. Nem gosto do termo patriota. Também não gosto do uso dos símbolos nacionais. Não gosto das bandeiras. Não gosto dos hinos. Não gosto dos orgulhos nacionais. Acho patético o uso desses termos. Tão patéticos como qualificar as pessoas, em função da cor da pele, da civilização, da nacionalidade, ou da religião.

Baptista Bastos diz e muito bem que hoje somos já um povo miscigenado, depois da passagem de “suevos e visigodos, fenícios e romanos, árabes e celtas”, somos “ …fluxos de muitos sangues [que] fazem pulsar o modo como aqui estamos …nascidos na cama do amor, no suor dos corpos, na festa do sexo. Nascemos do prazer. Saímos portugueses desse almofariz de raças, no entreacto de guerras e confrontos políticos”

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Ah é verdade, isto não tem nada a ver mas …a noite passada, numa operação desencadeada pela Polícia Judiciária foram detidos dezenas de skinheads e militantes do PNR, entre os quais o dirigente da Frente Nacional e do PNR, Manuel Machado, que em tempos foi condenado por rapto, extorsão e posse de arma ilegal, tendo sido apreendidas armas, materiais de apelo ao ódio racial e de propaganda nazi. E daqui a três dias realiza-se um encontro internacional de extrema-direita nazi.

Louçã lidera a oposição

Ora aqui está uma verdade inquestionável, segundo uma sondagem do Correio da Manhã. Mesmo quase sem falar, nos últimos tempos, Francisco Louçã faz melhor oposição de qualquer líder dos outros partidos. Diria mesmo que ganha com maioria absoluta. Também não é difícil quando os “competidores” são Marques Mendes, Ribeiro e Castro, Jerónimo de Sousa.

Mas Francisco Louçã é sem dúvida o político mais competente e mais acutilante no plano técnico e político.

E fora do quadro partidário, só Carvalho da Silva da CGTP lhe “disputa” esse terreno. Pena é que a CGTP ainda esteja subordinado a uma táctica política externa, empurrando-o para a gestão das lutas sindicais, algumas extemporâneas ou desajustadas no formato.

Mas uma coisa é reconhecer a sua capacidade de líder, a sua inteligência, o mérito e a competência, o seu desempenho parlamentar, a sua capacidade de luta, a firmeza das convicções, a sua coragem e desassombro político, outra coisa bem diferente é a desconfiança, a falta de audácia, o temor pela mudança, pelo novo, o conservadorismo típico dos portugueses, os fantasmas que povoam as nossas mentes, o medo de novas políticas ao arrepio do pensamento único neoliberal.

As mudanças à esquerda estão a acontecer nos países da América do Sul. Foi na Venezuela, na Bolívia, Equador, Chile, Brasil, ali à beirinha dos Estados Unidos. Na Holanda um partido considerado da extrema-esquerda, teve 26 deputados em 150. O que é preciso acontecer em Portugal mais ainda, para se atirar a pedrada ao charco? O que falha em Portugal?