…e depois são os padres!

“Agora vai o aborto, depois são os velhos e eu sei lá …”

Padre Octávio no final de uma marcha pelo Não em Mirandela.

in DN 7 Fevereiro de 2007.

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por Fernando Publicado em Aborto

Os Abortos de alguns Não’s

Ontem estive presente em mais um debate sobre a despenalização do aborto, promovido pela Assembleia Municipal de Viana do Castelo. Quando vou a estes debates não vou a pensar encontrar argumentos que mudem a minha opinião inabalável no Sim, mas vou com a mente aberta, tentar perceber o que leva alguém a defender o Não, usando argumentos sérios, sem fanatismos, que me permitam perceber e respeitar quem pensa de maneira diferente.

Nos dois debates a que assisti e participei fiquei muito desiludido com a participação e os argumentos do Não. Azar meu concerteza, porque já ouvi e li, as maiores barbaridades, mas também, reconheço, li e ouvi posições respeitáveis, ancoradas numa cultura de vida, filosófica ou religiosa, que merecem da minha parte, tanto de compreensão como de discordância.

Ontem ouvi o pior do Não, a face mais extremista e mais intolerante. Não vale a pena cansar os leitores, com os argumentos recorrentes de que as mulheres são criminosas, que matam seres indefesos, mas ontem, foram mais longe, não só as mulheres que decidem interromper a gravidez são assassinas, assim com todas as letras, são egoistas que abortam por desporto, abortam por impulso, abortam para não ficarem com estrias, como também quem apoia as mulheres, quem apoia o Sim, são eles também, uns criminosos em potência, uns cumplices da morte de pessoas humanas. Fiquei arrepiado e não consegui calar a minha revolta e indignação, tal como outros assistentes ao debate.

Aquela gente estava no debate errado. Eles queriam mais. Queriam o agravamento das penas, para dissuadir o crime. Queriam a pena maxima, como a que é aplicada a um qualquer cruel assassino. Não estou a inventar nada, isto foi dito de forma indirecta e algumas vezes de forma directa.

A defesa da vida, a protecção e aconselhamento das mulheres, não se faz na clandestinidade. Não se faz fora do sistema de saúde, sem apoios, sem segurança, às escondidas.

O que importa saber é como combater o aborto clandestino, como ajudar as mulheres na sua decisão, para uma maternidade e paternidade responsável, mas a isso não são capazes de responder com seriedade. Um casal tem o direito de planear a sua vida, para que os filhos que onde seguir-se, quando os pais desejarem e tiverem as condições que considerem adequadas, sejam criados com o carinho e o amor indispensável para um crescimento e um desenvolvimento harmonioso e assim lhes proporcionar uma vida com mais segurança e apoio.

Obrigar alguém a levar para a frente uma gravidez indesejada, uma gravidez inoportuna, extemporânea, ou oferecer-lhe um aborto clandestino e o rótulo de criminosa é de uma violência atroz, de uma desumanidade sem palavras. Ninguém de bom senso pode defender que a mulher merece ser castigada ou sequer a censura social. Todos nós, por experência própria, por conhecimento de situações na nossa família, no rol de amigos ou dos amigos dos amigos, sabemos de mulheres que abortaram e a sociedade não foi à Polícia a correr denunciar essas pessoas. A sociedade civil não as considera criminosas, assassinas, ninguém é capaz de afirmar que por causa disso as mulheres são piores mulheres, piores mães.

Acabe-se com esta vergonha, para acabar com o aborto clandestino e para diminuir o número de abortos e para finalmente ajudar as famílias, a ter um acesso, sem vergonha, sem temores, livremente, a centros de apoio e aconselhamento, e os jovens a ter acesso a uma educação sexual sem preconceitos e sem tábus, morais ou religiosos, desde a mais tenra idade.

Apenas votando no Sim as coisas podem mudar.

por Fernando Publicado em Aborto

As mulheres não são criminosas. É preciso mudar a lei. Para despenalizar, para descriminalizar, para acabar com o aborto clandestino.

Os deputados do Não nunca apresentaram na Assembleia da República, antes e depois do primeiro referendo, qualquer proposta para a despenalização das mulheres. Os deputados do Não, é preciso lembrar, votaram a favor de um referendo para os portugueses nos termos em que é pergunta é feita, para afirmarem se pretendem ou não despenalizar a interrupção da gravidez até às 10 semanas se realizada num estabelecimento de saúde autorizado e por opção da mulher. Estes sãos os factos.

Quando pessoas com responsabilidades, como Marques Mendes ou Marcelo Rebelo de Sousa, (que aprovaram a pergunta – a mesma do primeiro referendo) dizem agora que a pergunta é enganosa e pouco claro, estão a mentir, a gozar com a nossa inteligência e memória, é um sinal de má-fé e de intrujice rasteira.

Num primeiro tempo os defensores do Não, pretenderam levar o debate, para a “ defesa “ da vida, mas confrontavam-se com as suas próprias contradições; é que a “defesa” da vida, não se compadecia com discriminações selectivas. A “defesa” da vida, nesse contexto, não poderia, permitir o “abandono” da vida, no caso de uma má formação do feto ou devido a uma violação. Apenas casos extrordinários como José César das Neves ou Zita Seabra, é que acham que a mulher não poderia, em nenhum caso, pôr fim a essas gravidezes, de uma forma cruel e atentatória da dignidade humana da mulher. Preferiam que uma mulher violada, contra a sua vontade, “ carregue” no seu corpo a memória de uma violação.

Agora, sem vergonha, Marques Mendes, Bagão Félix e Marcelo Rebelo de Sousa, esquecendo as suas responsabilidades governativas, querem distorcer a pergunta, confundir os que na tendencialmente, poderiam vir a votar Sim, dizendo que se o Não ganhar vão apresentar propostas de despenalização das mulheres. Mentira.

Mas Marques Mendes, Bagão Felix, Marcelo Rebelo de Sousa e outros, escondem o essencial; é que vai ser o resultado do referendo que vai ditar ou não a alteração do artigo 140 do código penal que pune com uma pena de três anos de cadeia e a nódoa de criminosas para toda a vida nos registos judiciais, a quem fizer um aborto, isso ninguém lhe tira.

Para alterar a lei só votando Sim.

O voto Não com esta esperteza saloia de que vão despenalizar o aborto, o que pretendem é mitigar, confundir, desmobilizar e vão continuar a considerar criminosas as mulheres que recorram ao aborto, vão continuar a empurrar as mulheres para a clandestinidade, com todas as consequências que daí recorrem.

Para quem está “preocupada” com a vida, querem atirar para debaixo do tapete o flagelo de mulheres que vão continuar silenciosas, “culpabilizadas”, solitárias, fazer o aborto sem acompanhamento, sem cuidados, inseguro e sem lhes ser dada a possibilidade de desabafar, de conversar, de colher aconselhamentos, de especialistas de técnicos de saúde.

Esta gente nunca pensou que o aborto é melhor combatido, dentro do sistema de saúde, com esclarecimento, com acompanhamento, com aconselhamento, apenas possível num quadro de legalização excepcional? O que esta gente não que é acabar com o aborto clandestino. O que esta gente não quer é que estas mulheres deixem de ser consideradas criminosas. O que esta gente quer é fazer caridadezinha, a essa classe de “sub humanos”, de “máquinas” de fazer filhos.

Tenham vergonha e usem argumentos sérios. O que é preciso saber é como o Não quer resolver o problema das mulheres grávidas que pretendem cessar a gravidez (não usem paliativos, são mulheres que não querem prosseguir uma gravidez e ponto final); como pretendem resolver o problema da clandestinidade do aborto, sem condições, sem segurança, sem acautelar a saúde da mulher.

Porque o aborto nunca irá acabar, legal ou clandestinamente, importa dar as melhores condições, para uma maternidade e paternidade consciente, responsável, escolhida, salvaguardando a dignidade da mulher, criando condições, objectivas, para que o aborto progressivamente diminua. É isto que está em causa! Mas claro para quem tem muito dinheiro basta ir aqui ao lado a Espanha e fazer um aborto. Já os mais pobres, os desfavorecidos da vida, esses são obrigados a abortar clandestinamente.

por Fernando Publicado em Aborto

Marcha pelo Sim em Viana do Castelo

Galeria de fotos da marcha pelo Sim à despenalização do aborto, realizada hoje em Viana do Castelo e que contou com a presnça dos eurodeputados, Miguel Portas, Ilda Figueiredo e Elisa Ferreira.

 

Eu e Miguel Portas


por Fernando Publicado em Aborto

Uma mentira de tantas vezes repetida não passa a ser verdade!

Helena Pinto, deputada do Bloco de Esquerda, referiu que deputados pelo “não” à despenalização do aborto no referendo de 11 de Fevereiro, “nunca apresentaram uma proposta de despenalização das mulheres ao contrário do que têm afirmado “que existem diversas propostas para resolver a questão da penalização das mulheres” e que o Parlamento não quer discuti-las.

“Faça-se justiça sobre esta matéria e diga-se a verdade. Quem defende o “não” nunca apresentou uma proposta para a despenalização das mulheres”, declarou a deputada do BE. “Agora, como antes, não houve nenhum defensor do “não” que tenha apresentado qualquer proposta”, reforçou.

Num discurso que recebeu aplausos do PS, Helena Pinto disse não querer repetir em plenário “o debate que se realiza na sociedade” mas defendeu que “há aspectos específicos deste debate que envolvem directamente o Parlamento” e que “exigem esclarecimento”.

A deputada salientou que “o Parlamento só tem propostas de despenalização apresentadas pelos defensores do “sim”, que não houve “nos três anos do governo anterior qualquer proposta de despenalização” e a coligação PSD/CDS-PP recusou “todos os caminhos nesse sentido, fosse um referendo fosse uma lei”.

Helena Pinto mencionou o projecto de lei de duas deputadas independentes da bancada do PS, não agendado pela direcção parlamentar socialista nem por outro partido, mas sustentou que “não é um projecto sobre despenalização, é sobre suspensão provisória do processo”.

“A lei continua a considerar o aborto um crime, continua a perseguir a mulher que aborta como uma criminosa que pode ser sujeita a três anos de prisão” mas o projecto das duas deputadas independentes prevê que “se a mulher reconhecer que cometeu o crime” não será julgada, resumiu Helena Pinto.

por Fernando Publicado em Aborto

Por uma vida de escolhas II

“Legal, segura e rara”

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Dizem-me que esta frase é de Bill Clinton. A resposta com que, a dado passo, terá arrumado a pergunta sobre a sua posição quanto à interrupção da gravidez: “Deve ser legal, segura e rara”. É uma boa síntese.

Despenalizar a legítima opção de não levar uma gravidez por diante é uma obrigação de qualquer Estado de Direito, laico e democrático. Não é sinónimo de convidar as mulheres a abortar. É deixar que esta matéria, tão radicalmente íntima, se resolva, em segurança, no exercício do critério insubstituível da própria consciência. Consciência essa que, mesmo em presença da interrupção voluntária da gravidez, pode sempre decidir, livremente, levar por diante uma gravidez que começou por não ser desejável.

A criminalização da IVG, tal como persiste em Portugal, subtrai as portuguesas, todas as portuguesas, mais de metade da população, ao estatuto de cidadãs. Redu-las, tecnicamente, a incubadoras forçadas da espécie. Com trágicas, bárbaras e inúteis consequências.

Paula Moura Pinheiro

(caderno, Por uma vida de escolhas – Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim)

por Fernando Publicado em Aborto

Nojo

“Um dia quando estava feliz a brincar no mais íntimo das tuas entranhas senti algo de muito estranho, que não sabia como explicar: algo que me fez estremecer. Senti que me tiravam a vida!… Uma faca surpreendeu-me quando eu brincava feliz e quando só desejava nascer para te amar (…) Mãe, como foste capaz de me matar?…”

A carta de um pretenso feto à mãe que decidiu interromper a gravidez é, de facto, muito violenta. “Diz-me Mãe: quem poderia entrar cruelmente dentro de ti e chegar onde, com tanta segurança eu me encontrava, a fim de me matar? (…) Como poderia eu imaginar que uma mãe fosse capaz de matar o seu filho quando, em casa, não maltratam nem o gato, nem a televisão?

E continua. “Agora, Mamã, sei tudo. Estou aqui no outro mundo e um companheiro que teve a mesma sorte do que eu, disse-me que sim, que foste tu… Disse-me que há mães que matam os filhos antes de nascerem. Mãe, como foste capaz de me matar? (…) Por acaso pensavas comprar uma máquina de lavar ou um aspirador, com os gastos que talvez eu te iria causar?

A carta remata com a ameaça do Juízo Final e com um apelo. “Ele me disse que terás de Lhe dar contas do que fizeste! (…) Mamã, antes de me despedir de ti, peço-te um favor, que esta carta que te escrevo, a dês a ler às tuas amigas e futuras mães, para que não cometam o monstruoso crime que tu cometeste.

Este é apenas um excerto de uma carta que foi colocada nas mochilas de crianças de dois infantários de Setúbal, o Aquário e a Nuvem, da rede de instituições particulares de solidariedade social (IPSS), e por isso comparticipados pelo Estado, no caso dirigidos pelo Centro Paroquial de Nossa Senhora da Anunciada. A missiva de apelo ao “não” ao aborto, sem estar assinada, motivou a indignação de alguns pais, que protestaram junto das educadoras.

por Fernando Publicado em Aborto

Por uma vida de escolhas I

Poema da Maria Rita

Maria Rita
é portuguesa
Maria Rita
Tem 18 anos
Maria Rita
É mulher
Maria Rita tem
Um namorado
Maria Ritamulher.gif
Fez sexo com o
namorado
Maria Rita
Engravidou
Maria Rita
É parva
Maria Rita
Logo que disse ao
Namorado este cavou
Maria Rita
Procurou resolver a questão
Maria Rita
Encontrou uma senhora amiga
Que lhe emprestou dinheiro
Para fazer um aborto,
Shssss ali naquela mulher de
confiança
Shssss não digas a ninguém
Senão podes ir presa tu e ela também
Maria Rita não disse a ninguém,
Mas disse à mãe, e disse à tia, e disse
À irmã, também elas, todas elas,
Tinham feito abortos,
Shssss não digam a ninguém
É que o senhor polícia pode bater
À porta

Ana Vicente
(caderno, Por uma vida de escolhas – Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim)

por Fernando Publicado em Aborto

Os defensores do Não usam argumentos falaciosos.

Se estão empenhados na “defesa” da vida como dizem, para serem coerentes, deviam exigir, antes de mais, a alteração da actual lei, sabido que admite a realização do aborto em casos de violação, má formação do feto, perigo de vida da mulher etc. A “defesa” da vida não se compadece com discriminações.

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Na verdade eles não estão preocupados com a “defesa” da vida. Por trás disto estão preconceitos éticos, morais, religiosos e muita hipocrisia. Até consigo compreender quem, por razões de uma formação religiosa e um conceito de vida, em nenhuma circunstância, aceite que se faça um aborto. Mas é da mais cínica hipocrisia, colar o rótulo de criminosas às mulheres e a quem defende a livre opção das mulheres, por uma maternidade desejável, consciente e responsável e ao mesmo tempo, aprovarem a “morte” do feto se tiver má formação ou se resultar de uma violação, por exemplo.

Se fossem verdadeiras as suas razões os defensores do Não deveriam defender o Sim.

A criminalização do aborto empurra as mulheres, para as mãos de médicos ou parteiras, para um aborto, sem hesitação, sem escrúpulos, inseguro e colocando a saúde ou a vida da mulher em perigo, a troco de um pagamento, pura e simplesmente.

A legalização do aborto até às 10 semanas, defende melhor quem é contra o aborto.

Um aborto realizado num estabelecimento de saúde, com apoio psicológico, acompanhamento médico, ajuda de especialistas da saúde, permite acompanhar o processo, perceber as razões, aconselhar, proteger a mulher, ajudar a mulher a tomar a melhor decisão.

a) só não vê isto quem se recusa a ver b) quem se recusa a pensar por razões religiosas. c) quem defende o não por razões obscuras, interesseiras e hipócritas.

 

por Fernando Publicado em Aborto