Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências. Como será? O meu caso.

Vai fazer quarenta anos, como o tempo passa. Comecei a trabalhar a sério e a descontar para a Segurança Social, com treze anos (depois de ter completado o Ciclo Preparatório e ter passado no exame de ingresso ao ensino secundário), nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Prossegui os estudos à noite no curso de Montador Electricista. Ao fim de algum tempo desisti. Afinal não deixava de ser o puto que foi obrigado a crescer depressa. Ainda consegui completar, salvo erro, dois dos três anos do curso. Depois disso veio a adolescência, a política, o 25 de Abril e a escola ficou para trás.

Voltei à escola, muitos anos depois, com um nível de conhecimentos na maioria das matérias, equiparados ao curso que interrompi, em consequência de uma formação exigente na empresa onde trabalhava, decorrente da minha carreira profissional. Muito determinado, decidi voltar ao primeiro ano do curso Geral de Electricidade, sem querer as equivalências escolares do curso anterior, entretanto extinto. Cheguei assim com muita facilidade ao último ano do curso.

No último ano a meio do ano lectivo, fui chamado a um concurso interno, para quadro médio da Empresa, oportunidade que não podia desperdiçar e vi-me obrigado a interromper os estudos. Apesar disso todos os professores, com excepção do professor de Inglês (por desavenças pessoais), deram-me nota para passar o ano, com a referida excepção (e mais tecnologia eléctrica por falta de professor) imaginando não ter mais necessidade de o concluir, depois de chegar a quadro médio da empresa, supostamente o máximo que poderia almejar, não possuindo um curso superior. Afinal enganei-me …mas não adianta estar a falar disso agora.

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Como aqui já disse cedendo à “pressão” de uns amigos inscrevi-me no programa Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, um projecto destinado a adultos “ …que pretendam ver reconhecidos, validados e certificados os seus conhecimentos e competências ou que pretendam concluir percursos incompletos de educação e formação”.

Presumi, tendo em conta o que li sobre a matéria e também do primeiro contacto com a mediadora deste projecto, que seria um processo rápido e simples, uma formalidade necessária, para aquilatar o meu conjunto de qualificações.

Desde logo, foi-me entregue um dossier pessoal, onde devia descrever por escrito, o meu percurso de vida pessoal, social, profissional, escolar, formativo e também os projectos futuros, com o máximo detalhe, em cada um dos percursos, a que deveria juntar a máxima documentação, evidenciando as competências individuais, em cada um desses contextos de vida, a fim de as confrontar com o referencial das quatro competências-chave, necessárias e indispensáveis, e enfim serem certificadas …ou não.

Tudo estava a correr de acordo com o previsto até há dois dias. Nesse dia tinha sido agendado um encontro com a formadora em Matemática para a Vida, sem ter a noção do objectivo desse encontro. Eis senão quando, quase sem dar por isso, estou presente numa sala de aulas, juntamente com um grupo (já com um percurso comum) de cerca de trinta pessoas, para resolver uns “problemas” de Matemática. Mas como? Houve aqui alguém que se enganou, pensei eu.

Chamei a formadora à parte, conversei com ela e pelos vistos quem estava enganado era eu. Segundo a formadora, apesar de ter sido dispensado de algumas fases, mais recuadas do processo, teria de resolver uns problemas de matemática, por mais fáceis que eles se me apresentassem. E eram muito fáceis para não dizer risíveis, algumas deles.

Obviamente que recusei e educadamente abandonei a sala. Eu não estava ali para fazer “nenhum exame” sobre matérias para as quais tenho um certificado de habilitações académicas. E que tinha sido apresentado. Estava ali para demonstrar outras qualificações obtidas noutros contextos da vida e procurar que essas fossem validadas ou então receber formação adequada para o efeito.

As minhas competências em Matemática, para o nível de conformidade académica exigido, estavam conferidas nos três anos do ensino secundário, com uma média de 16 valores, como estão todas as outras com as excepções que referi atrás. Não precisam de ser revalidadas.

Eu bem tentei dizer que este processo visava reconhecer, validar e certificar competências em especial as obtidas fora do âmbito escolar e se julgadas suficientes, lhes ser conferida uma equivalência escolar, não visava pôr à prova as habilitações conseguidas em ambiente escolar e devidamente certificadas pela entidade escolar.

As meninas doutoras, simpáticas, bem tentaram convencer-me. Que compreendiam as minhas objecções mas que se tratavam de regras e que havia um programa delineado que tinham de ser cumprido. A mediadora do curso que já me conhecia melhor, mostrava-se compreensível e concordante com os meus pontos de vista, mas pedia o cumprimento daquelas regras mínimas.

Acabei por dizer que não. Eu não estava à espera de um diploma, para ter as habilitações escolares, para um possível emprego. Estava ali apenas, porque tendo todo o tempo do mundo, até ver disponível, tais certificações podiam, encaminhar-me para os estudos superiores, constituindo-se como um teste às minhas actuais capacidades. Mas como disse, haverá outros caminhos e outras escolhas a fazer.

O que não posso compactuar é com processos burocráticos que deturpam os programas, tal como nos são apresentados na propaganda. Mesmo que os “problemas” de matemática para resolver, fossem, por exemplo, determinar o computador mais caro, apresentando-nos um com o IVA incluído e o outro sem IVA.

A menina doutora, mediadora do curso, disse que ia ver tentar ver se havia alguma maneira de resolver este problema. Diz que nunca tinha sido confrontado com um caso idêntico. Não me admira. Adivinho-lhe dificuldades. Apesar dos Simplex’s.

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8 comentários a “Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências. Como será? O meu caso.

  1. Caro Fernando
    Este exemplo é um dos flagrantes exemplos de como o SIMPLEX se transforma ou foi transformado num COMPLEX.
    O pior é que não se veêm melhoras e não é só no ensino.
    Um abraço

  2. O programa pode ser interessante e fazer justiça a quem por contingências da vida, não pôde ir mais além do ensino obrigatório e que entretanto, no decurso da vida, adquiriu qualificações em vários contextos da sua vida, pessoal, profissional ou outros que juntamente com mais alguma formação complementar, se necessária, permitindo obter a devida correspondência escolar, seja o 9º para quem tem a 4ª classe ou o 12º ano, para quem tiver o 9º ano.

    Sobre isso tudo a favor. Mas o que estão a propor-me é realizar provas em matérias para as quais tenho habilitações escolares certificadas. E isso é subverter o princípio de reconhecer e validar competências, FORA, do contexto escolar.

    O programa não visa pôr à prova as habilitações escolares mas ao contrário visa dar conformidade escolar a competências obtidas noutros contextos. O problema é que querem dar o programa a todos por igual como se todos tivessem o mesmo grau de conhecimentos escolares.

    Naturalmente não me sujeito a ser reexaminado novamente sobre coisas que já tenho habilitações, por mais simples que seja a matéria. Não por presunção mas por uma questão de princípio que se funda em discordâncias se for este o modelo pretendido e foi isso que quis deixar claro. Em minha opinião os responsáveis locais pelo programa estão a interpretar mal o seu objectivo. Vamos ver o que isto vai dar.

  3. Meu amigo, não podia estar mais de acordo contigo. Sabes que eu acho que pessoas como tu ou como eu mesmo depois de mortas ainda nos vamos insurgir contra o prazo de validade de seis meses das Certidões de óbito. 🙂

    Um abraço.

  4. Fernando, perfeitamente de acordo. Coisas que por vezes são simples de fazer e até de todos perceberem, são depois complicadas sem qualquer razão e ou utilidade. Se já tinhas um certificado, VERDADEIRO E OFICIAL, qual a ideia de se repetir tudo. Ou não acreditam em quem passou esse certificado?
    Aliás isso é o defeito de todos os “chico espertos” que ultimamente têm mandado neste País. Esperemos que melhores dias venham.

  5. Pois é,
    o país precisa é de homens como tu, que se recusam a fazer as coisas quando não está de acordo! Manifestar o desagrado quanto a situações ridículas é o que falta a muita gente! Neste país as pessoas costumam “comer e calar”!
    Pessoalmente tambem me costumo manifestar contra situações que não concordo mas quem “come e cala” costuma chamar-me de mesquinha, complicada, ou mesmo revolucionária! Quando deveriam falar não falam e quando falam é para dizer disparates!

    Fernando, deixe-me dizer , precisamos é de pessoas com garra, o resto que se dane!

  6. pois é malta…eu pelo contrário nao posso reclamar desses cursos,embora a minha turma tenha sido cobaia e houveram muitas desavenças e situações desagradaveis.começamos o curso em abril de 2008 e no fim do ano lectivo fomos,obviamente, de férias.quando em setembro retomamos as aulas…a grande porrada na tola…os prof´s do ano anterior entregaram relatorios incompletos, ou melhor, alguns provavelmente nem entregaram.houve ali pelo menos um mes de confusão e de 21 alunos, sobraram 7.eu terminei e ja tenho o certificado…as minhas duvidas agora…será que a turma resiste ate ao fim?sim, pk no meu caso era aulas todos os dias visto que era o EFA escolar.De qualquer forma a minha parte esta resolvida (com mta pressao e chatice exercida) e do meu ponto de vista vale sempre a pena rever materias ja certificadas e aprender novas ainda k se tenha d fazer um esforço. A vida é uma luta constante, e como digo…eu sozinho nao posso fazer muito…pk os outros juntam-se a nos na indignação, mas quando o partido oposto se manifesta todos fogem com rabo a seringa.sempre foi assim…e se nao educarmos os nossos filhos d maneira diferente, será sempre assim.

  7. Olá!Fiz um curso de licenciatura em filosofia, só que a instituição não é reconhecida pelo MEC. Existe alguma maneira de fazer a validação desse curso?
    Uma vez vi uma notícia de que o MEC estva fazendo validação até imprimi os passos que deveria dar para tal feito só que não sei mais onde vi. Obrigado pela ajuda.

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