À Míngua dos Espaços

A manhã está calma. Aqui no Minho as manhãs são de sol, sempre calmas e floridas, oferecendo uma ideia de sossego e pacatez. Nem o Inverno, que parece agora menos rigoroso e agressivo, (Fevereiro já convida a umas tardes de praia) consegue desfazer tanta beleza. Razão porque um dia o Ribeirinho se deixou por cá ficar de alma e coração.

-Sabem, quero paz. O mundo está em guerra mas eu quero paz.

Depois, atirou um olhar largo sobre o prado onde pastam manadas de gado, um número maior de cabras escuras e de bom leite, e a água, ao lado, a correr num murmúrio leve. De repente, parou. Uma derra­deira voz ainda parece prender Ribeirinho às últimas notícias da TV sobre os esporádicos rebentamentos de bombas por algures no Iraque, mas preferiu dobrar-se ao cheirinho de um pé de rosmaninho, e ao aroma que por Maio as tílias e as laranjeiras começam a oferecer.

Respirou fundo, e optou por uns breves de sombra. Maio está no fim e despede-se numa tarde granjeada por cores e por sorrisos.

A manhã foi calma. Como Ribeirinho é calmo. Ele enrola a morta­lha e passa a sua extremidade pela ponta da língua de modo a fazer um cigarro. Fuma. E entretém-se com duas argolas de fumo para o ar que consegue fazer com os lábios arcados. Mesmo assim, Ribeirinho crispa-se com a notícia que lê na última página: “… George Bush está profundamente entristecido com a morte de Spot, a sua cadela…”.

O jornal aberto entre as mãos, o tempo parece ter parado no olhar,de Ribeirinho, e fica-se assim com aquela cara de espanto.

– Caramba, profundamente entristecido! – Depois disparou: ­grande sacana!

Parou. Parou ele, parou o olhar dele e parou o tempo. Parou o olhar dele, mas não parou o cheiro a rosmaninho nem o aroma da flor da laranjeira e das tílias a entrar pela janela do quarto de Ribeirinho.

Parece que parou o tempo. Apenas aquele sopro de tempo.

Não, nesse instante não estava com certeza Ribeirinho a lembrar­-se daquele General que um dia lhe terá dito que preferia a morte de vinte soldados à morte de um cavalo. Mas era Bush que não lhe saía da cabeça: este tirano dos novos tempos que já devia estar no Tribunal de Haia a responder pelos crimes de guerra que vem cometendo contra a humanidade.

– Que estranha gente é esta que num dia manda matar estupi­damente milhares de seres humanos e, num outro dia, chora a morte de um cão? Que estranha gente é esta que, a pretexto de bombas de destruição maciça, num dia manda invadir e arrasar um país e, num outro dia, vem o mundo a saber que foi por engano dos seus serviços secretos? Que estranha gente é esta?

Ribeirinho enrola as mãos como quem faz enrolar o pensamento e volta a atirar o olhar para os campos cobertos de centeio e de trigo e repara que a tarde vai ao fim.

Na véspera, adormecera. As pernas, por fim, cederam ao cansaço da caminhada. E Ribeirinho ali ficou, por algumas horas, deitado ao comprido na cama.

Descreveu os espaços e acertou os limites do interesse: poder, muito poder e petróleo. Depois, diamantes e armas, muitas armas e ouro. E cães, muitos cães rafeiros e vadios.

É assim, o Ribeirinho: gosta da América, mas não gosta do Bush; gosta da Democracia, mas não gosta dos democratas (diz isto esbo­çando um gesto com os dedos em jeito de aspas); gosta da Europa, mas não gosta dos europeus; gosta do Minho, mas não gosta dos minhotos. E gosta da mulher do tasqueiro mas não gosta do tasqueiro.

O tasqueiro, é um tipo asqueroso: sobrancelha em rês, mostra um ar vitorioso sempre que um míssil, e ele foram aos milhares, caía sobre o povo iraquiano. Ali está ele, dentro da tasca, uma cara de gozo e arredondada, a testa longa a entrar na calvície e a barriga inchada, aquele riso sarcástico e safado. Entre migas, o tasqueiro perde­-se, tomado pelas moscas. Junto dele há um cheiro a suor tardio que faz enjoar. Amofina-se por detrás do balcão e bebe até encharcar.

Ribeirinho procura fugir desta travessia que o conduz a ambientes bafientos sem respiração que chega a aumentar nele a montanha de dúvidas das tantas que já tem sobre esta sociedade civilizada. Fica-se para responder a esta vontade sem vontade, revendo passagens recen­tes que o dia-a-dia com ou sem surpresa lhe oferece. Pousou o jornal e levantou-se com uma lágrima vertida de sangue.

– Sabem, quero paz. O mundo está em guerra mas eu quero paz.

Porém, no livro de notas, apenas dois apontamentos: a morte do cão do Bush, e a profunda tristeza da família pelo sucedido. Isto sem esquecer a mulher do tasqueiro que da cozinha lhe oferecia um sorriso malandro e severamente provocador a desafiar convites para uma noite no quarto.

– Prefiro o dia e, com ele, o cheirinho à flor da laranjeira – diz ele sorrindo – mas quero entrar no teu olhar à luz do dia. O corpo desnudado. É assim que tomo o fruto proibido.

Anoitecia. Só os morcegos preferem a escuridão, e à sorrelfa, alimentam-se do azeite no interior das igrejas. E o Ribeirinho sabe que há morcegos que gostam de petróleo e, em nome de um deus qualquer, fazem a guerra. Pela noite. E matam.

Do livro “Os dias Imprecisos” de Álvaro de Oliveira

Anúncios

2 comentários a “À Míngua dos Espaços

  1. Simplesmente lindo !
    texto duma grande pureza, escrito por um homen de grande coração cheio de humanidade..
    Parabéns o Alvaro e a ti Fernando por teres publicado este lindo texto !…adorei
    Um bom sabado !
    um beijo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s