Pensar à esquerda (I)

Penso não estar enganado se disser que nos espera um largo tempo de governos do Partido Socialista pela frente. Creio não exagerar se disser que o próximo mandato são já favas contadas. O Governo até agora conseguiu passar as medidas mais gravosas de sempre dos interesses populares, apesar dos constantes e grandiosos protestos de centenas de milhares de pessoas, nas ruas e nas empresas, por todo o país, como nunca foram vistos, mas com as sondagens surpreendentemente a marcar sempre uma hegemonia do governo, à custa de uma hábil e bem conseguida manipulação da opinião pública, entre outras razões.

Agora a meio do mandato, com uma oposição incapaz de contraditar as políticas e a propaganda do Governo, com um povo resignado e complacente, com um programa de reformas mais leve a fechar e com uma conjuntura económica mais favorável, o Governo passeia-se vitorioso até 2009, com grande exuberância, sobranceria e arrogância, e posteriormente a um novo mandato, sem que se vislumbre quem possa impedir esta marcha triunfante.

O Partido Socialista acabou com o resto de alma socialista, deitou fora as promessas eleitorais, o programa eleitoral, o programa do partido, borrifou-se para os militantes, simpatizantes e eleitores e “governou-se” por sobre a acostumada apatia e indulgência dos portugueses, apoiado, numa eficaz e capciosa máquina de comunicação, para atraiçoar as esperanças e os sonhos de muitos portugueses.

Hoje, ironicamente, o país está mais à direita, com um governo de “esquerda” do que com os governos de direita. Para a história ficará um Partido Socialista a realizar políticas de direita que nenhum governo de direita, alguma vez conseguiu e que não tem paralelo na Europa e que própria direita teria pudor de consumar.

O PS está hoje, circunstancialmente ou não, confiscado por políticos com princípios neoliberais e internamente não se descortinam alternativas e vontades, competentes e credíveis, para ensaiar uma tentativa de inversão destas políticas, sendo que as dificuldades são imensas, por causa de uma conseguida propaganda que as faz chegar como inevitáveis e únicas.

Por outro lado a restante esquerda partidária, no debate político e ideológico, na apresentação de propostas concretas, na afirmação de políticas alternativas, não consegue perante o povo de esquerda, marcar as diferenças, aparecer como uma opção credível ou mesmo ser capaz de se entender em políticas comuns mínimas, suficientes para mexer as águas, agitar consciências, desenvolver inquietações, em particular dentro do Partido Socialista, por forma a alimentar descontentamentos e provocar fissuras ou roturas definitivas com as políticas seguidas.

(talvez continue)

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4 comentários a “Pensar à esquerda (I)

  1. Pingback: Pensar à esquerda (II) « Foice dos dedos

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