Até um dia

“talvez me demore      as aves adormeceram
as noites passam arrastando sonhos e ilusões (…)
nada tenho para dar-te senão manadas de silêncio (…)
aqui sorvo apenas demoras e acasos (…)
até que as aves regressem do seu sono”

Álvaro de Oliveira – Baladas de Orvalho

Nota: um irresistível cansaço apossou-se de mim. Vou fazer uma longa pausa. Obrigado a todos pela Vossa amizade.

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por Fernando Publicado em Geral

Venha a “reentré” política

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Chamar os bois pelos nomes. Há momentos em que é preciso chamar todos os nomes “feios”. Todos os nomes feios a alto e bom som. Não é isso que dá razão a alguém. Mas há alturas que é preciso, falar curto e grosso!

Não sou um adepto da guerrilha, como táctica. Gosto de resolver logo os problemas. Sou pelo diálogo, pela concertação, pela troca de argumentos. Abomino conflitos. Fico mesmo doente. Mas gosto de dar o meu murro na mesa, quando necessário. Quando tem de ser. Nos momentos certos. Detesto a hipocrisia. Defendo os consensos, os acordos, não conflituar por qualquer coisa, defendo a serenidade. Mas não compactuo com o abuso, com falsidades, com hipocrisias, com desrespeitos… aí sou bravo, transfiguro-me.

Isto anda tudo em águas mornas. Tudo muito calado. Muita diplomacia, elegância, cortesia, muitos salamaleques. Parece que não se passa nada. Tudo em férias. Tudo distraído. Tudo gente muito bem-educada. Arre!

Parece que estamos todos satisfeitos com a vida. Já resmungamos, protestamos e esquecemos. Dizemos que isto não vai lá. Eles dominam tudo. Não há nada a fazer e adormecemos, embalados.

Quando alguém diz em voz alta o que pensamos em voz baixa, vemos motivações encapotadas, insídias, desconfiamos de tudo e de todos. Ah quanta raiva, às vezes sinto!

Por isso regozijo-me quando ouço alguém a pôr a boca no trombone. A dizer o que os outros calam. A chamar o nome aos bois. A paciência tem limites. E para certas coisas, nem há margem para a paciência ou a tolerância. É preciso partir a loiça. Deixar para lá a boa educação, os bons termos.

Portugal sempre teve um problema de liderança e de falta de rumo. As nossas lideranças, as elites deste país ou são incompetentes ou são interesseiras. Os são ambas.

Por causa disso, atrasamos-nos. Por causa disso, temos problemas de contas públicas, temos um país adiado, sempre à espera de melhores dias. Temos um país em que uns enriquecem muito depressa, tão depressa como outros empobrecem. Um país de mais ricos e um país de mais pobres. Estamos sempre a bater na mesma tecla.

Quando não há dinheiro para tudo há que fazer escolhas políticas. Há que pedir maiores esforços a quem pode esforçar-se mais. A classe média-baixa, aos mais pobres, já não se lhes pode pedir mais. Há que pedir, exigir, ou retirar a quem pode.

Que venha a reentré política!

07 – Casa comigo Marta

Chamava-se ela Marta
Ele Doutor Dom Gaspar
Ela pobre e gaiata
Ele rico e tutelar
Gaspar tinha por Marta uma paixão sem par
Mas Marta estava farta mais que farta de o aturar
– Casa comigo Marta
Que estou morto por casar
– Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo, deixa-me da mão

Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
Tenho talheres de prata
Que estão todos por lavar
Tenho um faisão no forno e não sei cozinhar
Camisas, camisolas, lenços, fatos por passar
– Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
– Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão

Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
Tenho uma cama larga
Num dos meus apartamentos
Tenho ouro na Suíça e padrinhos aos centos
Empresto e hipoteco e transacciono investimentos
– Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
– Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão

Casa comigo Marta
Tenho rédeas p´ra mandar
Tenho gente que trata
De me fazer respeitar
Tenho meios de sobra p´ra te nomear
Rainha dos pacóvios de aquém e além mar
– Casas comigo Marta
Que eu obrigo-te a casar
– Casar contigo, não maganão
Só me levas contigo dentro de um caixão

Letra: Sérgio Godinho
Música: José Mário Branco
Álbum: Mudam-se os tempos mudam-se as vontades

Mais despedimentos

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Com a aquisição da Portugália pela TAP, são mais de 100 trabalhadores despedidos, por, supostamente, não haver lugar na nova estrutura da empresa.

As reestruturações nas empresas são necessárias e admite-se poder resultar de uma maior eficácia da organização do trabalho e do exercício das funções, um excesso de pessoal. Isso não é questionável. O que se questiona é que os trabalhadores são, regra geral, os primeiros a serem descartáveis, desprezando-se toda uma experiência e um saber acumulado, em favor de uma economia de custos, duvidosa, na hierarquia de valores dispensáveis.

Os trabalhadores têm sido tratados como comida para cão, disse um dia o famoso guru de administração de empresas, Tom Peters. Os nossos empresários e governantes pouco se importam. Nesta linha, Portugal tem os mais baixos salários, a maior precariedade, as piores condições de trabalho e cerca de meio milhão de desempregados.

Pensar Portugal é pensar num drama para a generalidade das pessoas.

06 – Mariazinha

Mariazinha
deita os olhos pró mar
pela tardinha
quando a noite espreitar
E no verde das águas sem fundo
já se perde da esp’rança do mundo
a afundar
a afundar

Mariazinha
deita os olhos pró mar
tão pequenina
sem saber que pensar
Vê a roda do mundo girando
e os navios ao longe passando
sem parar
sem parar

Mariazinha
deita os olhos pró mar
tão quietinha
a chorar a chorar
Uma fonte de sangue no peito
uma sombra na boca e um trejeito
no olhar sem parar

Mariazinha
deita os olhos pró mar
tão caladinha
a chamar a chamar
Vai pró fundo da noite fria
numa barca de rendas vazia
a afundar
sem parar

Mariazinha
com rendas de algas tapada
tão quietinha
no fundo do mar pousada

Letra e Música: José Mário Branco
Álbum: Mudam-se os tempos mudam-se as vontades

por Fernando Publicado em Geral

Em Portugal reforma-se mais tarde que a generalidade dos países europeus e ganha-se muito menos.

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Pois é, por muito que a propaganda afirme o contrário os dados da Euroestat estão aí a desmenti-los. É mesmo assim: Portugal é dos países da União Europeia onde a aposentação se dá mais tarde. Os portugueses, segundo essa instituição europeia, reformam-se mais tarde, que a generalidade dos países da Europa, sendo apenas superados pelos trabalhadores do Chipre, da Estónia e da Irlanda.

Na Europa dos 25 a reforma dos trabalhadores, dá-se em média aos 60,7 meses. Em Portugal aos 64,2 anos, em Espanha cerca de dois anos antes, na França aos 58,8 anos, em Itália aos 58,4 anos, na Bélgica aos 57,9 anos, no Luxemburgo aos 57,7 anos e finalmente na Polónia, aos 57 anos, os trabalhadores saem do mercado trabalho.

Com a alteração da idade da reforma, os trabalhadores em Portugal podem reformar-se aos 65 anos, suportando uma taxa de sustentabilidade, se quiserem manter os valores de reforma de hoje, ou então sair mais tarde, de acordo com a esperança média de vida, sem esse custo complementar.

O aumento da idade da reforma foi uma treta. Era (é) possível manter a idade na reforma nos 60 anos sem aumentar a idade da reforma, mudando o paradigma do financiamento do sistema da segurança social. É trabalhar até morrer.

Ainda segundo um estudo da OCDE, os trabalhadores portugueses, são os mais mal pagos na Europa a 15, ganhado cerca de 40 por cento menos.

É um fartar vilanagem!