“Do Tempo de Quando”

O Álvaro de Oliveira faz uma breve apreciação, do último livro de Adelaide Graça.

A Prosa Poética como um Voo de Ave

na escrita de Adelaide Graça.

capa-do-tempo-de-quando-frente1.jpgNuma época em que são visíveis os avanços da globalização tecnológica e o homem tende a valorizar a sua passagem pelo mundo, desprezando pequenas e grandes guerras, ainda por cima injustas, e, por via disso, as consequentes crises que neste início de século disparam no sentido da sua resignação, é na escrita que encontramos o lugar sagrado para a visitação dos dias, estes dias que, plenos de transformação, nos levam a um constante arregaçar das mangas com o objectivo central de quebrar monotonias e enfados.

Tezvetan Todorov. Fala-nos dum objectivo da pesquisa e, sobre ele, sugere que cada acto pode revelar apenas o resultado de um tempo. E a pergunta nasce de chofre e é pertinaz: o tempo de quando? De sempre… de ontem, de hoje, de amanhã.

Acontece que este tempo que ora atravessamos é, isso sim, de procura e descoberta de novas formas poéticas. A palavra é, por assim dizer, a chave que abre portas para todas as buscas e serve de elemento a todas as formas ou regras. Ora, o objectivo da pesquisa, segundo Todorov, propõe descrever formas de linguagem próprias da poesia, por oposição à prosa. A quebrar tal ideia, e já em plena transformação de novas formas de linguagem, em inícios da década de sessenta, poetas como Nuno Júdice e Carlos de Oliveira, evidenciaram-se no uso de uma estratégia de liberdade, tendo como objecto a palavra livre, o que provocou fissuras de opinião em alguns sectores mais conservadores.

E devemos convir que os poetas e escritores quando escrevem fazem-no com a certeza dum destinatário específico que exige mudança e renovação: o leitor. Nesta exigência, o autor é o ponto de partida e o leitor o ponto de chegada, num eixo transversal que deve espraiar num mar de prazer do texto.

Neste sentido, a escritora Adelaide Graça desprezando as tradicionais “formas de linguagem próprias de poesia” traz a público uma mão cheia de poemas livres de encher o branco da página numa prosa poética onde empresta o sentido das coisas em mensagens projectadas pelo jogo irreverente de palavras que encarnam realidades e fantasias, sonhos e paixões, loucuras e enigmas, a suavidade de uma flor ou um voo de ave, imagens subtis de uma beleza funda, buscada numa vivência interpessoal, em ambientes naturais tal como escreve em “Do Tempo de Quando”: «… adormeceram todos os pássaros e todas as aves…» e transfigura um tempo sem idade pelos indizíveis carreiros da infância num traço que se adivinha a lavrar eternidades, registadas num livro que teve já apresentação no decorrer das feiras do livro de Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira. Aliás palcos que lhe são familiares e que a autora conhece desde o seu Limites da Razão editado em 1998.

Neste seu novo livro, encontramos páginas e páginas de prosa poética que encanta pela musicalidade e ritmo, pelo poder suave das imagens, pela discrição das coisas simples, como um voo de ave, a ocultação dos trilhos onde deixamos as nossas pegadas, pela evocação dos dias que percorrem o mesmo destino das mãos, a revelação de segredos fixados pela água dos olhos até ao pôr do sol, porque a poesia tem a particularidade de colocar o poeta antes e depois de si, depois de tudo, como se tudo fosse apenas a confissão duma loucura – a de ser-se poeta – em perfeito abandono pelas regras estabelecidas.

Nesta linha de conta, e depois de saltar adentro destas páginas e fruir da beleza que delas emerge, é-me grato dirigir-me à autora para lhe confessar: morri como se nascesse, agora nasci para morrer na beleza dum poema.

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À esquerda a escritora Adelaide Graça.

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