O que importa é o canudo.

(imagem retirada do Arrastão)

Está por aí a correr uma campanha, patrocinada pelo Estado português, muito infeliz. A pretexto das vantagens da formação e do conhecimento, figuras públicas, aparecem a desempenhar outras profissões, pretensamente menores, menos dignas e dispensáveis, fazendo passar a mensagem que quem não tenha uma licenciatura ou outra formação académica mais conhecida, é uma pessoa falhada

São mensagens deste tipo que fazem com que este nosso Portugal seja o país reverencial, do Sr. Doutor ou do Sr. Engenheiro. Não se questiona a necessidade de formação e do conhecimento, numa sociedade acelerada e global, pelo contrário. Mas apresentar uma campanha que sobrevaloriza os estudos universitários como se uma licenciatura, por si, fosse um certificado, de competência, de conhecimento, de factor de sucesso e colocar em contraponto outras actividades, menos recomendáveis é uma merda. E quantos cursos não fazem sentido nenhum? E quantos cursos foram apenas um pretexto para o canudo que dá estatuto? E quantos licenciados, não exercem, nem actualizam a sua formação?

Este tipo de comparações entre a jornalista e a empregada de balcão que seria a Judite de Sousa se não estivesse estudado ou o cortador de relva que seria Carlos Queirós, é uma campanha que apresentam as pessoas que exercem, muitas actividades e profissões, imperceptíveis, remetendo-as para a condição de falhados e de menor consideração.

O importante é as pessoas não se resignarem e entregaram-se às actividades, à aprendizagem, ao conhecimento, com garra, com vontade, aprendendo, valorizando-se, para exercer bem a sua profissão, ganhando novas competências, novos saberes, tornando-se mais culto, mais habilitados e mais realizados, para além dos certificados universitários.

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6 comentários a “O que importa é o canudo.

  1. Não poderia estar mais de acordo.
    Este país é mesmo dos drs e engenheiros…não importa se são bons profissionais, se são pessoas realizadas, importa é ostentar esse “titulo”…mas a culpa é da população em geral que se subalterniza perante doutorzecos e engenheiros…eu, uma miuda de 26 anos que concluiu uma licenciatura porque gosta e sempre gostou de estudar, já fui tratada de modo diferente, em diversas circunstâncias, porque “descobrem” que eu sou dra…eu tenho pena , mas como eu digo sempre o meu nome é catarina (ponto final).
    Sinto vergonha de viver num país assim e sinto uma tristeza enorme porque acreditei que a minha geração podia mudar um pouco este estado das coisas…mas não, é pior, mil vezes pior…que triste que é!!
    O meu curso é uma ferramenta de trabalho como outra qualquer e, para mim, o mais importante é eu ser boa profissional e realizada com a profissão que escolhi…e fico por aqui, porque este assunto tira me do sério…

  2. De acordo caro Fernando. Neste País o que conta é realmente o canudo e o estatuto. Não interessa se somos velhos aos 45 anos, se porventura formos dispensados, é um termo menos duro, do actual trabalho e não se consegue arranjar outro, mas somos demasiado novos para termos direito à reforma.
    Eu pessoalmente aguardo há cerca de uma ano que o MAI me responda se existe em Portugal qualquer estabelecimento ou Instituição de ensino onde possa actualizar os meus conhecimentos sobre ” safety and security”, pois o curso tirado na antiga RSA, já está desactualizado. Enfim, novas-oportunidades que falham.

  3. É isto meu caro

    É esta argúcia e este sempre “em cima da onda” que faz do teu blog um lugar de referência, permite-me… de afectos…

    Foi aqui, neste pequeno espaço que li a primeira critica aquela desastrada campanha governamental. Depois, só depois, ouvi Manuel Alegre, Helena Roseta entre outros manifestarem o seu desconforto e desagrado com aquela campanha.

    Evidentemente que, de um governo comandado por alguém que faz do “canudo” uma maneira de estar; de alguém que faz uso das suas funções governamentais em proveito próprio (fazer acompanhar a prova de inglês técnico por um cartão de secretário de estado, não tem outra leitura) outra coisa não seria de esperar.

    A competência e a dignidade com que querem travestir este governo, é afinal verniz…

    Parabéns pelo blog e pelo alerta.

  4. Ontem li a este propósito uma “estória” que já tem barbas mas que cabe bem aqui neste contexto.

    Um sacristão de repente foi confrontado com um novo padre que veio substituir o padre velhinho que tinha acabado de morrer e este cheio de ideias nova, entregou ao sacristão uma lista escrita de uma quantidade de coisas a alterar. Perante a informação do sacristão de que não sabia ler o que lá estava escrito o padre de imediato, despediu o sacristão. Podia lá ser uma pessoa analfabeta. O sacristão coitado, nervoso e angustiado, saiu da Igreja e pretendeu fumar um cigarro, ele que nunca tinha fumado na vida. Procurou, procurou, mas naquele recôndito local não havia uma tabacaria. Pensou e como estava desempregado, achou que ali estava uma oportunidade de negócio. Investiu as suas parcas economias, numa chafarica e passado uns tempos o negócio desenvolveu-se de uma forma extraordinária. Uns anos depois era já um senhor, dono de uma fortuna considerável e dominava toda o negócio nesse local.
    Mais tarde, alguém, um senhor doutor qualquer, de fora, em conversa com o, agora, senhor importante e poderoso, no seguimento de uma conversa, soube que ela era analfabeto e disse-lhe ” se o senhor sendo analfabeto construi esta império, se soubesse ler e escrever, o que seria hoje!…” Levou de imediato a seguinte resposta: “Seria um sacristão”.

    Não estamos para aqui todos nós a fazer a apologia da ignorância, estamos a dizer que todas as profissões são dignas e que não há que diminuí-las ou considerar um fracassado quem tem uma profissão que não requer um licenciamento. Também a minha mãe é uma pessoa analfabeta, não sabe ler ou escrever. Teve sete filhos e um marido que a deixou com todos eles ainda umas crianças. Uma das minhas irmãs, agora com sessenta e dois anos, salvo erro, teve de aos sete anos abandonar a escola primária para ir “servir”, vulgo sopeira. Mas voltando à minha mãe que antes dependia financeiramente do marido, teve que deitar mãos à obra e andava pelas ruas a apanhar sucata e a comprar sucata (empenhando uns brincos de rainha que tinha), para ir vendr a outros sucateiros. Mais tarde na sua própria habitação (nossa casa) transformou-a no seu próprio armazém de sucata. E sem saber ler e escrever foi aguentando o negócio, ora empenhando os brincos, para comprar a sucata, ora retomando os brincos depois de vender a sucata aos sucateiros. E assim se foi aguentando e nos aguentando. A facilidade com que fazias contas de cabeça era espantosa. Ainda os outros não tinham acabo de fazer as contas e já ela mentalmente as tinha feito. Todos os meus irmãos mais velhos, ficaram pela 4ª classe, eu fui um pouco mais longe, por ser o mais novo, e fui até ao ciclo e depois, trabalhando de dia e estudando de noite, quase cheguei a acabar o curso industrial, ficaram-me duas disciplinas, porque entretanto aproveitei e investi na carreira profissional, onde cheguei a quadro técnico médio e depois, por convite primeiro e através de formação específica, investi muito tempo na área comercial e felizmente, sendo quase um analfabeto, tenho muito honra no meu percurso profissional, ao contrário de outros que apesar de uma licenciatura, são uns analfabetos funcionais.

    Aquele anúncio é um insulto a todos aqueles que não podendo estudar ou continuar a estudar, investem e investiram muito na sua profissão com toda a dignidade.

  5. olha mas o mais grave julgo eu… ainda é esta coisa das Novas Oportunidades, è que quem assiste a umas aulas destas aquilo não é escola não é nada eu andei 12 anos na escola para finalizar o secundário e agora as pessoas ficam com o 9 º ou o 12º em meses?? e aprendem o kê??? e depois para uma oportunidade de emprego será que tem as mesmas oportunidades que eu??
    não possso crer não deve ser assim, porque se fôr … discordo totalmente desta coisa, das novas oportunidades.. SÓ COM A EXPERIÊNCIA DE VIDA FaÇO O 12º ANO?? SEJA ELA A EXPERIÊNCIA QUAL Fôr???

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