25 de Abril, sempre! Uma música por dia (VII)

Fausto – Rosalinda

Rosalinda
se tu fores à praia
se tu fores ver o mar
cuidado não te descaia
o teu pé de catraia
em óleo sujo à beira-mar

a branca areia de ontem
está cheiinha de alcatrão
as dunas de vento batidas
são de plástico e carvão
e cheiram mal como avenidas
vieram para aqui fugidas
a lama a putrefacção
as aves já voam feridas
e outras caem ao chão

Mas na verdade Rosalinda
nas fábricas que ali vês
o operário respira ainda
envenenado a desmaiar
o que mais há desta aridez
pois os que mandam no mundo
só vivem querendo ganhar
mesmo matando aquele
que morrendo vive a trabalhar
tem cuidado…

Rosalinda
se tu fores à praia
se tu fores ver o mar
cuidado não te descaia
o teu pé de catraia
em óleo sujo à beira-mar

Em Ferrel lá p´ra Peniche
vão fazer uma central
que para alguns é nuclear
mas para muitos é mortal
os peixes hão-de vir à mão
um doente outro sem vida
não tem vida o pescador
morre o sável e o salmão
isto é civilização
assim falou um senhor
tem cuidado

Biografia

fausto.jpg

Oficialmente, Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias nasceu em 26 de Novembro de 1948, em pleno oceano Atlântico, a bordo de um navio chamado «Pátria» que viajava de Portugal para Angola. Foi nesta antiga colónia portuguesa que passou a infância e adolescência e começou a interessar-se por música. Filho de beirões, assimilou os ritmos africanos a que juntaria, mais tarde, os das suas origens lusas.

O primeiro grupo de que fez parte chamava-se Os Rebeldes e cultivava, naturalmente, a música pop da altura. Em 1968, com 20 anos, fixou-se em Lisboa para iniciar os estudos universitários (é licenciado em Ciências Sócio-Políticas e frequentou um mestrado de Relações Internacionais) e foi no âmbito do movimento associativo que se revelou como cantor, aproximando-se rapidamente do movimento que já integrava então nomes como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Vieira da Silva – juntamente com José Mário Branco ou Luís Cília, que viviam no exílio – e que teve um importante papel político e cultural na resistência aos últimos anos do fascismo e no processo revolucionário iniciado com o 25 de Abril de 1974.

É impossível dissociar o seu nome de discos tão fundamentais da música portuguesa contemporânea como «Por Este Rio Acima», «O Despertar dos Alquimistas», «Para Além das Cordilheiras», «A Preto e Branco» ou «Crónicas da Terra Ardente». Com Fausto, é toda uma viagem pelo universo dos sons, da memória colectiva, do sentir mais profundo que nos une enquanto comunidade(s).

Com 12 discos gravados desde 1970 (dez de originais, uma colectânea regravada e um disco ao vivo), Fausto é presentemente um dos mais importantes nomes da música em geral e da música popular portuguesa em particular. E é, sobretudo, um inquestionável grande poeta da música.

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6 comentários a “25 de Abril, sempre! Uma música por dia (VII)

  1. Mandei-lhe uma carta
    em papel perfumado
    e com letra bonita
    dizia ela tinha
    um sorriso luminoso
    tão triste e gaiato
    como o sol de Novembro
    brincando de artista
    nas acácias floridas
    na fímbria do mar

    Sua pele macia
    era suma-uma
    sua pele macias
    cheirando a rosas
    seus seios laranja
    laranja do Loge
    eu mandei-lhe essa carta
    e ela disse que não

    Mandei-lhe um cartão
    que o amigo maninho tipografou
    ‘por ti sofre o meu coração’
    num canto ‘sim’
    noutro canto ‘não’
    e ela o canto do ‘não’
    dobrou

    Mandei-lhe um recado
    pela Zefa do sete
    pedindo e rogando
    de joelhos no chão
    pela Sra do Cabo,
    pela Sta Efigénia
    me desse a ventura
    do seu namoro
    e ela disse que não

    Mandei à Vó Xica,
    quimbanda de fama
    a areia da marca
    que o seu pé deixou
    para que fizesse um feitiço
    bem forte e seguro
    e dele nascesse
    um amor como o meu
    e o feitiço falhou

    Andei barbado,
    sujo e descalço
    como um monangamba
    procuraram por mim
    não viu ai não viu ai
    não viu Benjamim
    e perdido me deram
    no morro da Samba

    Para me distrair
    levaram-me ao baile
    do Sr. Januário,
    mas ela lá estava
    num canto a rir,
    contando o meu caso
    às moças mais lindas
    do bairro operário

    Tocaram a rumba
    e dancei com ela
    e num passo maluco
    voamos na sala
    qual uma estrela
    riscando o céu
    e a malta gritou
    ‘Aí Benjamim’

    Olhei-a nos olhos
    sorriu para mim
    pedi-lhe um beijo
    lá lá lá lá lá
    lá lá lá lá lá
    E ela disse que sim

    É tão linda.. esta!!

  2. Olá Nelly.
    Obrigado por teres vindo a comentar as canções da resistência que aqui todos os dias venho colocando. Não escolho particularmente as canções, e também é difícil tão bonitas que elas são.

  3. Eu adoro os Fausto!!!
    Aprendi a gostar com a música A GUERRA É A GUERRA.
    Bela escolha.
    Dia 24 de Abril em Almada, a não perder!

    Parabéns pelas escolhas musicais, coincidem quase sempre com as minhas.

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