25 de Abril, sempre! Uma música por dia (IV)

Luís Cília – Má reputação

Nesta aldeia sem pretensão
Eu tenho má reputação
Maltrapilho ou engravatado
Acham que sou mal comportado.
Porém eu não faço nem mal nem bem
Nesta minha vida de zé-ninguém.
Mas que vida mais triste tenho
Querendo viver fora do rebanho.
Sou insultado por toda a gente,
Menos p’los mudos – é evidente

Quando há festa nacional
Fico na cama, isso é fatal.
Porque a música militar
Nunca me fará levantar
Porém não me sinto nada culpado
Por não gostar de me ver fardado.
Mas os outros não gostam que eu siga um caminho sem ser o seu.
De dedo em riste todos me acusam
Salvo os manetas –porque o não usam

Quando vejo um ladrão sem sorte
Fugir dum chui que é bem mais forte, meto o pé e com uma rasteira
Lá vai o chui pela ribanceira.
Nenhum mal faço a quem bem come
Deixando escapar um ladrão com fome.
Mas na Guarda Nacional
Não acham isto natural.
Todos correm atrás de mim
Menos os coxos- seria o fim.

Nunca na vida fui profeta
Mas sei o fim que se projecta.
Vão-me atar a corda ao pescoço
P´ra me lançarem a um poço.
Porque me fecham nesta redoma?
Por o meu caminho não ir dar a Roma
Mas que vida mais triste tenho
Só por viver fora do rebanho.
Todos verão o meu funeral
Menos os cegos – é natural

Biografia

luis-cilia1.jpg

Luís Fernando Castelo Branco Cília, nasceu em Angola, em 1943. Vive parte da sua vida de estudante em colégios internos, por ser filho de pais separados. Trava conhecimento no internato com o poeta Daniel Filipe que lhe mostra discos de Leo Ferré e George Brassens o que o leva a inflectir de tipo de opção musical. Participa nas lutas académicas de Coimbra, ou como ele refere com modéstia “era mais um que estava na cantina… sem que tivesse participação de realce”, mas o que é certo é que foi nesta data aberto o seu processo na PIDE.

Decide abandonar o país. Sai de Portugal no ano seguinte, acompanhado por um militar desertor e a esposa deste a “bordo” de um Fiat 500. Vai para Paris onde chega a 1 de Abril. Aí trava conhecimento de imediato com políticos, poetas e músicos, com realce para a cantora Collete Magny a qual o irá apresentar à editora do seu primeiro disco: a “Chant du Monde”. Grava o LP “Portugal-Angola: Chants de Lutte.”
Neste mesmo ano conhece Adriano Correia de Oliveira e Manuel Alegre (quando este vai para Paris).

As suas primeiras músicas são feitas com total desconhecimento da obra de José Afonso ou de Adriano. Trabalha na União dos Estudantes Franceses, “(…) era o tipo que tirava lá cópias (…)”. Trava conhecimento com grandes expoentes da música francesa como George Brassens, o qual é o seu “padrinho” quando se inscreve na Sociedade dos Autores, em França. Posteriormente conhece o músico espanhol Paço Ibañez, de quem se tornou muito amigo e companheiro nos espectáculos profissionais e nos de pura militância, para sindicatos, associações e partidos. Edita o EP “Portugal Resiste” e faz a música do filme “O Salto”.

Actua no festival ( tocando em frente de Fidel Castro). Conhece Carlos Puebla e traz clandestinamente de Cuba as bobines da canção de Carlos Puebla “Hasta Siempre”, as quais possibilitarão a divulgação desta canção na Europa. Edita a trilogia de discos para editora EMEN, “La poesie portugaise de nos jours e de toujours 1, 2, e 3”. São discos posteriormente reeditados em CD em 1996, em França.
Participa activamente no Maio de 68, realizando espectáculos de apoio ao lado de Paco Ibañez e de Collete Magny. Durante finais dos anos sessenta e início da década de setenta, realiza espectáculos por toda a Europa: Inglaterra, Itália, Suíça, Espanha, etc. Neste país quase que é “apanhado” pois realizou um espectáculo em Santiago de Compostela e o Cônsul Português solicitou a sua detenção. Paga uma multa e são suspensos os espectáculos seguintes.

Em 1969 é expulso do PCP clandestino em França, pois recebia em casa amigos de outras convicções políticas. O que ele nunca deixará de fazer porque eram seus amigos. Em 1971 o núcleo do PCP de Paris, verificando o erro cometido, pede-lhe desculpas pelo incidente de dois anos antes. Em 1972 actua no primeiro comício do PS em França ao lado de José Mário Branco, não sem antes colocar certas condições tendo em conta que era militante de um outro partido.

Em 1973 o “Avante”, canção de Luís Cília, é hino oficial do PCP, em Aveiro. Em entrevista à rádio Portugal Livre, Luís Cília explica ” … o Avante não começou por ser hino coisa nenhuma” – diz-nos – “foi de resto o Carlos Antunes que me pediu para fazer uma música para passar na rádio. E eu fiz, escrevi essa música, dei a partitura e a letra e nunca mais pensei nisso, não gravei e nem sequer era cantada por mim…”

Edita “Contra a Ideia da Violência a Violência da Ideia” em clara homenagem a Amílcar Cabral, então assassinado. Reedita o seu primeiro disco mas agora acompanhado por contrabaixo, com o novo título de ” Meu País”.

No 25 de Abril de 1974 regressa a Portugal, no mesmo avião em que também regressam Álvaro Cunhal e José Mário Branco. Luís Cília ainda irá assegurar por algum tempo compromissos profissionais em França, não se estabelecendo completamente em Portugal.

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2 comentários a “25 de Abril, sempre! Uma música por dia (IV)

  1. Luís Cília foi um nome quase mitico na minha juven-
    tude, tinha uma vaga noção do que ele representva. Considero-o uma figura de intelectual consequente e
    um grande exemplo de coragem, de honradez e de
    militância por uma sociedade menos embrutecida do
    que “isto”.

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