25 de Abril, sempre! Uma música por dia. (II)

José Mário Branco – Por terras de França

Vou andando por terras de França
pela viela da esperança
sempre de mudança
tirando o meu salário

Enquanto o fidalgo enche a pança
o Zé Povinho não descansa
Há sempre uma França
Brasil do operário

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
Entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Vamos indo por terras de França
nossa miragem de abastança
sempre de mudança
roendo a nossa grade

Quando vai o gado prà matança
ao cabo da boa-esperança
Bolas prà bonança
e viva a tempestade

Não foi por vontade nem por gosto …

Vamos indo por terras de França
com a pobreza na lembrança
sempre de mudança
com olhos espantados

Canta o galo e a governança
a tesourinha e a finança
e os cães de faiança
ladrando a finados

Não foi por vontade nem por gosto …

Vamos indo por terras de França
trocando a sorte pela chança
sempre de mudança
suando o pé de meia

Com a alocação e a segurança
com sindicato e com vacança
Há sempre uma França
Numa folha de peia

Não foi por vontade nem por gosto …

Biografia

jmbranco.jpg

DESDE QUE GRAVOU O SEU PRIMEIRO DISCO, há trinta anos [quarenta anos] (“Seis Cantigas de Amigo”, 1967), José Mário Branco tem-se mantido permanentemente activo. Muitas vezes como compositor, outras como cantor, músico, actor (no teatro ou no cinema), arranjador, orquestrador, militante, cooperativista, radialista. Só que 0 seu ritmo não respeita as regras insaciáveis do mercado da música e as esquivas voluntárias à ribalta têm sido vistas por muitos corno deserções. Por ele, não. A (única deserção que se lhe conhece é antiga, de uma guerra onde não quis matar irmãos. História escrita, com exílio em Paris (1963-74) e um disco a fazer desse gesto arma: “A Ronda do Soldadinho” (1969).

NA PRIMEIRA METADE DA DECADA DE 70, o trabalho de José Mário Branco pode dividir-se em duas fases. A primeira é a do exílio/resistência, com grande actividade junto dos emigrantes (musical, teatral, política), a gravação dos seus dois primeiros LPs e um trabalho, notável, como autor dos arranjos de “Cantigas do Maio” e “Venham Mais Cinco”, de José Afonso. A segunda é a fase pós-revolucionária onde, já em Portugal e derrubada a ditadura, o cantor se desmultiplica por projectos colectivos, na política, na música (GAC), no teatro (como compositor e actor na Comuna e no Teatro do Mundo) e no cinema (escreve para a banda sonora dos filmes “A Confederação”, “Gente do Norte”, “0 Ladrão do Pão”). A década de 80 é a da catarse, a descida aos infernos da desilusão, o ajuste de contas com uma geração e os seus fantasmas. “Ser Solidário”/”FMI” (1982) e “A Noite” (1985) são os testemunhos gravados da primeira metade desses anos de chumbo. Até à década seguinte, José Mário Branco divide-se entre a actividade da UPAV, urna cooperativa de músicos que ajudou a fundar em 1983, e a composição para cinema e teatro. Isto além de arranjos e participações em discos de outros músicos, como Carlos do Carmo e Janita Salomé. Entretanto, reunia já aquelas que viriam a ser as canções do seu sexto LP “Correspondências”, editado em Novembro de 1990. De então para cá, sem deixar o cinema e o teatro, tem dado especial atenção ao trabalho com outros músicos e compositores, como Amélia Muge, Gaiteiros de Lisboa, Camané, Rui Júnior ou José Peixoto (“Bom Dia Benjamim”), participando nos seus discos e em diversos espectáculos. Em 1995, também fruto de outro trabalho colectivo, foi lançado o duplo CD “Maio Maduro Maio”, gravado ao vivo, onde ele surge ao lado de João Afonso e Amélia Muge a cantar temas de José Afonso. E em 1996, com a chancela da EMI – Valentim de Carvalho, foram finalmente reeditados em CD todos os seis LPs que José Mário Branco gravou em seu nome desde 1971 até 1990.

EM 1997, José Mário Branco volta à actividade em nome próprio com um concerto no CCB a que se seguiram mais cinco no Teatro da Trindade, Coliseu do Porto e Teatro Gil Vicente em Coimbra, que viriam a gerar o registo “José Mário Branco ao vivo em 1997”. Em 1999 sai a colectânea “Canções escolhidas 71-97”.

Nota: José Mário Branco gravou também o disco “A Mãe” em 1978, 12 canções que fizeram parte da peça de teatro da Comuna, com o mesmo nome. Também em 2004 editou um novo disco, “Resistir é Vencer”.

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5 comentários a “25 de Abril, sempre! Uma música por dia. (II)

  1. Quando o avião aqui chegou
    quando o mês de Maio começou
    eu olhei para ti
    então entendi
    foi um sonho mau que já passou
    foi um mau bocado que acabou

    Tinha esta viola numa mão
    uma flor vermelha n’outra mão
    tinha um grande amor
    marcado pela dor
    e quando a fronteira me abraçou
    foi esta bagagem que encontrou

    Eu vim de longe
    de muito longe
    o que eu andei p’ra’qui chegar
    Eu vou p’ra longe
    p’ra muito longe
    onde nos vamos encontrar
    com o que temos p’ra nos dar

    E então olhei à minha volta
    vi tanta esperança andar à solta
    que não exitei
    e os hinos cantei
    foram feitos do meu coração
    feitos de alegria e de paixão

    Quando a nossa festa s’estragou
    e o mês de Novembro se vingou
    eu olhei p’ra ti
    e então entendi
    foi um sonho lindo que acabou
    houve aqui alguém que se enganou

    Tinha esta viola numa mão
    coisas começadas noutra mão
    tinha um grande amor
    marcado pela dor
    e quando a espingarda se virou
    foi p’ra esta força que apontou

  2. O Analfabeto Político
    O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
    O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.
    Bertolt Brecht

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