José Mário Branco – Mudar de vida

Já nem me lembrava do concerto, mas uma chamada telefónica veio lembrar-me, acompanhada da boa notícia. Uma indisponibilidade de alguém e dois bilhetes livres para o espectáculo de José Mário Branco, daqui a 2 horas na Casa da Música. Foi a minha cunhada a portadora da “boa nova”.

Vai ser mais um espectáculo inolvidável este “Mudar de Vida” de José Mário Branco.

por Fernando Publicado em Geral

O primeiro de Maio é um dia de luta!

Amanhã é o dia do Trabalhador. O primeiro de Maio foi o dia escolhido, para sinalizar a primeira grande jornada de luta de centenas de milhares de trabalhadores em 1886, em Chicago nos Estados Unidos, pela defesa das 8 horas de trabalho diárias.

O primeiro de Maio é assim um dia de luta. No dia 25 de Abril, foi um dia de festa, celebramos o dia das liberdades. A liberdade para todos. No dia 1 de Maio, é um dia de luta, celebramos a luta dos trabalhadores por direitos e dignidade.

Convém não confundir os planos.

No dia 25 de Abril esteve quem defende as liberdades, contras os fascismos e por isso não é razoável, aproveitar-se essa data, para fazer ataques ou criticas, fora desse âmbito. Não é compreensível, ouvir criticas e assobios a partidos políticos democráticos ou a resistentes antifascistas, como aconteceu a Edmundo Pedro, o mais jovem dos resistentes antifascistas a passarem pelo Tarrafal, apenas por representar o PS.

No 1º de Maio, sim está a luta política, sindical e social na rua. Na rua devem estar os trabalhadores que vêem os seus direitos atacados, os partidos e os sindicatos que não se revêem nas políticas anti-sociais do Governo. Deve ser uma jornada de luta e de protesto.

Em coerência, a extrema-direita fascista e xenófoba, não comemorou o 25 de Abril. Também em coerência, com os ideais nazis, (na Alemanha os fascistas saem à rua nesta data) no primeiro de Maio, e aproveitando a liberdade que Abriu lhes deu, vem para a rua, defender os trabalhadores “portugueses”, as empresas “portuguesas”, um Portugal para os “portugueses”, contra a “luta de classes” e o “capitalismo”. Em coerência ainda o cartaz é uma cópia do símbolo usado na Alemanha nazi.

De forma não muito dissimulada, em nome dos “portugueses” e de “Portugal”, está em marcha mais um ataque racista e xenófobos aos imigrantes.

Estou assinzinho…

Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado

Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada

Canta rouxinol canta
não me dês penas,
cresce girassol cresce
entre açucenas

Afaga-me o corpo todo
se te pertenço,
rasga-me o vento ardendo
em fumos de incenso

Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado

Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada

Ai como eu te quero,
ai de madrugada,
ai alma da terra,
ai linda, assim deitada

Ai como eu te amo,
ai tão sossegada,
ai beijo-te o corpo,
ai seara, tão desejada

(Né Ladeiras canta Fausto)

O dia está escondido, há uma tristeza que me afoga, se eu não voltar hoje, é porque ando a navegar para aí …em alguns olhos. Um bom dia para todos. Talvez o Benfica ganhe.

Vamos mudar isto.

No suplemento Ípsilon do Público de hoje, tomei conhecimento de que no Porto aqui tão perto, na Casa da Música, no dia 30 deste mês de Abril, José Mário Branco vai dar um espectáculo criado para o efeito, recriando o “espírito do histórico FMI”, através de um novo texto em versão rap (o FMI já era um pouco isso), de nome “Mudar de Vida”. Para grande tristeza minha, o espectáculo já está esgotado.

José Mário Branco em discurso directo nestes excertos da reportagem do Público sobre o espectáculo:

Sobre a sociedade a nível global. “Isto está insuportável. A nossa sociedade está irracional, barbarizada, desumanizada. E isto é o nosso olhar de intelectuais. Mas depois começamos a pensa nas pessoas que estão mesmo mal, naqueles olhares que vemos no telejornal, aqueles que ao fim de trinta ou qurenta anos de trabalho vão para casa sem nada, apenas com um casaco nas costas. Isto tem que ter uma leitura política qualquer. [no meu caso] é uma leitura política radical. Isto não serve. Não tem nada a ver com os valores da humanidade, tanto a nível quotidiano como global. O capitalismo está a destruir famílias, pessoas, comunidades. Tem que haver uma atitude radical que vá até ao alicerce das coisas.”

Sobre as saídas para esta situação. “Não é para repetir [os horrores do passado]. [também] não sabemos como será. Temos é que tentar. Ir buscar aquilo que houve de mais válido nas ideias e nos sonhos transformadores do passado, ver o que estragou aquilo, e conseguir um novo caminho.”

Não desistir e dá um exemplo. “Um biólogo alemão Ehrlich, quando descobriu a vacina contra a sífilis, esta matava a sífilis mas também matava o doente, era a Ehrlich 606 e ele continuou, continuou, até que chegou ao Ehrilich 914, que já curava a sífilis sem matar o doente. E nós, humanidade, quantas experiências fizemos? 606? 904? É razão para parar, para desistir? Não é.”

José Mário Branco, 65 anos de idade, filho de professores primários, muito mais vivo que morto, está aqui para isto … e para o resto, sempre firme, sempre generoso, com a mesma utopia de sempre.

Vamos a isto!

cocertoresitirevencerporto.jpg

O bilhete digitalizado do concerto do “Resistir é Vencer”.
Desta vez não vou poder ver este espectáculo. 😦

Uma pequena nota: José Mário Branco entregou-se novamente aos estudo na Faculdade de Letras e com 65 anos de idade, foi o melhor aluno do ano passado, pelo que vai receber uma bolsa de estudo. Até nisto o Zé Mário é um exemplo. 

por Fernando Publicado em Geral

Violência policial em manifestação pacífica no 25 de Abril

Sei o que é participar em actos de violência. Estive envolvido em alguns de natureza política.

Estive no cerco ao Palácio de Cristal, no primeiro congresso do CDS. Hoje considero um erro político, como tantos outros. Estávamos num período revolucionário, havia uma tentativa de reorganização dos fascistas, o CDS aparecia aos olhos de todos como o partido onde legalmente se procuravam “acobertar”. A reacção das forças militares foi muito violenta. Confesso que tive medo, com a resposta brutal das forças policiais e militares. Assustei-me com os disparos, com os tanques a avançar sobre nós, com a GNR a cavalo a entrar pelos cafés, pelos restaurantes, onde os manifestantes se refugiavam, assustei-me com os bastões a vergastar em toda as pessoas que lhes apareciam pela frente, surpreendeu-me a resposta dos manifestantes, com o incêndio de viaturas paradas, o furo dos pneus, o virar de pernas para os carros estacionados, etc.

Participei no assalto e assisti ao incêndio da embaixada de Espanha, no Porto, aquando da condenação à morte pelo governo franquista, de militantes da ETA e da FRAP. Quando a extrema-direita fascista, assaltava, incendiava sedes de partidos de esquerda, colocava bombas, assassinava militantes de esquerda, estive também estive em todas as manifestações de rua, bloqueei estradas, armei-me de matracas, de cocktails molotov, de pedras, participei em verdadeiras batalhas campais, com fascistas e outros elementos da extrema-direita, também, em resposta, apadrinhei a invasão de sedes partidárias, obstruí a realização de comícios, participei na ocupação de casas, enfim, vivi com intensidade todo o período designado como PREC.

Apesar de alguns erros, muitos erros, não me arrependo de nada, os exageros, eram próprios da época, eram a nossa defesa dos ideais de Abril, eram acções eminentemente políticas, não eram actos de vandalismo, não eram perversos, não eram provocadores. Eram sentidos!

manif25anarca.jpgmanif25anarca1.jpgmanif25anarca3.jpgmanif25anarca4.jpgmanif25anarca5.jpgmanif25anarca6.jpgmanif25anarca7.jpgmanif25anarca8.jpg

Bem isto a propósito da carga policial (que me tinha passado despercebido, envolvido que andei noutras coisas) sobre um grupo de cidadãos, que designaram de anarcas-punks, depois de terem comemorado pacificamente o 25 de Abril, ao modo de uma ideologia que renega os políticos, a política, os partidos, os governos, bem ao estilo, de paz e amor, uns charros, umas cervejolas e uma grafitadas.

Segundo o que por aí consta e está registada em fotografias e vídeos, a polícia cercou o grupo e bateu forte e feio, apanhando por medida, todos os que por ali passava ou assistiam, incrédulos.

O que me surpreende é que passados trinta e três anos a polícia continue a usar estes métodos bárbaros e indiscriminados, não olhando a meios nem a quem batem.

Mesmo acreditando no relatório da polícia de terem grafitado algumas paredes, atirado tinta a montras dos bancos, ou mesmo partindo montras (o que estará por confirmar) a polícia não pode usar da força violenta e indiscriminadamente, sobre quem pratica, sobre quem assiste, ou sobre quem passa, mas o parece aos olhos de muitos é haver uma dualidade de critérios, com os grupos de neonazis que incitam à violência, ao ódio, que batem, perseguem e assassinam cidadãos apenas porque, são de cor, imigrantes, ou perfilham ideias políticas de esquerda.

Isto não significa aprovação pelos actos dos manifestantes, pelo contrário, mas importa apurar, a justificação para tanta brutalidade por parte da PSP e o que parece ser alguma complacência com os actos nazis.

Ver vídeos aqui , aqui e aqui.

por Fernando Publicado em Geral

Carmona Rodrigues também é arguido no caso Bragaparques.

carmona.jpg

O presidente da Câmara arguido, o vice arguido, a vereadora do urbanismo arguida (estes com mandato suspenso), a ex vereadora do urbanismo arguida, mesmo considerando a presunção de inocência, será que numa Câmara como a de Lisboa, com tantos problemas, tem condições de governabilidade?

Não me parece.

Carmona Rodrigues deveria pedir a demissão e provocar novas eleições, para uma nova legitimação ou para um novo executivo da Câmara e a cidade não parar. A Câmara de Lisboa com a passagem à condição de arguido do seu presidente e perante as acusações tão graves que o atingem e a vários elementos do executivo, está ingovernável.

Governar à esquerda é possível.

No meu perturbante desassossego, um turbilhão de pensamentos agitam o meu dia a dia. Hoje não consigo abstrair-me deste pensamento:

Num sistema de multipartidarismo e de democracia representativa, como o nosso, não será possível aos governos ou às oposições manterem um discurso e uma prática consistente e coerente, quando estão no lado contrário?

Porque será que estando na oposição, o discurso político é um discurso identificado, como sendo de esquerda, um discurso que os faz ganhar as eleições e depois estando no governo, a prática é inversa ao discurso, isto é, as medidas que adoptam são, identificáveis, como sendo de direita?

Podemos dizer, sem medo de errar que são os discursos de esquerda, as políticas de esquerda, que fazem ganhar as eleições e as que correspondem aos anseios da maioria dos eleitores.

Logo seria legitimo pensar que os poderes, para darem expressão, à vontade da maioria que os elegeu, deveriam governar à esquerda, contudo, também sem medo de errar, invariavelmente, governam à direita.

O que é que isto significará?

Que os partidos e os políticos que nos tem governado, (pelo menos estes) são todos uma cambada de mentirosos? E porque mentem sempre? E porque mentindo sempre, continuam a ganhar as eleições? E porque governam sempre à direita? E porque não se governa à esquerda? Será que não é possível governar à esquerda em Portugal? Será que a esquerda está condenada a ser oposição? São questões para as quais cada um de nós terá as suas respostas.

Por agora, pretendo apenas dizer que é possível, falar verdade, falar em rigor, falar em responsabilidade, a governar à esquerda …mesmo. Mas para isso é preciso que a esquerda, seja uma esquerda credível e que apresente propostas convincentes, competentes, exequíveis, e claras nos propósitos.

Quando isso acontecer, teremos um governo e as políticas de esquerda que ao fim e ao cabo, à mais de três décadas o povo português reclama, uma sociedade melhor para viver, mais equilibrada, mais solidária, mais justa, uma sociedade digna, com uma rápida intervenção aos mais desfavorecidos e desprotegidos da sociedade que atravessam dias muito difíceis.

O Abril está a dar e ainda bem.

Nos últimos 15 dias em homenagem ao 25 de Abril, coloquei no Foice dos Dedos, quase todos os dias, uma música do canto de intervenção, com uma canção e um cantor diferente. Ficaram ainda muitas canções e muitos cantores por incluir.

Reparei agora que o Foice dos Dedos como que foi invadido por entradas, acima das 500 visitas por dia. Ontem, vésperas do grande dia, chegou ao seu máximo de sempre com 738 entradas. No dia anterior, tinham sido 575 e hoje a esta hora, 21,50 horas, vai nas 631 entradas. Uma enormidade, face a uma média entre as 200 e as 300 diárias, com a excepção de um dia, em 11 de Abril, que chegou às 389 visitas.

Mas a razão porque trago à colação este facto é apenas porque associado a este número, está, e registo com muita satisfação, em grande parte, as pesquisas nos motores de busca, de palavras como 25 de Abril, músicas de Abril ou canções da resistência. É um bom sinal! Por mim que falei bastante desta data histórica e por saber que há muita gente à procura destes temas.

Bem espero a sério que este número de entradas não seja para continuar. Acuso sempre a responsabilidade. E não gosto de estar condicionado. E também porque infelizmente o 25 de Abril não é todos os dias.

Apenas por curiosidade e porque em tempos tinha lido algures que os Blogues tinham um preço, fui ver quanto valia o Foice dos Dedos. Meus amigos, por $22,581.60, está vendido (quanto é que vale em euros?). Apenas com reserva do nome, porque esse não há milhões que o paguem e além disso tem um dono, o Álvaro de Oliveira, a quem fui buscar, a um dos seus poemas, no Baladas de Orvalho, este Foice dos Dedos.

25 de Abril, sempre! Uma canção por dia (XV)

Esta madrugada deu para ver ainda um pouco na RTP 2 o concerto de apresentação do disco de José Mário Branco, “Resistir é Vencer”, no coliseu de Lisboa. E como sempre que ouço José Mário Branco, arrepio-me. José Mário Branco é a seguir a José Afonso, o mais importante nome da música portuguesa. Não falo apenas enquanto autor, compositor, cantor, do canto de intervenção, falo, enquanto, músico de todos os géneros musicais.

Assistir a um concerto de José Mário é assistir a espectáculos inesquecíveis, deslumbrantes, muito intensos. No coliseu do Porto emocionei-me, esta madrugada, senti o mesmo. As composições, os arranjos, as orquestrações, são de génio. José Mário Branco abarcar as suas composições, com muitos músicos, muitos instrumentos musicais, simpatiza com as grandes orquestrações.

Depois de tantas canções sobre o 25 de Abril que aqui fui colocando, vou terminar esta série com uma música que aprecio bastante, especialmente, se ouvida ao vivo, com aquele toque de forte sentimento que José Mário Branco, empresta às sua interpretações.

São letras, músicas, interpretações, autênticos murros no estômago quando ouço as suas músicas.

jmbranco1.jpg

1
Do que um homem é capaz
As coisas que ele faz
Para chegar onde quer
É capaz de dar a vida
Pra levar de vencida
Uma razão de viver
2
A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho
E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
a caminhar sozinho
3
Vejo gente cuja vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder
agarrados a alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca onde fazer
4
Vão poluindo o percurso
Co’ as sobras do discurso
Que lhes serviu pr’ abrir caminho
À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
P’ra consumir sozinho
5
Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa dentro
Como a Trilateral
Co’ a treta liberal
E as virtudes do centro
6
No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo pl’o caminho
P’ra castrar a juventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho
7
Ficam cínicos, brutais
Descendo cada vez mais
P’ra subir cada vez menos
Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos
8
Quem escolhe ser assim
Quando chegar ao fim
Vai ver que errou seu caminho
Quando a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-se sozinho
9
Mesmo sendo os poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder
Mesmo havendo tanta gente
P’ra quem tudo é indiferente
Passar a vida a morrer
10
Há princípios e valores
Há sonhos e amores
Que sempre irão abrir caminho
E quem viver abraçado
À vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho
E quem morrer abraçado
À vida que vai ao lado
Não vai viver sozinho