Sócrates só perde na rua

Fui mais um dos mais de cem mil trabalhadores presentes na manifestação da CGTP.

Mas há coisas que não entendo. Devo ser muito estúpido. Não consigo perceber porque a esquerda à esquerda do PS, incluindo a esquerda do PS, continua a não perceber, porque essa esquerda, continua a ser uma esquerda residual no país.

Porque não capitaliza a esquerda, à esquerda, os votos deste descontentamento?

…porque não capitaliza a esquerda estes protestos? Chega-nos o protesto enquanto o Estado social acaba?
A esquerda à esquerda do PS, toda a esquerda, tem de fazer mais.
É preciso fazer mais do que protestar. As pessoas de esquerda precisam de alternativa de poder

Todos os dias há mais uma razão para elevar os nossos protestos.
Os trabalhadores e as populações ganham na rua. Centenas de milhares de trabalhadores, milhares de portugueses, protestam contra as retiradas de direitos, contra a carestia de vida, contra o fecho das urgências, das escolas, das maternidades, contra o desemprego,
o aumento da idade da reforma, contra o sistema educativo, o sistema de saúde…

E depois? Depois o Sócrates ganha as eleições novamente ou daqui a muitos anos voltará a ganhar o PSD.

Não bate certo pois não? Não, não bate certo. E a culpa é da esquerda à esquerda que se contenta com a meia ou uma dúzia de deputados, que se sente bem com os seus 7, 8, 9 por cento de votos, que alivia a consciência na rua ou no parlamento.

É preciso mais. Não basta resistir para ficar de bem connosco próprios. “Não é nada comigo, não é nada comigo”, lembram-se do FMI do José Mário Branco?

Eu quero mais do que resistir quero uma alternativa de governo à esquerda. Não basta o protesto e ficar tudo cada vez pior. Quero uma solução de governo. A esquerda à esquerda do PS tem de construir pontes, programas, plataformas, têm de se constituir como uma alternativa de governo. Se não não vale a pena.

Em minha opinião cabe ao Bloco de Esquerda saber dar um novo salto. Um salto na actividade política, na actividade organizativa, no programa político, para um novo projecto que catapulte toda a esquerda, para um movimento ou um partido de tipo novo. Precisamos de um novo partido da esquerda portuguesa. Nem que seja apenas para a actividade governativa. Um dia tenho de desenvolver melhor esta ideia que um dia já aflorei aqui.


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17 comentários a “Sócrates só perde na rua

  1. Caro Fernando
    Cada dia continuo mais estupefacto com o que se passa neste cantinho à beira-mar plantado. No mesmo dia em que 150.000 pessoas se manifestavam contra este (des)governo, no dizer de alguns, verifiquei que muitos dos manifestantes que se dizem contra o capital e que há uns tempos atrás atacaram a Administração da PT, esperavam à porta do Centro de Congressos da FIL para abraçar capitalistas como Joe Berardo e outros e ainda aquele que em tempos muito nãorecuados era um malandro. O Presidente do Conselho de Administração da PT. Há realmente coisas que não entendo. Mas infelizmente sou mais uma ave rara de direita que é estupido e burro e que só diz mal quando não deve e aplaude quando não é conveniente. Se assim é, haja alguém que me explique como é possível em tão pouco tempo haver tanta mudança de posições. Como é que querem levar isto para algum lado?

  2. De acordo com o post, a esquerda à esquerda do PS parece ter medo de dizer ao povo somos candidatos a governar o País, temos este programa de governo, agora somos nós. Do PCP não se espera uma atitude destas, no Bloco há quem deteste esta ideia e entretanto o povo sofre. Os trabalhadores dizem: qual é a alternativa ao PS para governar… o PSD!

  3. Um amigo um dia dizia-me, Portugal não é Lisboa e Lisboa não é o Terreiro do Paço, isto nos idos do Prec.
    A manif foi muito engraçada e aproveitei para tirar umas boas fotos mas temos que ser sinceros, não valeu peva em termos de importância política.

    Toda a gente sabe que a CGTP consegue reunir sempre cem mil pessoas quando a isso se dá ao trabalho.

    E valem isso nas urnas.
    Não chega.
    E nunca chegará, pois o mundo está muito diferente daquele que os activistas e simpatizantes desse movimento julgam existir.

  4. C. Almeida: É inaceitável a atitude dos dirigentes sindicais. Mas caro Amigo, os homens que valem a pena são mesmos esses os que não calam quando os outros consentem, os que não aplaudem quando é conveniente aplaudir. Continue a ir por aí.

    José Manuel Faria: Bem resumido; À falta de alternativa de poder à esquerda o povo sofre. Para mim não basta que a esquerda se bata contra as políticas mas que depois por falta de alternativa consistente mais à esquerda, as pessoas acabem por votar nos mesmos. E não me interessa que à esquerda do PS se consiga mais um ou mais meia dúzia de deputados. Não chega. Pode satisfazer alguns interesses individuais ou de grupo, mas não trava o que é preciso travar. Para ter um país mais justo, digno e solidário.

  5. Fado Alexandrino: Protestar é preciso. Mas não chega. E também concordo que é preciso perceber que o mundo está diferente que exigem também respostas diferentes. Mas não podemos abdicar deste tipo de protestos é preciso é ir mais além, para que tudo não fique na mesma.

  6. Caro Fernando,

    simplesmente na mouche o teu texto.

    A minha opinião é exactamente essa. O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista tem que se afirmar como uma opção de governo. Com pastas distribuídas de forma a provarem que são capazes de construir algo de positivo. De outra forma nunca chegarão a ser uma opção de escolha para aqueles que nas urnas fazem sempre um voto central e que acabam por manter esta nossa democracia numa “coisa” bipolar. PSD, PS, PSD, PS, PSD, PS…

    O problema é que a “esquerda á esquerda do PS” citando o Fernando, está há vários anos acomodada a eternas lutas sindicais e forte oposição de combate político (PCP), ao que ainda acresce nos últimos anos um Bloco de Esquerda vivo mas que insiste em não largar a malta do Chapitô. O BE não evolui para minha tristeza. Internamente e do lado dos Comunistas o erro parece ser o exagerado respeito aos dogmas leninistas sendo que do lado do Bloco a falha reside na demasiada miscelânea de ideologias. Sobretudo nas suas bases de apoio.

    O “povo” em Portugal e ao contrário do que se diz de esperto não tem nada como ainda ontem ficou provado á porta da PT…e não vejo a esquerda á esquerda do PS a assumir em conjunto com o PS determinados compromissos neo-liberais que estes tem com a UE e que são absolutamente necessários para que tenhamos os ambicionados apoios económicos…

    Logo, e em consciência eu vou continuando a apoiar o PS. É que da última vez que protestavamos contra o Guterres, quem acabou no governo foi o Durão seguido do Santana…

    Irra! Dispenso laranjas.

    PS: votei a minha vida toda na “esquerda á esquerda do PS”…

    Um forte abraço

  7. Pingback: A esquerda à esquerda do PS « A Tasca do Teixeira ®

  8. Teixeira:
    Uma boa discussão e obrigado pela deferência.

    Ferreira dos Santos:
    Já coloquei o meu mail na “Apresentação”. Recebi o cartoon. Já dei uma vista pelo cartoonices. Vai fazer parte das minhas visitas regulares e de certeza que de vez em qunado vou lá roubar alguns cartoons.
    Tem muita qualidade!

  9. “Em minha opinião cabe ao Bloco de Esquerda saber dar um novo salto. ”

    Infelizmente isto já não é verdade pois há muito que o BE vendeu a alma ao diabo.
    É que toda a actividade política na Europa está condicionada à aceitação do chamado Projecto Europeu, isto é, a institucionalização de um poder supra partidário e supra nacional que conduza toda a Europa para o mais selvagem dos capitalismos. Qualquer partido ou político que não alinhe neste golpe de mão encontra-se arrumado, sem futuro e sem acesso que se veja á Comunicação Social.
    Mas, o tal Projecto Europeu encontra-se em risco de gripar ao não conseguir fazer avançar a Constituição Europeia.
    Seria a altura ideal para um ataque geral à União Europeia que explicasse aos povos o que é que se tenta tramar.

    E o BE está a fazer isto? Não, limita-se a umas critícas cosméticas e continuando a concordar com o fundo do problema.
    Está a lutar pela sobrevivência…

  10. Fernando,

    Depois de ler o teu comentário sobre a posição do n/ sindicato no dia 2/3 senti um agravamento no sentimento de vazio que me tem consumido ultimamente.

    À medida que são emitidos novos comunicados, a minha força moral para os abrir e ler até ao fim é cada vez menor, assim como é também a minha força de vontade em continuar a apoiar atitudes e lutas que mais não parecem do que meras promoções da parte das entidades sindicais que as promovem.
    Para agravar esse sentimento de vazio existe também o facto de olhar à minha volta e não encontrar alternativas para estas palhaçadas todas.

    Parece-me que, ultrapassada esta euforia da OPA, os nossos sindicatos deveriam refrear um pouco este frenesim de auto-promoção e deveriam ponderar bem as suas posições, só emitindo comentários quando baseados em factos concretos, ou seja, sobre aquilo para o qual foram criados, que não é, nada mais ou nada menos, que defender os direitos dos trabalhadores!

    Já basta de narcisismose de campanhas de auto-promoção! Para isso já temos os políticos…

    Um abraço

    Teresa

  11. Raio,
    Não alinho em modas. Ontem era engraçado aplaudir o Bloco hoje fica bem bater no Bloco. O Bloco rompeu com a forma de fazer política, com a agenda tradicional, trouxe frescura à política quando os partidos tradicionais já tinham desistido. Um PC demissionário da luta política e ideológica (esta ainda continua) desde a queda do muro de Berlim e um PS convertido ao neoliberalismo. O Bloco “mexeu” o país e em apenas oito anos cresceu imenso. Este crescimento e influência social obrigou o Bloco a respostas mais rápidas e naturalmente, num processo em construção, nem sempre as respostas foram as melhores. Mas de uma maneira geral o Bloco tem sabido corresponder.De um partido conscientemente criado, sem uma definição ideológica formatada, fazendo das lutas e do debate interno a construção de um programa e de uma doutrina política, em que os factores de unidade, fossem entre outros, os valores da liberdade, dos direitos sociais, do ambiente e da dignidade humana. Era um compromisso em que cabiam diferentes correntes e se foi consolidando. Sem estar prisioneiros de ferretes ideológicos. Agora exigem-se novas respostas e novas clarificações.

    Não concordo por isso que o Bloco se “vendeu”. O que se tem de encontrar é novas respostas, novas alternativas, face a um avanço galopante de uma globalização capitalista e à destruição do Estado Social.

    Continuo a defender que o terreno da luta política privilegiado é a Europa. É aí que teremos de encontrar as respostas organizadas “multinacionais” o que passa por um novo compromisso e uma recomposição de todas as forças políticas, sociais, ambientais, culturais, de todos os que se oponham à globalização capitalista.

    Europa pode ser o catalisador de uma nova ordem internacional, mais justa, mais solidária, mais equilibrada, mas isso passa necessariamente pela própria refundação democrática desta Europa, em tudo contrário ao projecto europeu que estava consubstanciado no projecto da constituição europeia e que foi até ver derrotado.

    Não passa pelo retorno aos nacionalismos (sair da comunidade europeia, Raio?) nem pela continuidade desta linha de políticas económicas e sociais que se vai mudar alguma coisa. É preciso um compromisso político e social à escala europeia com todas as forças contra esta globalização. Penso que é esse o caminho que naturalmente terá de passar por compromissos muito fortes entre todos. Não vejo outro caminho que não seja a unidade de todas essas forças anticapitalistas

  12. Fernando,

    a tua resposta ao Raio tem em mim um fervoroso subscritor em cada linha que escreveste.

    Também eu, ao contrário de há 15 anos tornei-me um europeista convicto. É de facto na Europa que as próximas “lutas” sociais devem ser desenvolvidas.

    Sou a favor da globalização. Entenda-se da SOCIAL e CULTURAL e não da económica e neo-liberal/conservadora.

    Um forte abraço

    [[]]

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