A OPA da PT falhou.

São 02,00 e acabei de chegar há pouco de Lisboa. Pela terceira vez fui marcar a minha posição contra a OPA sobre a PT. Aproveitei a deslocação e fui mais um a engrossar o protesto de mais de cem mil pessoas contra as políticas do Governo.

Venho cansado, mas satisfeito. Acabei agora mesmo, neste canto de onde Vos escrevo, de abrir uma garrafa de champanhe, para celebrar, solitário, o chumbo da OPA, contra a qual desde o início sempre me bati. Acho que mereço.

Mas os trabalhadores da PT não têm apesar disso grandes motivos para regozijo. Os danos sobre os trabalhadores são irreversíveis. Os compromissos assumidos com os accionistas de expressivas contrapartidas financeiras, são de tal modo elevadas que necessariamente se irão reflectir nas relações laborais e condições negociais. Não há que ter ilusões.

Mas por outro lado estou muito triste e desiludido com o comportamento da maioria dos dirigentes e activistas sindicais do principal sindicato da PT, o SINTTAV, responsável por esta convocação de protesto. Mas sobre todo este processo irei noutra ocasião manifestar a minha posição. Por agora fico-me pela razão principal do meu desagrado.

E a razão é a seguinte:

É absolutamente inadmissível ver dirigentes sindicais, com superiores responsabilidades, exteriorizar de forma efusiva, através de aplausos e de abraços e calorosamente, a presença de Joe Berard, porque o mesmo iria votar contra a desblindagem dos estatutos.

É deplorável que estes dirigentes se “esqueçam” que este homem é do pior que existe. Que é alguém que está nesta operação apenas com o intuito de ganhar milhões e milhões de euros, fácil e rapidamente, à custa desta operação bolsista. Alguém que se tornou accionista depois de declarada a OPA e que apenas pretende que a Sonaecom lhe dê mais uns cobres a ganhar.

Os dirigentes não podem aplaudir alguém que constrói a sua riqueza à custa da especulação financeira. Que é um parasita. Um sugador. Alguém que não investe e não cria riqueza para o país e para a economia. Alguém que fica a léguas, de Belmiro de Azevedo que apesar de tudo ainda aplica parte das suas economias em investimento produtivo.

É absolutamente ridículo apoiar-se alguém que afirmou que se a OPA não passasse, a PT ver-se-ia obrigado a despedir mais pessoas, naturalmente, para assegurar mais valias imediatas para seu próprio proveito.

O SINTTAV acabou com a réstia de credibilidade que eventualmente ainda lhe restava. Para mim foi o fim.

Dou-me conta de que acabei de falar mais do comportamento sindical do que sobre a derrota da OPA. Não faz mal. Sobre a OPA e sobre o resultado já todos sabem a minha posição. Este desabafo é mais para os meus companheiros, ex-colegas da PT. Se bem que na sua maioria eles saibam que nunca fui um apoiante das sucessivas direcções do SINTTAV.

Nota: Também hei-de comentar os resultados para a CT da PT mas quero desde já afirmar que não partilho em nada da opinião do Bloco de Esquerda.

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13 comentários a “A OPA da PT falhou.

  1. Pois é… tambem eu lamento! Berard está bem retratado por ti, Fernando.
    E nunca me passou pela cabeça, em situação alguma, um dia ouvir o coordenador do SINTTAV chamar herói ao presidente de administração da PT, quando este apenas olha para os seus interesses económicos e, só por arrastamento, a sua atitude vai de encontro aos anseios dos trabalhadores.
    Bom, para esquecer… e viver alguns instantes de alegria com o resultado final da Assembleia, basta-me saber que a sombra da OPA por enquanto vai desaparecer.
    Um rijo abraço do Álvaro.

  2. Olá Álvaro.
    Não ouvi as notícias e não ouvi o Presidente do SINTTAV a falar e estou a tomar conhecimento por ti de que ele fez a apologia do seu patrão. Depois daquela recepção ao Berard senti que estava ali a mais.

    Imagina a cena aquela gente ali a aplaudir e abraçar Berard e simultaneamente surpreendida com os meus assobios e gritos a plenos pulmões contra essa atitude.

    É que não estamos a falar de simples trabalhadores que até poderiam não conhecer o homem e por reacção tivessem aplaudido, não, estamos a falar de dirigentes sindicais alguns com a bandeira bem erguida que foram a correr abraçar e a aplaudir o homem (dirigentes sindicais!.. que vergonha).

    Desliguei-me e a partir daí vim para o meu canto. Estava lá a mais.

    Não foi para assistir ou participar em cenas daquelas que andei mais de 700 quilómetros, perdendo tempo e dinheiro. Para mim o SINTTAV acabou naquele dia. Mas convém estar atento porque talvez os elogios do Manuel Gonçalves, os abraços do Bilé, os aplausos de muitos outros não sejam inocentes. Vou aguardar serenamente.

  3. Caro Fernando,

    tens toda a razão. Gostei da forma como abordaste o texto pois também eu fiquei ontem chocado com a recepção a Berardo ás portas da PT. Esse tipo de atitudes (in)dignas de um QI de 75 são sobretudo indiciadoras da forma como alguns sindicatos abordam a questão laboral. Sinceramente, há muito tempo que entendo que a maioria dos sindicatos em Portugal são liderados por pessoas sem o menor estatuto moral. É uma pena. Limitam-se ao dízimo e á arruaça.

    Já não encontro muitos homens e mulheres que se dediquem ao sindicalismo com honra e sacrifício próprio para a sua vida pessoal. Já conheci muitos que colocaram em causa o seu bem estar em prol dos outros. Hoje infelizmente, já não vejo nada disso.
    E os Berardos deste país podem estar descansados…

    Quanto ao falhanço da OPA, deixa-me mais descansado que o investimento estratégico continue nas mão de portugueses. O problema é que tipo de investimento poderemos nós ter com uma PT a distribuir lucros extraordinários pelos accionistas. E os clientes/consumidores, afinal uns dos motores do sucesso de uma empresa vão receber o quê?

    Um abraço

    [[]]

  4. Caro Teixeira.
    O sindicalismo está pegado de oportunistas. Custa-me dizer isto mas é verdade, sem deixar de referir que apesar de tudo, ainda quero crer que existem por aí alguns que levem a actividade de dirigente sindical de forma séria. Quero crer.

  5. Fernando não vou dizer que concordo ver dirigentes sindicais, a aplaudirem o Granadeiro, ou pior ainda o Berardo.

    Agora talvez tenhamos de ver o contexto, o Belmiro e a sua jogada, colocavam a muitos trabalhores da PT, enormes interrogações, o Belmiro sendo um dos maiores especuladores do país, e dos que menos paga a quem para ele trabalha, se vencesse a OPA, certamente os mais prejudicados seriam os trabalhadores da PT, talvez por isso a reacção.

    Já agora gostava de ler aqui a sua opinião, sobre em que é que discorda da posição do B.E.,

  6. Caro Fernando
    A minha reacção ao que se fala aqui está no comentário ao post anterior. Tenho pena que seja por vezes atacado quando critico a maioria dos dirigentes sindicais que hoje dizem representar os trabalhadores. A prova esteve à vista de todo o País. A pouco e pouco os factos estão a dar-me razão e a fazer com eu volte à area da blogosfera para dentro do que julgo ser justo e digno para quem trabalha não o seja só para mim. Porque o que é bom para os trabalhadores erá bom para o País. Não me causa problemas uns terem mais que outros. Uns serem ricos e outros menos ricos. Agora o que me custa ver é uma dúzia de nababos a viverem à custa do suor dos trabalhadores e mais grave ainda a ver trabalhadores que bajulam as suas migalhas e que vão acabar por comer raspas. O Futuro o dirá, se aqueles abraços não será o aperto da cobra.

  7. a.pacheco,
    o contexto? O Granadeiro cumpriu o papel de defender os interesses dos grandes accionistas. Os seus patrões. Não o interesse dos trabalhadores. Isso era e foi perfeitamente irrelevante. E compreendo que não pudesse ser de outra maneira. Ele está lá para defender os interesses dos maiores accionistas.

    Na OPA ALGUNS interesses dos trabalhadores coincidiam com os interesses da Empresa, apenas isso. De resto se alguém tem de chamar heróis a Granadeiro e companhias são os grandes accionistas. Os trabalhadores em várias ocasiões manifestaram a sua posição independente. Eu senti-me enganado. Eu estive presente numa concentração contra a OPA. Não fui apoiar a administração da empresa. Eu também não concordo com as medidas da empresa para combater a OPA. Chamar herói como fez o Presidente do sindicato enfraquece o sindicato no poder negocial. Dirigentes sindicais a bateram palmas e abraçarem a Joe Berardo (esse sanguessuga) não há contexto que justifique. Ele disse que se a OPA não passasse teriam de despedir mais pessoas. Pois não. Ele está ali para realizar mais valias a curto prazo!..

    São os trabalhadores que vão pagar e já estão a pagar com a perda de direitos, de remunerações salariais e outras, na pressão sobre as tarefas profissionais, nas condições de trabalho, nos custos com o seu sistema de saúde, no fim extemporâneo das progressões automáticas, na evolução profissional, é que vai ser preciso em 3 anos, cumprir com o pacote de medidas de remunerações excepcionais aos accionistas.

    Senti-me muito mal. E tenho algumas preocupações se este apoio é inocente. O tempo vai demonstrar.

    Eu vou escrever sobre as eleições para a CT da PT. Mas posso dizer-lhe desde já que nenhum (repito nenhum) trabalhador da PT, achou que ao votar na lista B estava a votar numa lista do Bloco ou patrocinada pelo Bloco. Não há nenhuma vitória histórica. Não há vitória nenhuma do Bloco. Não há nenhuma vitória de um projecto ou de um programa. Pode interessar a alguns dizer isso, mas só quem está fora da PT e não conhece as motivações do voto, que decorre de múltiplas razões (mas nenhumas que tenham a ver com o Bloco), poderá afirmar que os trabalhadores da PT votaram num projecto, num programa alternativo e em protagonistas, para dar corpo a um projecto de mudança na linha do que o Bloco defende. Mas eu hei-de desenvolver melhor isto. Provavelmente de forma publica em nome da verdade.

  8. Viva,

    Realmente não sei se há muitas razões para festejos. A PT nunca mais será a mesma e a capacidade de investimento sai consideravelmente afectada.

    Tenho que “aplaudir” a tua atitude em relação ao meu conterrâneo, o Berardo. Não há lógica naqueles aplausos. Independentemente do sentido de voto ele está lá como accionista, ou seja, para maximizar o seu investimento. Nada mais!

    Abraço,

  9. Fernando

    Sem mais comentários faço minhas todas as tuas palavras, uma por uma, letra por letra.
    Não posso estar mais de acordo com o que escreves no post e nos comentários.
    Vergonha foi o que senti – eu acabei por não estar presente na FIL – ao ver na TV aqueles senhores, que não são uns senhores quaisquer a aplaudir efusivamente a equipa que também destroi a PT.
    Ainda temos o debate em aberto sobre sindicalismo e sindicalistas na PT, se o chegarmos a realizar (por vezes falta-me vontade) talvez este exemplo de linderança sindical nos a ajude a situarmo-nos.

  10. Por razões de ordem particular, que o Fernando em grande parte conhece, desde que foi aberto o processo para as eleições da CT da PT C, da qual fiz parte, não me envolvi em tomadas de posição sobre a matéria em epigrafe (A OPA sobre a PT) bem como me remeti ao silencio sobre matérias que de algum modo me levassem ao confronto com os candidatos ao acto eleitoral do passado dia 26. Não que não tenha opinião ou por medo ao debate. Esse jejum acabou com a eleição da nova CT.

    Porque assim é, ou assim o entendo vou deixar algumas “achas” nesta fogueira, nesta coisa indecorosa que foi assistir à entrada triunfal e apoteótica dos senhores que nunca em tempo algum, desistiram de fazer fortuna à custa dos nossos direitos, com recuos nesta área de ordem civilizacional, aplaudidos pela direcção do SINTTAV, que para o efeito mobilizou e se mobilizou para a FIL, enquanto o grosso dos trabalhadores engrossava àquela hora mais uma grandiosa (embora de alcance limitado) jornada de luta contra a OPA que Socrates está a fazer aos portugueses que vivem do seu salário.

    Por outro lado quero deixar claro que este comentário não significa colagem, ou qualquer outra leitura malévola que se possa deduzir, às posições do Fernando, até porque ele diz em nota que: «Também hei-de comentar os resultados para a CT da PT mas quero desde já afirmar que não partilho em nada da opinião do Bloco de Esquerda.» e, estando eu, que sou bloquista em desacordo com a nota oficial do Bloco (será mesmo nota oficial?), logo em sintonia com o Fernando, desconfio que não alinhamos, eu e o Fernando, neste particular pela mesma diapasão. Mas isso, como o próprio seguramente subscreverá só engrandece o debate e seguramente contribuirá para o engrandecimento do projecto bloquista. Ainda que este blog esteja, e muito bem aquém e muito justamente para alem do Bloco.

    Posto isto cá vai o comentário

    Henrique Granadeiro não visita este blog, e a fazê-lo não é seguro que deixe comentários, (não se daria a esse trabalho) tomo a liberdade de transcrever um ou dois parágrafos da mensagem que o mesmo dirigiu aos colaboradores.
    Para podermos perceber a dimensão da “nossa vitória” com a derrota do clã Azevedo no processo da OPA, não resisto a um excerto da mensagem de Henrique Granadeiro (O nosso herói, segundo o SINTTAV).
    Granadeiro na mensagem que dirigiu aos trabalhadores da PT escreve:

    «Evoco Fernando Pessoa que tão bem captou a alma portuguesa para vos dizer como ele disse: “Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor”.
    Nós passámos as dores de uma OPA que tão injustamente tentou paralisar-nos e diminuir-nos. Vamos agora dobrar o Bojador na direcção de um novo futuro para a PT.
    É preciso que todos estejamos conscientes de que pior do que viver condicionado por uma OPA é o tempo de recuperar dessa OPA. Tal como vos disse na primeira mensagem que vos dirigi:
    – “quando a pergunta: “O que faz?” e “para que serve?” – não tem uma resposta clara e imediata, temos um problema para o qual há que encontrar rapidamente uma solução”. (despedimentos?)
    Hoje digo-vos:
    Quem olhar à volta do que faz e não encontrar já hoje uma forma de melhorar o seu trabalho, aumentar a sua produtividade, tornar o ambiente à sua volta mais competitivo e mais amigável não tem lugar nesta viagem da PT para um novo futuro.»

    (Na sexta-feira Granadeiro e Berard eram, para o SINTTAV, os nossos heróis!)
    Como é evidente, eu acho que todos, mas todos mesmos, temos que trabalhar e contribuir para o crescimento da PT, sobretudo os trabalhadores, aqueles que não têm outro lugar para ganhar o pão, mas desconfio deste palavreado do Granadeiro… Eu sei que sou desconfiado… mas temo que não seja apenas desconfiança.

    Em sintese, Granadeiro é perempório, «(…)temos um problema para o qual há que encontrar rapidamente uma solução”». (despedimentos?) porque há gente (trabalhadores) que «não tem lugar nesta viagem da PT (…)»
    Comentários para quê?

    José Carrilho

  11. João do Carmo Lopes.
    Para te ser sincero já não me apetece discutir essas questões. Se estivesse ainda “dentro” teria muito a dizer a uns e a outros.

    Carrilho,
    Sabes que concordamos em muita coisa mas também discordamos em algumas neste processo todo. Não acho correcto que coloques um contraponto entre os que estiveram na manifestação da CGTP e aqueloutros que estiveram na FIL. Continuo a achar que esta concentração, neste dia, era a mais adequada. Lamentável é que que os dirigentes dos “dois lados”, persistam em usar as pessoas, na ânsia de protagonismo. Mais lamentável ainda foram as manifestações de afecto com os Berardo’s e Cª. Fiquei de rastos.
    Sobre as eleições da CT, olha se calhar, ao contrário do que disse, não vou fazer mais nenhuma observação. A minha resposta ao a.pacheco já traduz muito do que queria dizer. Aliás, no dia da manifestação da CGTP, já tive oportunidade de o dizer a um dirigente da comissão política do Bloco. Talvez não valha a pena acrescentar publicamente mais do que disse.
    Estou cansado, Carrilho.

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