O fecho das urgências

No dia em que foi conhecido o plano de requalificação das urgências hospitalares escrevi um post titulado de “vai dar guerra”. Não é preciso ter dons de premonição para saber que as populações iriam reagir. E passados uns dias os protestos vieram para a rua, no tom e na forma que se adivinhava. Apenas o Governo parecia não acreditar.

À falta de uma oposição a sério, reduzida apenas ao Bloco de Esquerda, ainda assim debilitada, por ser um pequeno partido, com uma base de activistas diminuta e a um Partido Comunista oposicionista/sindicalista/militante que lhe retira credibilidade política, com um PSD e um CDS sem lideranças, o Governo conduz a governação com um autismo e uma arrogância política, indecorosos e indignos de um partido socialista a sério, que tem provocado angustias, preocupações e sofrimento nas gentes mais desfavorecidas e desprotegidas.

Acabei de ler um artigo aqui do médico João Semedo, presidente do Conselho de Administração do Hospital Joaquim Urbano, no Porto, com funções suspensas e responsável pela área de saúde no grupo parlamentar do Bloco, sobre as causas e os efeitos do fecho e requalificação das urgências, em minha opinião notável e esclarecedor.

Diz ele que nestes dois meses de discussão pública as centenas de propostas apresentadas pelas autarquias, comissões de utentes e outras organizações, foram directamente parar ao caixote do lixo do ministério da saúde. O plano de (des) qualificação das urgências prevê o encerramento de 15 urgências hospitalares sem criar alternativas e transforma outras 15 fazendo-as perder as valências médico-cirúrgicas, reduzindo-as a urgências básicas.

O governo fecha as urgências em zonas do interior e em zonas urbanas de média dimensão e não acrescenta nenhuma medida, para melhorar o atendimento e o funcionamento dos serviços de urgência dos grandes centros urbanos que já hoje não respondem às necessidades das populações. Em Lisboa … propõem-se ainda fechar a urgência do Curry Cabral que atende uma média de 300 pessoas por dia quando é sabido que os serviços de urgências estão sobrelotados nos outros hospitais.

As populações têm razão para os protestos. Quem insinua que se pretende colocar uma urgência à porta de cada um de nós, está a ser desonesto e desumano. As populações conhecem as realidades locais. Sabem que estas alterações não vão resultar em melhorias nos cuidados de saúde, em acessos mais fáceis, mais rápidos e de maior qualidade. A assinatura agora à pressa de protocolos com as autarquias, para manter por mais algum tempo, as urgências, provam que o Governo fez asneira e procura agora desmobilizar o descontentamento popular, mas não resolvem o essencial.

O grande problema é que também na saúde, o governo se rege por critérios puramente economicistas. Ninguém coloca em causa a necessidade de fazer uma gestão melhor dos gastos com o Serviço Nacional de Saúde. O que está em causa é encontrar saídas, sem cuidar de garantir o acesso à saúde em condições dignas.

João Semedo afirma que não se pode começar a mudar pelo que é mais fácil, os encerramentos, quando se devia começar pelo que é mais preciso e inadiável: o reforço da rede de emergência hospitalar e a requalificação dos actuais hospitais e serviços, para agilizar e organizar urgências polivalentes.

Até lá, mandaria o bom senso, acrescenta, que enquanto a instalação da rede não estiver concluída (urgências polivalentes e sistema de emergência hospitalar), devem manter-se em funcionamento as urgências hospitalares que o governo pretende fechar, no seu modelo actual ou de urgências básicas. É o mínimo que um governo deve assegurar.

Quando um Governo não atende ao que dita o senso comum, algo está muito mal, para que este caminho se trilhe sem grandes embaraços para quem o promove.

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6 comentários a “O fecho das urgências

  1. As populações do interior já estão cansadas que lhes retirem tantas outras coisas que perderam a cabeça desta vez e com razão. Mas nesta terra desgovernada poupa-se dinheiro no essencial para esbanjar no supérfluo.

    Fernando, quero aproveitar para te cumprimentar pelo novo look. Apesar de ter tido dificuldade para cá entrar nos últimos dias, acho que está bonito. Sempre a alindar a casa! 🙂

  2. Fechem as urgências,fechem as maternidades,fechem os centros de saúde. Mas antes fechem o Palácio de S.Bento,fechem o Conselho de Ministros,fechem a boca e olhem para o POVO. Além disso aquelas imagens que mostraram daquela ” besta ” sim porque outro nome não se pode chamar ao Tenente da GNR que actuava contra a população e deixava em parte estupefactos até os próprios praças da sua corporação. São pessoas destas que desonram uma farda. São pessoas destas que desonram um País. São pessoas destas que deveriam estar na prisão e serem detidas em vez do POVO. Haverá processo disciplinar ou auto de averiguações sobre esta actuação? Será afilhado de algum político? Se calhar nem Deus sabe. Enfim é o que temos.

  3. Pergunta pertinente. Bom, talvez mais do que uma…
    (sim, o Teixeira tem dias assim)

    Dos “milhares” de cidadãos presentes nas pseudo-manifestações contra o fecho das urgências, quantos tem pago as taxas moderadoras de cada vez que vão ao hospital?

    Atente-se para os nºs acima dos 90% de utentes que não pagam a mesma. E agora? Querem “mama”?

    Quantos destes indivíduos foram levados até á “rebelião” por autocarros fretados pela máquina local, vulgo cds-pp e psd concelhios?

    Sinceramente, a imagem da mulher de 30 anos com a 4ª classe, casada desde os 15 e com 5 filhos, que chora em frente ás cameras porque há 2 anos o petiz mais novo tinha tido um ataque de asma e se não fossem as urgências com um médico de turno e uma caneta para as receitas ali ao lado de casa o miudo não se tinha safo, não me fazem verter uma única lágrima.

    Uma oposição inexistente (psd) que enquanto governo optou pela política da privatização dos hospitais públicos a favor do capital privado e em óbvio detrimento da saúde pública? Nem pensar.

    O meu voto não foi no sentido desta maioria, mas subscrevo este governo como o meu.

    Quero alguém que não se limite a falar de “tangas” do principio ao fim do mandato, (o rato). Ou do tal janota que se lembra de assinar contratos convenientes para alguns corporativismos de direita a três dias de sair do governo por via do sufrágio ( o camarinha de Lisboa)?

    As coisas tem de mudar. Deixemos-nos de lamechices.

    Os portugueses tem demasiada afeição ao passado. Á imobilidade da roda. Somos tão cépticos á mudança, que arranjamos sempre um qualquer fraco argumento para dar um passo em frente. Uns eternos velhos do restelo.

    Sou português. Não sou diferente.
    Mas devemos a nós próprios um mínimo de esforço.

    [[]]

  4. Teixeira: As manifestações são genuínas, não são pseudos. Não confunda os planos. Essa conversa das taxas moderadores não cabe aqui.

    Acha que nos municípios em que o PS está no executivo também são os PSD/CDS que organizam os protestos?

    Já o tenho dito o Governo “vende-nos” a inevitabilidade de certas medidas e o pessoal alinha logo nessa. De inevitabilidade em inevitabilidade deixamos de ter estado social. Vamos longe assim. A globalização parece só estar a beneficiar o capitalismo porque nós estamos a abdicar da “Europa social”. O neoliberalismo está a fazer escola. E a fazer escola numa esquerda demissionária. Estamos num colete de forças à esquerda, entre um nacionalismo serôdio (PCP) e uma rendição aos valores neoliberais (PS).

    Cabe a uma esquerda social e política que não se revê nestas políticas se reorganizar e reflectir sobre o que se está a passar. Quando um PS ataca os direitos sociais e os partidos à sua esquerda não colhem benefícios, esta esquerda (à esquerda) deve também reflectir sobre os caminhos que trilham.

    Voltando à questão. Subscrevo o que João Semedo diz. Que resumi nestas palavras “…não se pode começar a mudar pelo que é mais fácil, os encerramentos, quando se devia começar pelo que é mais preciso e inadiável: o reforço da rede de emergência hospitalar e a requalificação dos actuais hospitais e serviços, para agilizar e organizar urgências polivalentes.

    Até lá, mandaria o bom senso, acrescenta, que enquanto a instalação da rede não estiver concluída (urgências polivalentes e sistema de emergência hospitalar), devem manter-se em funcionamento as urgências hospitalares que o governo pretende fechar, no seu modelo actual ou de urgências básicas. É o mínimo que um governo deve assegurar.”

    Por fim concordo que somos demasiados agarrados ao passado. O “nosso” orgulho é o passado. Há que mudar mentalidades, certíssimo, mas não é com contos de fadas de repetidos novos “amanhãs” (receitas recorrentes, mais coisa menos coisa, por parte dos governos PS e PSD) que vamos lá. A esquerda precisa ser refundada, a Europa precisa ser refundada, os homens de esquerda precisam de ser refundados.

  5. Concordo com a generalidade do conteúdo deste seu último comentário. Reparo que temos uma proximidade ideológica, contudo devo estar um pouco mais tolerante do que o Fernando no que diz respeito á paciência para com este governo.

    Estou ávido de uma mudança para melhor em Portugal. E diz-nos a experiência que o povo só sabe escolher para governo o PS ou o PSD. Ora com andamos há 30 anos nisto, terá chegado a altura de estabilizarmos políticamente da melhor forma que formos capazes. Continuarei a votar mais á esquerda do que o PS. Mas esta terá invariávelmente de mudar o seu posicionamento no que diz respeito á tolerancia para medidas a que como país da UE estaremos sujeitos. Infelizmente o neo-liberalismo veio para ficar, mas ainda assim é melhor do que o neo-conservadorismo que emerge nos EUA e em alguns paises europeus. É numa sinergia o mais á esquerda possivel (dado o contexto) a que me refiro.

    Num aparte ao tema central apenas tenho-lhe a dizer que é obvio que estou a par da influência dos aparelhos políticos concelhios que existem em todos os partidos. O que digo é que neste caso específico das urgências elas tem sido feitas a norte sobretudo pelo PSD e CDS-PP. Uma demagogia popular que eu não posso subscrever.

    Interessante foi ouvir o ministro da saúde no programa “prós e contras” da rtp1. Convenceu-me. Pareceu-me sério nas suas apreciações. É claro que existem falhas, mas não será com guerrilha de oposição que estas vão ser melhoradas.

    [[]]

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