e eu quero chegar!

vou por ali!

quero chegar !

não sei se o caminho é aquele

não sei também se vou chegar lá

se o caminho for outro volto

posso sempre voltar

nunca tenho a certeza do caminho

só sei onde quero chegar

O que eu não posso mesmo

é estar à espera

esperar é andar para trás

andar é o caminho para chegar

posso ficar pelo caminho

mas ficar pelo caminho

também é chegar

e eu quero chegar!

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4 comentários a “e eu quero chegar!

  1. Cântico Negro

    “Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
    Estendendo-me os braços, e seguros
    De que seria bom que eu os ouvisse
    Quando me dizem: “vem por aqui!”
    Eu olho-os com olhos lassos,
    (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
    E cruzo os braços,
    E nunca vou por ali…

    A minha glória é esta:
    Criar desumanidade!
    Não acompanhar ninguém.
    – Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
    Com que rasguei o ventre à minha mãe

    Não, não vou por aí! Só vou por onde
    Me levam meus próprios passos…

    Se ao que busco saber nenhum de vós responde
    Por que me repetis: “vem por aqui!”?

    Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
    Redemoinhar aos ventos,
    Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
    A ir por aí…

    Se vim ao mundo, foi
    Só para desflorar florestas virgens,
    E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
    O mais que faço não vale nada.

    Como, pois sereis vós
    Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
    Para eu derrubar os meus obstáculos?…
    Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
    E vós amais o que é fácil!
    Eu amo o Longe e a Miragem,
    Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

    Ide! Tendes estradas,
    Tendes jardins, tendes canteiros,
    Tendes pátria, tendes tectos,
    E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
    Eu tenho a minha Loucura !
    Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
    E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

    Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
    Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
    Mas eu, que nunca principio nem acabo,
    Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

    Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
    Ninguém me peça definições!
    Ninguém me diga: “vem por aqui”!
    A minha vida é um vendaval que se soltou.
    É uma onda que se alevantou.
    É um átomo a mais que se animou…
    Não sei por onde vou,
    Não sei para onde vou
    – Sei que não vou por aí!

  2. … Mas o belo, o apetecível, está no mágico segredo das coisas e é este secreto poder, que mais parece dos deuses, que nos aproxima das montanhas e do enamoramento, sem nada pedir em troca. A chave do segredo está aqui e tu, meu amigo, meu amor, sabe-lo tão bem quanto eu. Tens a chave, tens a incerteza. É hora de ires à descoberta do caminho.
    Ah! Leva também uma foice para desbastares o emaranhado das silvas e quando sentires o sol e a lua pousarem em ti os primeiros acordes, sorri. Grita o sorriso!
    E, antes que o papel deixe de ser pensante e audível, antes que partas para o conhecimento, digo-te:
    – Sê feliz. Sem te preocupares com a duração da caminhada.
    Digo-te, porque te amo.

    Lay

    (in “No Vão da Ausência”)

  3. Abri a caixa dos comentários para referir o Cântigo Negro porque foi no que pensei quando li o teu poema, depois reparei que o próprio se citou. 🙂

    Gostei muito, Fernando José Régio 🙂

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