Ninguém me viu por ali

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Álvaro Oliveira

O meu espaço é por eleição esta terra onde ainda se respira o ar puro das montanhas e do mar. E o olhar, este olhar que a paisagem se encarrega a pouco e pouco de ferir, perde-se ao longe, transportando a imagem degradante deste outro tempo, o nosso tempo que, de tão duro, tanto custa a esquecer: a corrupção continua à velocidade de um foguete. E outra vez a Bragaparques nesta conjuntura…

Procuro, então, libertar-me das preocupações de cada dia e é aí que reparo não ser tarefa assim tão fácil. Vou não vou, caminho nesta indecisão e retomo a leitura do Evangelho de Judas. Mais uma fantochada, digo eu. E porque é que Cristo havia de ser traído? E porque sorte teria que ser este pobre e bom apóstolo (Cristo já o sabia) eleito pelo divino para desempenhar tão vil papel?

A propósito de papel, passou estes dias por Braga, na bancada poente do estádio 1º de Maio, a Feira do Oculto. Ninguém me viu por ali. Não que o próprio cenário me ocultasse, nem esconder-me por entre os poderes mágicos dos videntes ou a estender a palma da minha mão a uma cartomante para que através das linhas ela pudesse ler-me a sina e ali mesmo assustar-me ao revelar os dias do meu destino. Tão-pouco consultar um pai de santo para me falar de um outro espírito. E que espírito!…

Do passado, pouco interessa saber; sobre o futuro prefiro caminhar ao ritmo dos acontecimentos, sempre atento ao que de melhor e de pior nesta terra se vai fazendo. E depois não é isso, estender a mão a uma cartomante é correr o risco de ficar sem ela.

Pois é, do passado apenas o passatempo dos dez mais que a equipa de Maria Elisa nos apresenta ou impinge como eleitos no honroso título de Maior Português. Entre estes, vejam bem: Salazar! E logo aqui se pode elaborar o argumento duma mais que estúpida e provocante comparação. Sabemos bem como é… Não quero nem por sombras acreditar que este gesto tenha por fim pôr meia dúzia de fascistas a esfregar as mãos de contentamento. Mas como dizia o outro «pero que los hay los hay»

Já agora, porque razão, nesta admirável dezena não teve lugar um destes videntes ou pais de santo que tudo sabem sobre as nossas vidas, sobre o nosso passado e o nosso futuro, sobre o nosso país e sobre o mundo?

Cá dentro a discussão continua como atrito. A campanha para o referendo sobre a despenalização do aborto está escaldante. Vejo que perdem o bom senso e a razão. Talvez até a loucura de querer conduzir, à força, um rio de palavras para o caudal da ameaça e do insulto e, com elas, uma a uma, fazer radicalizar a questão. Depois, rente ao concreto da vida descubro, para espanto meu, que alguns líderes religiosos fazem estalar o verniz da mansidão e da performance quando, ao arrepio de um debate que se quer digno e elevado, apelidam de criminosos assassinos os defensores do Sim. Tanto, confesso que não esperava. Nem me passa pela cabeça que, noutros tempos, por muito menos os lançariam na fogueira. Bom, não façam disto uma guerra entre católicos e ateus, nem reduzam, mais uma vez, as pessoas a números… para contar no fim.

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