Dos leitores.

De um leitor atento e amigo, recebi um artigo de Emir Sader. Fico um excerto das suas palavras e o artigo.

…tens, de uma maneira geral, [no Foice dos Dedos] abordado as questões do dia a dia, as questões que também encaixam nas minhas angústias ou, de uma forma geral, que fazem parte do meu panorama de afectos. Como me sinto muito próximo das tuas preocupações, dos teus tormentos, dos teus envolvimentos… Até com as tuas partidas e as tuas constantes chegadas, pressinto afinidade e de quando em vez vou até à “Foice dos dedos”. “Numa destas ultimas espreitadas a propósito do concurso os “Grandes Portugueses” abordaste a figura de Álvaro Cunhal. Porem a tua escolha no concurso provocou um certo esgrimir de argumentos entre ti e o Lopes, recorrendo ambos, mais ele que tu creio eu, a algumas expressões que Emir Sader, o autor do texto que refiro, tipifica como características dos ex-esquerdistas, nomeadamente daqueles que aceitaram as famosas “propostas irrecusáveis” e são hoje chefes nos grandes meios de comunicação privados. [Aqui lembrei-me logo, de entre muitos, do José Manuel Fernandes.]

Sobretudo tu, que penso conhecer suficientemente bem, mas também, apesar de não conhecer o teu interlocutor, creio que nem um nem outro se identificam com esses ex-esquerdistas. Portanto o chapéu nada tem que ver convosco… mas como a contenda ainda está fresca … deixo à tua consideração a publicação desse artigo.”

Claro que sim até porque me identifico genericamente com o que está escrito.

Guia para ser ex-esquerdista, por Emir Sader

Servem para quem aceitou as famosas “propostas irrecusáveis” e assumiu cargos de chefia em grandes publicações da mídia monopolista ou em alguma grande empresa privada, que exigem silêncio ou declarações adaptadas aos interesses dos “patrões” (esquecendo-se de que não existem “propostas irrecusáveis” mas sim espinhas dorsais excessivamente flexíveis).

Não seriam casos isolados, afinal as redacções desses órgãos da mídia privada estão apinhados de ex-comunistas, ex-trotskistas, ex-esquerdistas em geral, “arrependidos” ou simplesmente “convertidos” e que passam a vida inteira – como certos “intelectuais” das universidades, que ganham em troca amplos espaços na grande imprensa – a dizer que já não são o que foram, “limpando-se” aos olhos da burguesia dos seus “pecadilhos de juventude”.

Indispensável a referência a que “se é imbecil aos 20 se não se é radical, se é imbecil aos 40 se ainda se continua a sê-lo”, ou alguma alusão como passar “de incendiário aos 20 a bombeiro aos 40”, deixando no ar a afirmação de que se teve uma juventude agitada antes de chegar à idade da razão.

Um bom começo pode ser dizer que “o socialismo fracassou”, que “está decepcionado com a esquerda”, “que são todos iguais”. Já estará em condições de dizer que “não existe mais esquerda e direita”, que alguns que se dizem de esquerda na verdade são uma “nova direita”, são piores que a direita e que é melhor então ficar equidistante. Do cepticismo se passa fácil ao cinismo de “votar na direita assumida” para derrotar a “direita disfarçada”.

Outra via é criticar veementemente Stalin, depois de dizer que ele foi igual a Hitler – “os dois totalitarismos” –, afirmar que ele apenas aplicou as ideias de Lenine, para finalmente dizer que as origens do “totalitarismo” já estavam na obra de Marx. Dizer que Weber tem mais capacidade explicativa do que Marx, que Raymond Aron tinha razão contra Sartre. Que o marxismo é redutivo, só leva em conta a economia, que seu reducionismo é a base do “totalitarismo” soviético. Que não deixa lugar para a “subjectividade”, que reduz tudo à contradição capital – trabalho sem levar em conta as “novas subjectividades”, advindas das contradições de género, de etnia, do meio ambiente etc.

Não falar de Fidel sem fazer preceder seu nome com um “ditador” e chamá-lo de Castro em vez de Fidel. Desqualificar Hugo Chávez como “populista” e, ao mesmo tempo, como “nacionalista”, dando a este a conotação de “fanatismo”, “fundamentalismo”. Concentrar a atenção na América Latina sobre a Bolívia e a Venezuela como países “problemáticos”, “instáveis”, sem fazer nenhuma menção à Colômbia. Sempre que falar da extensão da democracia no continente, acrescentar “excepto Cuba”. Nunca falar do bloqueio norte-americano a Cuba, mas sempre da “transição” – deixando sempre supor que transitariam em algum momento para “democracias” como as que andam por aqui.

Dizer que a América Latina “não existe”, são países sem unidade interna – mencionar “cucarachos”, de forma bem depreciativa. Que nossa política externa tem de olhar para o alto, relacionar-se com as grandes potências e tratar de ser uma delas, em lugar de ficar convivendo com os países da região e os do sul do mundo – África do Sul, Índia, China etc.

Pronunciar-se contra as cotas nas universidades, dizendo que introduzem o racismo numa sociedade organizada em torno da “democracia racial” – uma citação de Gilberto Freire e o silêncio sobre Florestan Fernandes são bem-vindos –, que o mais importante é a igualdade diante da lei e a melhoria gradual do ensino básico e médio para que todos tenham finalmente – vai saber quando, mas é preciso ter paciência – acesso às universidades públicas. Dizer, sempre, que o principal problema do Brasil e do mundo é a educação. Que empregos há, possibilidades existem, mas falta qualificação da mão-de-obra. Que o principal não são os direitos, mas as oportunidades – falar da sociedade norte-americana como a mais “aberta”.

Desqualificar sempre o Estado, como ineficaz, burocrático, corrupto e corruptor, em contraposição à “economia privada”, ao “mercado”, com seu dinamismo, sua capacidade de inovação tecnológica. Exaltar as privatizações da telefonia – “antes ninguém podia ter telefone, agora qualquer pobre diabo na rua anda falando em celular” – e da Vale do Rio Doce, calar sobre o sucesso da Petrobras ou afirmar ainda: “imagine se tivesse se tornado Petrobrax, como estaria melhor!”.

Em suma, há tantos motivos para quem tiver decidido deixar de ser de esquerda – bastaria o “farinha pouca, meu pirão primeiro” – e buscar ganhar a vida de costas pró mundo e para sua própria biografia. O “mercado” retribui generosamente os que renegam os princípios em que um dia acreditaram.

Mas muito mais fácil é continuar a ser de esquerda. Nem são necessários pretextos, bastam as razões sobre o que é este mundo e o que pode ser o outro mundo possível.

(*) Emir Sader nasceu em São Paulo, no ano de 1943. Formou-se em Filosofia na Universidade de São Paulo. Fez Mestrado em Filosofia Política e Doutorado em Ciência Política, ambos na Universidade de São Paulo. Na mesma universidade, trabalhou como professor, primeiro de filosofia, depois de ciência política. Foi, ainda, pesquisador do Centro de Estudos Sócio Económicos da Universidade do Chile, professor de Política na UNICAMP e coordenador do Curso de Especialização em Políticas Sociais na Faculdade de Serviço Social da UERJ. Actualmente dirige o Laboratório de Políticas Públicas na UERJ, onde é professor de sociologia.

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5 comentários a “Dos leitores.

  1. Esse teu leitor atento e amigo, pode estar atento como escreves, mas desculpa que o escreva, muito equivocado. Quando ele escreve que o Lopes recorre a expressões que esse sociólogo define como típicas dos ex-esquerdistas, se o Lopes em questão sou eu, está redondamente enganado. Muito embora saiba que te irritei, com aquele pseudo debate a propósito dos grandes portugueses, friso que nunca usei, mas também não te acusei de usares, qualquer expressão menos abonatória acerca do Fidel. Eu pelo menos não lhe chamei ditador. Nem chamo, sem que tal recusa signifique elogio ao seu sistema de governação. Simplesmente não lhe chamo o que chamei ao f. de p. que morreu há dias. Porque se esse era, e eu não tenho duvidas que de facto era, Fidel que não é do mesmo calibre nem da mesma estirpe não pode ser assim denominado.

    Feito o reparo e conforme tua vontade expressa no post “O maior Português de sempre”, o assunto fica arrumado. Mas eu não brinquei nem me diverti com o diferendo.

    Posto isto, quero apenas registar e saudar o texto, não apenas por “desmontar” aquela máxima de um qualquer paladino, cujo nome não recordo, das virtudes do capital que afirmava que um bom gestor tinha que ter sido, quando jovem, um esquerdista… isto para “justificar” o passado de muitos convertidos ao capital, tipo esse ser desprezível que o teu amigo refere, mas também outros como o Durão Barroso, para referir apenas um dos mais conhecidos. Ou então esse outro americanoide do João Carlos Espada, esse se não estou em erro era director de um jornal de esquerda e protagonizou uma rotura com um partido da extrema-esquerda portuguesa… adiante!

    Mas quero saudar o autor do texto, não apenas por essa desmontagem, que incidindo sobre uma realidade do lado de lá do atlântico, parece uma cópia da nossa, mas sobretudo pela desmistificação das chamadas “propostas irrecusáveis” que não existem como ele escreve o que há é gente com a espinha dorsal excessivamente flexível.

    Passar bem, como diria o amigo Emir Sader.

  2. Tal como o José Faria, também acho o ultimo paragrafo um mimo. Vou realçar repetindo-o.Tal como o José Faria, também acho o ultimo paragrafo um mimo. Vou realça-lo.

    «Mas muito mais fácil é continuar a ser de esquerda. Nem são necessários pretextos, bastam as razões sobre o que é este mundo e o que pode ser o outro mundo possível.» (Emir Sader)

  3. Interpretei de modo contrário a frase a que aludes. Aliás ele diz mais abaixo que o chapéu não serve a nós dois.
    Mesmo eu quando me refiro a Fidel não precedo o nome da palavra ditador. Custa-me usar essa palavra referindo-me a Fidel, não obstante considerar pelas razões que já expus e não vou repetir que Cuba não é um regime democrático. Cuba tem muitas coisas boas em muitos domínios. Mas não deixa de ser um país em que não existem as liberdades fundamentais e que há perseguição política. E qualquer regime dessa natureza só pode merecer a minha oposição.

    Também realço a última frase. Ser de esquerda é fácil. Mas não é para todos, mesmo que se digam de esquerda. Ser de esquerda é uma prática quotidiana em favor da igualdade, da justiça, da dignidade.

  4. OK!
    Posições claras e opiniões fundamentadas é o que importa.

    (Ah!, e não embandeirar em arco só porque é moda dar nas orelhas de alguem seja esse alguem lá quem for.)

    Pensando bem ser de esquerda, pelo menos como eu a entendo, não é dificil, mas não é para todos!

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