Os serviços de saúde que temos

“ …Como é possível responder com atenção, humanidade, acuidade e qualidade a tantos doentes, com as mais variadas queixas, patologias e necessidades. (…) em dias de maior enchente não há condições para atender os doentes, nem macas suficientes (…) “ …queremos auscultar um coração, mas o ruído de fundo parece o de uma discoteca! Necessitamos de medir a tensão arterial e temos de ir, em verdadeira gincana, entre cadeiras e macas, buscar um aparelho que, muitas vezes, não existem em número suficiente! Palpamos abdomens com doentes sentados porque não há um lugar apropriado para os deitar! É necessária uma glicemia capilar mas, no meio da confusão, já ninguém sabe onde está máquina! É importante administrar um medicamento ou colher sangue para análises, mas os enfermeiros estão sobreocupados! É preciso transportar um doente à ecografia, mas não há auxiliares disponíveis! Etc., etc…

E acrescenta o médico. “ Em meu nome pessoal e no dos médicos, reclamo das condições em que somos obrigados a trabalhar …nestas condições seguramente que não podemos evitar erros …e não nos podem ser assacadas responsabilidades, neste ou noutros serviços de urgência de qualquer instituição de saúde”.

E de quem é a responsabilidade, pergunto eu! Dou a palavra ao médico.

“… de
quem fecha os serviços de atendimento permanente nos centros de saúde sem alternativas efectivas;
quem pretende encerrar serviços de urgência sem uma reforma profunda do Sistema de Saúde;
quem desorganiza serviços de saúde com a contratação de empresas de mão-de-obra médica desligada da respectiva instituição;
quem não cuida de criar mecanismos de assistência aos idosos que dispensem o recurso sistemático à urgência hospitalar;
quem não investe a sério em verdadeiros cuidados de saúde paliativos;
quem se preocupa mais com o orçamento do que com os doentes;
quem não tem conhecimento suficiente para introduzir reformas racionais e não racionamento cego;
quem não dimensiona os recursos técnicos e humanos de forma dinâmica em função das necessidades;
quem não resolve os constrangimentos ao fluxo de doentes;
quem concede tolerâncias de ponto sem cuidar de mecanismos de compensação e rotatividade (só para as greves é preciso assegurar serviços mínimos?);
quem governa deficientemente que assuma integralmente as suas responsabilidades!
…Basta!”

(excerto de um artigo de opinião no Público de hoje, da autoria do Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Dr. José Manuel da Silva, médico especialista de Medicina Interna, nos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, na sequência de uma carta ao director clínico dos HUC e da sua própria experiência nos serviços de urgências).

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