Reis de verdade

de Álvaro de Oliveira

Não são Gaspar, Belchior e Baltazar. Não ofereceram ouro, incenso e mirra. Não são Reis, não são magos, não são sábios, nem foram guiados, na noite, por uma estrela qualquer. Mas encontraram o Menino! Eles são o João, a Maria Eugénia e o Pedro. Gente boa, gente do povo que têm idades diferentes, caminhos desencontrados, hábitos semelhantes e histórias comuns.

O João é pedreiro. E, um dia, às sete da manhã, quando caminhava para o trabalho, ouviu o choro de um bebé. Correu em seu socorro e encontrou o Menino. Era um bebé recém-nascido ainda sem nome, sem roupa, enrolado num trapo, abandonado dentro de um contentor de lixo. Por pouco, o Menino, não foi triturado pelo camião que faz a recolha do lixo. A manhã era de chuva torrencial. Nesse dia, João já não foi à pedreira. De um folgo, tomou o Menino nos braços e foi para casa. Hoje o Menino está com o João, tem nome, tem roupa, tem leite e já sabe sorrir.

Maria Eugénia é operária têxtil em horário nocturno. Em Julho do ano findo, já alta madrugada, quando regressava a casa deparou com uma caixa em papelão furada, colocada junto à paragem do autocarro. De súbito, viu que a caixa mexia. Resolveu abrir a caixa e aí encontrou o Menino também recém-nascido, pintalgado de sangue ainda fresco e, a tapar-lhe a cara, santo Deus! Estava um papelinho escrito com letras quase imperceptíveis que, a custo, conseguiu ler: Quem o encontrar, faça o favor de o baptizar. Maria Eugénia logo levou o Menino ao hospital mais próximo onde ficou, por alguns dias, em cuidados intensivos. Maria Eugénia não dormiu. Passou a noite a trabalhar e o dia dividido entre o hospital e a esquadra de polícia onde foi interrogada. Hoje o Menino está lavado, baptizado, chama-se José, tem o nome do pai de Maria Eugénia – esta que o adoptou e com quem o Menino começa a soletrar a palavra mãe. Passa os dias próximo de si, porque Maria Eugénia foi atirada para o desemprego por falência injustificada da fábrica onde laborou durante vinte anos.

O Pedro é metalúrgico. Uma noite, quando passava na baixa lisboeta, apercebeu-se que um Menino com os seus quatro cinco anos, depois de levar à boca qualquer coisa que tirou do saco de lixo entrou para o interior de uma carrinha velha e abandonada, e, com umas caixas de cartão, ali se preparava para passar a noite. Era Dezembro. Estava frio e o século XX chegava ao fim. Pedro só ao cabo de algumas horas conseguiu falar com o Menino que mostrava muita dificuldade em soletrar uma palavra que fosse. O Menino apresentava claros sinais de fome e de desprezo, tinha um ar de pássaro aterrorizado e os olhos espetados no chão como quem recusa olhar a sociedade de frente. Não falava. Tão-pouco gesticulava. O ínfimo dado que Pedro recebia certificando-o de que estava a ser ouvido era simples: à pergunta de Pedro, o Menino abanava ligeiramente com a cabeça a querer dizer sim ou dizer não.

Quando, por fim, percorrido algum tempo a procurar entender o Menino, aparece o imponderável: alguém, naquela zona degradante e mal cheirosa, diz a Pedro que os pais do Menino morreram vitimados pelo SIDA. Foi aí que Pedro estendeu a mão ao Menino, e agiu em conformidade: levou-o para o hospital e depois para casa. Pedro andou anos para registar o Menino e dar-lhe um nome. Agora o Menino não tem medo, sabe falar, sabe dizer pai e mãe, sabe ler, sabe escrever e sabe brincar e sorrir.

É dia de Reis. O João, a Maria Eugénia e o Pedro não são Reis. Ou por outra: são Reis no mais puro sentido da palavra, no que de mais pode haver de amor e de ternura. Nada que se compare a outros reis… Mas hoje, noite de 5 para 6 de Janeiro é o seu espaço memorial porque também encontraram, cada um a seu tempo, o Menino. Contudo, não há ouro, não há incenso, não há mirra. Mas há Amor. E os Meninos, outrora abandonados por tantos reis e rainhas deste mundo, sabem reconhecer esta nobreza de sentimentos.

Amanhã serão ser Reis de verdade.

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por Fernando Publicado em Geral

Um comentário a “Reis de verdade

  1. O Álvaro de Oliveira honra-me com a sua colaboração. Não com a frequência que desejava é certo. Mas a “um vagabundo que apanha as palavras … despidas de êxito…” não se pode exigir mais. Apenas posso aspirar que as venha “…depositar no convés da espera…” que é este lugar, seu, meu, de todos nós, para cumprir o seu (nosso) signo, o de ” … ir até ao fim da estrada com as palavra coladas aos dedos”. Com a “foice dos dedos”.

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