Novos para a reforma, velhos para o trabalho

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Estou a ver a SIC Noticias e não consigo deixar de me emocionar. À frente dos meus olhos, no pequeno rectângulo do televisor, caminham dezenas de trabalhadores, em grupo ou sós, sacos nas mãos, mochilas nas costas, cabeças baixas, um andar perdido. Alguns param à solicitação da jornalista. Os olhos avermelhados não conseguem disfarçar as lágrimas vertidas, a voz trémula não abafa a emoção, as palavras sufocam no desencanto, na incompreensão, no desânimo. Os mais jovens ainda conseguem articular palavras de esperança, aos demais, sinto-lhes a ferida, a mágoa, a debilidade, a angústia, a desesperança.

São mil e duzentos trabalhadores que ficam no desemprego, mais as centenas que se seguirão de pequenas empresas da indústria ou de serviços que dependiam do cliente, Opel da Azambuja.

Serão estas situações inevitáveis? Num mundo globalizado e de concorrência feroz, as empresas procuram diminuir custos para ganhar vantagens no preço do produto final. A consequência lógica e natural é a de deslocalizar as empresas para os sítios, onde o custo global se apresente o mais baixa possível, por efeito da mão-de-obra mais barata ou de outro conjunto de vantagens, que permitam enfrentar a concorrência e maximizar os ganhos.

Nestes cálculos, os interesses dos trabalhadores ou do Estado, não contam.

Que não contam para as empresas que se instalam até se pode compreender. Mas já é difícil de aceitar que os governos não acautelem os interesses globais do Estado e dos trabalhadores dessas empresas, em particulare.

Esta situação vem demonstrar a imprescindibilidade de mudar o paradigma do investimento estrangeiro.

Oferecer condições extraordinárias de fixação, baseadas em isenção de impostos, preços de terrenos a baixo custo ou gratuitos, prazos mínimos de retenção, está provado não ser a solução. Também a retenção das empresas baseada no baixo salário, nada garante e seria socialmente um retrocesso (haverá sempre um país com custos salariais mais baixos). A qualificação profissional e a competitividade, também não é suficiente, como é visível no caso da Opel da Azambuja. Esperar por uma consciência social das Empresas também está fora de questão.

Como e o que fazer? Fica claro que não bastam condições atraentes para as empresas se instalarem, que não chegam os baixos salários, que é insuficiente a competência e o bom desempenho dos trabalhadores. O que faltará?

As empresas precisam de preços mais baixos no produto final para assegurar uma competitividade e para maximizar os seus ganhos é sabido. Os trabalhadores, por outro lado, precisam de estabilidade, de dignidade profissional e de segurança no emprego. Nem uma nem outra razão se mostram incompatíveis. Sempre foi e será assim. As empresas irão sempre tentar ganhar mais e gastar menos. Os trabalhadores irão como lhes compete, lutar por direitos sociais e melhores condições remuneratórias. A vida em sociedade é assim. Os interesses das partes confrontam-se em tantos aspectos. Podem se quiser chamar-lhe luta de classes se é que ainda é permitido usar esta expressão.

A saída para isto já foi defendida por muitos. Deverá passar por assegurar condições para a existência de uma competitividade “permanente” ou dito de outra forma, por quem supostamente percebe disto, pela criação de cluster’s ou redes de interesses convergentes.

A razão desta “associação” de conveniências, sustenta-se, na criação de unidades produtivas independentes, a cooperar para um mesmo produto final, e concomitantemente, por força dessas “dependências” mútuos, cria dificuldades de “saída” de qualquer um deles.

Este tipo de solução, recordo-me, foi sugerida pelos trabalhadores da Auto-Europa, ao oferecerem os meios próprios, nesta lógica de cluster, quando a Administração da Opel, comunicou a transferência da unidade de produção da Azumbuja, para Espanha, com o argumento de concentração de meios convergentes.

Espera-se que o(s) Governo(s) tenha(m) aprendido alguma coisa com este processo todo.

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