O passeio triunfal de Sócrates e como os privilégios não acabaram

cmenergia.jpg

O país está anestesiado. O primeiro-ministro Sócrates navega em almas calmas. Os portugueses parecem rendidos ao canto da sereia Sócrates. As dores dos primeiros tempos da governação já estão esquecidas. A grande e justa manifestação de 100 mil trabalhadores em Lisboa, colocou a resposta dos trabalhadores e dos grupos sociais mais prejudicados, num patamar muito alto, talvez cedo demais. Todas as lutas agora, parecem pequenas e pouco eficazes.

O Governo conduziu uma grande ofensiva contra a grandes direitos dos trabalhadores e contra conquistas civilizacionais, mentiu ao país, aumentou os impostos, mexeu nos valores das reformas, aumentou a idade de trabalho, capitulou no código de trabalho, congelou salários, provocou perda de poder de compra. Mandou fechar escolas, maternidades, urgências, diminui comparticipações sociais aos mais idosos, cortou benefícios sociais, afrontou, inúmeras classes profissionais.

Foi uma investida nojenta com base na mentira de ataque a supostos privilégios. Como se, o direito a ter uma reforma justa, um sistema de saúde digno, segurança no emprego, estabilidade profissional e familiar, conceder protecção social aos mais pobres, fossem privilégios. Talvez, não sei, se tivesse justificado uma greve geral de protesto. As pessoas estavam mobilizadas, descontentes, os portugueses não aceitavam, os cortes brutais em algumas áreas. Agora não é o tempo.

O controlo das despesas e do défice público, o equilíbrio financeiro das contas do Estado, a reorganização estrutural e operacional do Estado, justificava uma intervenção urgente, empenhada e responsável, desde sempre isso foi claro. Como também foram claras as medidas que o PS preconizava para alterar a situação. E aqui reside a grande mentira deste Governo. O PS sabia o que se passava não podia vir depois negar desconhecimento. O PS e Sócrates apresentou-se às eleições e nos debates, muito claro nas suas opções e em nenhum momento insinuou sequer a possibilidade de ensaiar esta medidas. Foi uma vitória eleitoral da mentira.

Agora parece estar tudo bem. A máquina de propaganda e o estilo de Sócrates adormeceu tudo e todos. O passado está feito e esquecido. O discurso tipo é o de quem não tem dúvidas e não se engana. A oposição não tem força e capacidade de resposta. O caminho está traçado e aparece como seguro e inevitável. É essa a mensagem que passa(m). Os portugueses podem estar descansados. O futuro, o bom futuro, está ali ao virar da esquina.

Mas a mentira de que os ataques aos “privilégios” eram para todos, continua. Hoje lemos que o Presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), não obstante se ter demitido (não foi despedido) vai continuar a receber por conta do seu auto despedimento, a escandalosa quantia de 10 mil euros mês, durante os próximos dois anos.

O presidente da ERSE demite-se porque queria um aumento nos preços da electricidade em 16 por cento que mereceu a reprovação generalizada e obrigou o Governo a recuar, depois das espantosas declarações do Secretário Adjunto da Industria e Inovação, dizendo que a culpa era dos consumidores.

E nós cá vamos fazendo pela vida. “Eles tratam de nós”.

Anúncios

7 comentários a “O passeio triunfal de Sócrates e como os privilégios não acabaram

  1. A grande e justa manifestação de 100 mil trabalhadores em Lisboa, colocou a resposta dos trabalhadores e dos grupos sociais mais prejudicados, num patamar muito alto, talvez cedo demais. Todas as lutas agora, parecem pequenas e pouco eficazes.

    Desta justa indignação, que subscrevo integralmente, destaco para além do facto que a provoca, a descarada mentira de José Sócrates e dos seus acólitos, dizendo que se propunha atacar os “privilégios”, que ninguém escaparia à quixotesca campanha anti-privilégio. (Quixotesca é uma força de expressão, de facto não é quixotesca a “luta” de José Sócrates. D. Quixote de la Mancha lutava contra moinhos, julgando que o fazia contra ignóbeis monstros. Sócrates, pelo contrário sabe que ataca direitos dos trabalhadores mascarando-os de privilégios e deixa os verdadeiros privilégios e os privilegiados sossegados.) mas, destaco ainda a desfaçatez desta classe de gestores que se permite rodear-se de uma panóplia de mordomias, ao ponto de, num auto despedimento se poderem dar ao luxo de usufruir de chorudas pensões mensais, na ordem dos 12 000 euros, num país onde o ordenado mínimo, foi agora acordado para os 403 euros.
    O mesmo jornal desmente a notícia ao por na boca do visado a negação da situação a qual, segundo o próprio, não se lhe aplica. Apesar disso concorda com essa mordomia.
    Porem, se o autor do texto me permitir – parto do principio que ao colocar o texto on-line e abrir os comentários, está pré disponível para as criticas bem como para elogios penso dou de barato essa questão e prefiro focar-me noutros aspectos do texto, que sendo aparentemente marginais, contêm afirmações e opiniões das quais discordo. Discordo porque as considero erradas evidentemente, e não por discordar para ser do contra, num espaço onde por norma todas e todos estão de acordo. Vamos aos factos.

    Quando se afirma que a manifestação dos 100 mil elevou excessivamente a fasquia e que esse patamar ofusca todas as lutas subsequentes, o autor não deixa de ter razão. Evidentemente que depois daquilo, depois daquela mega-manifestação temos, (se queremos lutar e derrotar os neo-liberais que se apoderaram do executivo do aparelho de estado) que mater as lutas a esse nível. Na verdade a Inter depois desta manifestação optou por acções descentralizadas que nem de perto nem de longe se equivaleram em espectacularidade e mobilização, à dos 100 000. Mas esse é o grande problema de quem é influenciado na orientação da sua politica a partir das teses do CC do PC.
    São erros de estratégia do PCP, não tem outro nome. E o problema é que não se vislumbra dentro daquele movimento, que no caso é sindicalismo, alternativas credíveis. Houve, ou há, da parte dos sectores que ao longo dos anos no seio da Inter, apresentavam outras alternativas e batiam-se por elas, há da parte destes sectores sindicais uma clara desistência. E, das duas uma, ou desistiram por terem tomado consciência da sua fragilidade perante o aparelho do PCP, ou optaram por centralizar o combate no parlamento (via parlamentar por oposição à luta de massas) com especial enfoque na retórica dos quadros mais conhecidos e assiduidade nos media. Não sei se por essa via mudam a nossa vida, mas que nos alimenta o ego disso não tenho duvidas.

    Em resume, a manifestação dos 100 000 não foi precipitada nem cedo demais como o autor, em certa medida, dá a entender. O problema na minha opinião está nos factores subjectivos da revolta. A revolta está na ordem do dia, mas falta-lhe organização ou no mínimo, a organização de que dispõe está gasta, obsoleta e desfasada. Urgente mesmo é a organização dos trabalhadores, no mínimo dos mais conscientes, para poderem ajudar a conduzir a justa indignação e a revolta das pessoas contra o alvo certo.
    No mundo do trabalho a situação é gritante, os trabalhadores estão a ser espoliados dos seus direitos e as suas organizações não lhes dão respostas. Ou entram numa tónica igualmente demagógica e entendem que os trabalhadores ainda devem fazer mais sacrifícios, (a época também é propícia ao sacrifício) em benefício de uns quantos, e que eles pomposamente apelidam de análises responsáveis, ou então digladiam-se entre eles, para gáudio dos patrões e das administrações. Ou, mais grave não encontram respostas porque aqueles que sabem o caminho andam demasiado entretidos com o seu umbigo e completamente rendidos à via parlamentar.
    Outros há que canalizam todas as questões para os fóruns de debate. Ora os fóruns são importantes, sem dúvida, mas não canalizam a justa indignação contra os responsáveis e não fazem revoluções. E são demasiadamente elitistas para que possam envolver o grosso dos trabalhadores

  2. António Ramos

    Onde estão as discordâncias com o texto? Salvo uma (aparente) não encontro outras.
    Parece-me que as discordâncias não serão sobre este texto em concreto, antes decorrem de anteriores textos e as minhas opiniões, sobre a intervenção política nos movimentos sociais e em particular no movimento sindical.

    Sobre este em concreto não referes uma afirmação mas o entendimento que fazes de uma frase para invocar uma pretensa discordância. O António Ramos presume que eu acharia que a grande manifestação da CGTP de 12 Outubro teria sido precipitada. Nada mais errado. A grande manifestação foi justa, foi bem organizada, foi no tempo que teve de ser e a resposta em números foi a que os portugueses quiseram justamente dar. Foram muitos ainda bem.

    A verdade é que tendo tomada a dimensão que tomou a seguir o que se espera que seja maior e melhor. E aí está a dificuldade. Maior só uma greve nacional. Mas agora não é o momento. O momento poderia ter sido. Tendo atingido uma resposta tão elevada, outra qualquer forma de luta teria de ter uma dimensão igual ou maior e por isso se calhar logo a seguir (e digo se calhar no condicional, porque não sei mesmo – e por isso não pode ser entendido como uma critica) deveria seguir-se uma greve geral. Agora é que não. Agora a luta tem mesmo de assumir contornos muito concretos. Por exemplo o aumento da electricidade, o fim dos subsistemas de saúde …sei lá, sob pena do tal passeio triunfal de Sócrates e da aceitação pacífica da inevitabilidade das receitas neoliberais, adoptados pela maioria dos portugueses, como o único caminho, na expectativa de melhores tempos no futuro próximo.

    O que me parece é que as divergências são de outro tipo. Sobre isto acho que percebeste o que disse ou pretendi dizer e sinceramente não me parece que seja susceptível de mais considerações. O que me parece é que temos outro tipo de divergências, mas também sobre isso já não sei o que hei-de acrescentar mais.

    O problema é como ver a intervenção social ou sindical nos dias de hoje. Não são apenas questões da estratégia que me separam do PCP, restringindo-me ao campo sindical. São as formas de participação e da democracia sindical, o não aproveitamento das luta dos trabalhadores para outros interesses, o papel das organizações dos trabalhadores nos tempos actuais. As organizações não precisam de “líderes”, não precisam dos “mais conscientes”, não precisam de “orientações” externas, não precisam dos partidos ou do partido Os tempos não se compadecem com defesas de interesses corporativistas, de proteccionismos paternalistas, os tempos caracterizam-se para sermos credíveis, de defesa do razoável, dos direitos apropriados, da dignidade pessoal, de um futuro melhor para todos. Não entendo a actividade como a defesa do “eu”, dos “meus”, do que a mim apenas interessa. Este é um papel pedagógico exigível, em nome da credibilidade das organizações, de uma justiça social, da honestidade própria, de defesa de uma vida em comunidade, em contraponto ao egoísmo pessoal, ao individualismo interesseiro, à defesa corporativa dos interesses particulares.

    Fazer a distinção com os outros baseados em quê? Com as mesmas práticas, os mesmos princípios, o mesmo modelo de organização, os mesmos objectivos, no pressuposto de que nós defenderemos melhor os que os outros também defendem? Nós os mais esclarecidos, nós os mais honestos, nós porque não buscamos protagonismos, nós porque … por favor.

    O que devemos ter é ideias mais claras possíveis sobre as coisas, perceber o sentido de determinadas opções, ter ideias sobre o que pretendemos para todos, que país e tipo de sociedade queremos construir, sem pretensiosíssimos, sem querermos ser os melhores, disputar os lugares, as posições, ter o destaque pessoal. Para isso não podem contar comigo. Por isso é que defendo a participação, a discussão, o debate, a procura de soluções. Não devemos ter a pretensão de pensar que as propostas e as soluções estão nas mãos dos mais “esclarecidos”. É nisto que residem algumas das minhas divergência com os meus companheiros. Discutir, debater, formar opinião, livre, sem constrangimentos, sem preconceitos, sem ideias feitas, com lealdade política, para aprender com o passado e estar nos locais próprios, em todos os lugares a defender os ideais socialistas.

    O tipo de organização que defendo é apenas para debater as questões centrais de uma prática e de um ideal de política socialista. Para controlar, para liderar, para apresentar números, pode interessar aos burocratas dos aparelhos, mas a mim não me interessa.

    As revoluções para permanecerem fazem-se com esclarecimento, com debate, com discussão e fazem-se com a luta. Não se faz com todo ao molho e fé em Deus (Deus que aqui são os lideres, pequenos ou grandes, sustentados em pés de barro, para me fazer lembrar os meus tempos de maoista). Se a história e as experiências erradas não nos serve de nada, não sei o que andamos cá a fazer)

    É por isso que estando em termos filosóficos de acordo com o Bloco não estou nem de acordo com a forma como se trabalha dentro da organização, mas também não estou a favor de quem defende modelos de organização e formas de estar que consubstanciam ainda apego a modelos M-L dos quais estou completamente afastado à largos anos.

    Embora podendo não concordares comigo António Ramos, espero no mínimo ter conseguido explicar as minhas posições. Um abraço.

  3. Discordo do texto original do Fernando em dois ou três aspectos, vamos ver se sou mais explícito.
    Um, porventura o mais evidente, prense-se com a análise, não sobre o patamar alcançado, mas no grau de oportunidade. Eu não acho que foi cedo demais, como está implícito na dúvida que o Fernando coloca, quando escreve ‘talvez cedo demais’
    De facto, posso não me ter expressado correctamente, mas a discordância não se coloca ao nível da oportunidade da manifestação, ambos estamos de acordo com ela, a questão relaciona-se com o grau de adesão e o patamar alcançado. Para mim não foi surpresa, quer o número de manifestantes quer a abrangência de mobilização a qual ultrapassou a esfera de influência da própria central que a convocou. Obviamente que o peso do STAL e com ele o dos trabalhadores das autarquias era significativo, bem como o das Associações de Reformados. Mas quem lá esteve, teve oportunidade de verificar não só os estratos sociais representados como também a presença de cidadãos que habitualmente não embarcam nestes protestos.
    Outra questão é o que fazer com este descontentamento? O Fernando não coloca a questão a este nível, logo não se sente na necessidade de lhe dar resposta. No texto dá ênfase à sua justa indignação e conclui com alguma resignação com «E nós cá vamos fazendo pela vida. “Eles tratam de nós”».
    A frase enriquecida com uma citação do FMI, do Zé Mário, é elucidativa disso mesmo, “Eles tratam de nós”. Tratam e tratarão sempre, se nós, os descontentes (para não escrever deserdados) não adequarmos a resposta. Se não soubermos canalizar o nosso descontentamento em crescente. Obviamente que depois daquela jornada «Todas as lutas agora, parecem pequenas e pouco eficazes.»
    «Parece-me que as discordâncias não serão sobre este texto em concreto, antes decorrem de anteriores textos e as minhas opiniões, sobre a intervenção política nos movimentos sociais e em particular no movimento sindical.»
    Talvez o Fernando tenha acertado na ‘muche’. Evidentemente que as pessoas e em concreto os que de uma ou de outra maneira expõem o seu pensamento, criam expectativas e por consequência frustrações. Não é o caso, particularmente sobre as hipotéticas frustrações. Para mim o que conheço do Fernando (é muito, muito pouco… diria quase nada.) está igual a si próprio. Em resume a minha análise prende-se efectivamente com o que leio, quando a disponibilidade me permite. (a minha profissão obriga-me a ausências prolongadas da residência e não tenho portátil). Das leituras que tenho feito das opiniões do Fernando, regra geral bem expressas, leva-me às conclusões que escrevi em anterior comentário.
    O Fernando tem a opinião que tem e eu não tenho nada com isso. Fui ao debate, porque me dá gozo trocar ideias, assimilar opiniões e combater outras.
    Tenho observado alguma contundência, se calhar a expressão é forte, mas foi a que encontrei, por parte do Fernando em relação aos marxistas-leninistas. Hoje escreve mesmo que no Bloco há quem viva apegado «a modelos M-L dos quais estou completamente afastado à largos anos» subentendendo-se que, e acho que já escreveu nalgum lado isso mesmo, fez um corte com essa filosofia. Ora eu entendo que o facto de o Fernando ter feito esse corte, não induz necessariamente a conclusão de que essa filosofia de trabalho está errada. Também o socialismo aparentemente fracassou e o Fernando afirma-se defensor «de um ideal de política socialista».
    O texto de resposta é elucidativo e nada mais tenho a comentar sobre ele. O que escrevi, assumo. Da mesma forma que não tenho relutância em assumir e defender tal como o Fernando que «O que devemos ter é ideias mais claras possíveis sobre as coisas, perceber o sentido de determinadas opções, ter ideias sobre o que pretendemos para todos, que país e tipo de sociedade queremos construir, sem pretensiosíssimos, sem querermos ser os melhores, disputar os lugares, as posições, ter o destaque pessoal. Para isso não podem contar comigo. Por isso é que defendo a participação, a discussão, o debate, a procura de soluções.»
    Acrescento apenas COM ORGANIZAÇÃO; pelo simples facto de que não sendo crente tenho dificuldade em gerir O TUDO AO MILHO E FÉ (em quem?).

  4. Ainda sobre a divergência sobre o meu artigo. O António Ramos bem procura mas não consegue. Não temos divergências sobres isso, António Ramos. Não queiramos criar divergências onde não existem, já bastam outras, essas sim importantes e que marcam a forma como devemos pautar a nossa acção. Não digo que tenho razão. Mas há muitos anos, desde que deixei a militância partidária, fui consolidando estas minhas ideias. Como nunca deixei a actividade cívica e estive ligado aos movimentos sociais na Empresa (CDCR, Co-Fundador do Clube Portugal Telecom, o primeiro responsável (como presidente) do maior evento cultural na Empresa – o 1º Encontro Nacional da Cultura dos CTT (que se ficou pelo primeiro) e fui sempre um activista sindical. Estive em presente em todas as listas de oposição à direcção do Sintel, agora SINTTAV, em mais de trinta anos contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que não participei em reuniões ou plenários. Ah e apesar de estar fora da esfera partidária aceitei ainda fazer parte de uma lista CDU (indicado pela UDP como independente, depois de um acordo entre estas duas forças politica aqui em Viana) e fui eleito para a maior junta de freguesia da cidade. Digo isto apenas para não pensarem que falo de “fora”.

    Também tiro lições da falência dos regimes ditos comunistas. De toda esta experiência fiquei sem dúvidas sobre um aspecto. O tipo de organização, o papel “dirigente” do partido, a suposta “superioridade” moral dos comunistas, a questão do partido único e do papel na sociedade, a organização centralista “democrática, são as razões principais e que permitiram a ascensão de uma casta de oportunistas e que tomasse conta do sonho lindo de construção de uma sociedade comunista. Ainda ontem alguém dizia que eu era comunista. É uma afirmação que não me ofende e de algum modo me honra. Sem explicar os motivos eu disse que sou mais um anarca-comunista (eu sei que estes conceitos não se ajustam ideologicamente –mas para simplificar; anarca no que respeita a ser liberal nos costumes e nas liberdades individuais e colectivas e sou comunista no que se refere à defesa dos valores da justiça social).

    Estou aqui a divagar mas para dizer que o conceito de organização M-L é o principal responsável pela falência do comunismo. Quero dizer que me considero marxista e leninista nem por isso, com excepção de pequenos contributos às teorias marxistas como a de outros pensadores mais contemporâneos, reforçou e teorizou sobre organização e o papel dos partidos comunistas na sociedade e no Estado que se mostraram errados. As organizações M-l de extrema-esquerda do passado, o PC do passado-presente, são bons exemplo de como florescem os burocratas e como se formam as castas oportunistas, por muito bem intencionados que possam ter sido no princípio. Mas os poderes, pequenos ou grandes, corrompem (no sentido lato da palavra) de todas as formas.

    Organização de tipo M-L não. Os pressupostos desse tipo de organização é o da liderança do partido, do controle das massas pelos dirigentes, do papel superior do partido e dos comunistas (os mais conscientes). Organização sim mas para o debate, para fortalecer ideias, consolidar linhas de orientação, para formar opiniões em ambientes despreconceituosos, sem tabus ideológicos. Apenas unidos nos grandes valores de uma esquerda cujas bases são ainda o marxismo mas também o de novos pensadores que abriram outros horizontes para os novos tempos.

    O “cedo de mais” é uma constatação que resultou da grandeza inesperada da luta e que criou uma dificuldade. Não que a situação não justificasse a grandeza da luta, mas quando estas lutas aparecem com esta dimensão a resposta seguinte tem de ser igual ou superior no mínimo. O António Ramos diz que não foi uma surpresa para ele, tudo bem. Mas o que fazer agora? O António Ramos diz que eu não coloco a questão do que fazer com esse descontentamento? Ò António Ramos mas é precisamente por isso que disse que talvez esta luta tivesse aparecido cedo de mais, exactamente porque o que fazer e como fazer agora? E apesar de não ter a pretensão de achar que sei o que se deve fazer, disse que a greve geral que poderia ser o passo seguinte, mas que agora deixou de ser, como parece óbvio. Por isso também afirmei “Agora a luta tem mesmo de assumir contornos muito concretos. Por exemplo o aumento da electricidade, o fim dos subsistemas de saúde …sei lá, sob pena do tal passeio triunfal de Sócrates e da aceitação pacífica da inevitabilidade das receitas neoliberais, adoptados pela maioria dos portugueses, como o único caminho, na expectativa de melhores tempos no futuro próximo”. Disse alguma coisa parece-me. O que não li é o que o António Ramos acha que deva ser feito.

    Não sou só eu também O António Ramos também acertou na “muche”. Tenho sido contundente na crítica ao M-L sem dúvida. Ao (M-L) assim unidos. Neste momento não vou acrescentar mais nada sobre isto, teremos outras oportunidades. Considero o M-L um erro politico. Mas o M-L não é o socialismo, nem o comunismo, tão-pouco. È uma versão do comunismo em minha opinião errada. Ou se calhar estou eu errado …se o comunismo é o que se pratica hoje nos países ditos comunistas ou que foram tidas como comunistas. Nesse caso sou apenas um anarca- (qualquer coisa). Acho que o que sou é mesmo um libertário de esquerda se interpreto bem o sentido da expressão.

    O que fracassou não foi o Socialismo o que falharam foram as formas de organização da sociedade, do partido, falhou o M-L. E falhou porque a sociedade estava organizada de molde a que o partido e aos militantes, como os “mais esclarecidos”, a “vanguarda”, a “superioridade” moral dos militantes, governasse na base de uma confiança ilimitada nos dirigentes, como os “iluminados”. Deu o que deu. A organização de tipo leninista, centralista, bloqueou o debate interno, o povo não questionava porque o partido é que sabia, confiavam no governo que estava pretensamente ao serviço deles. Não discutiam decisões, não discutiam política, tudo estava fechado no núcleo restrito do partido e por sua vez na sua célula, numa organização de tipo vertical em que os diferentes pensamentos, as opiniões criticas não se encontram, o debate é restringido às células, quando muito a pequenas assembleias de células. Ora com isso o partido estava mesmo “partido” e a tomada do poder por dentro acontecesse. O povo quando se apercebe já era tarde.

    Organização por isso sim e muita mas de tipo diferente e com objectivos diferentes.

    Não quero deixar de salientar que pelo menos achas que no que tenho escrito revelo alguma “coerência” nas posições que tenho defendido. Embora percebo o queiras dizer com coerência, prefiro antes os termos, consistente ou consequente. Esta escrita sai ao correr da pena e por isso pode não ser clara no que pretendo dizer. Mas juntando outros textos anteriores se perceba melhor o meu entendimento. Ou talvez um dia escreva com tempo, usando mais reflectidamente as palavras para explicar o meu ponto de vista.

  5. «O António Ramos bem procura mas não consegue.»
    Estás errado, equivocado! O A. Ramos não procura divergências, pareceu-lhe que eram perceptíveis. Não são? Tanto melhor!

    Se aquilo que eu escrevi não é divergente do que pensa e defende o Fernando, ainda bem. Em vez de um, somos dois, muitos mais certamente, a defender ORGANIZAÇÃO.
    Isto até parece um paradoxo porque essa auto-definição que encontrou para se classificar (anarco-comunista) corresponde também à minha. Isto é: Se me tivesse que classificar não andaria longe dessa definição. Acho, sem qualquer ironia, brilhante o achado, isto é a conjugação destas filosofias. Pessoalmente, talvez me definisse mais próximo dos anarco-sindicalistas do princípio do século passado, ou daqueles outros que constituíram o grosso dos internacionalistas que combateram em Espanha, em defesa da república. Considero a filosofia anarco-sindical como um expoente da capacidade dos trabalhadores organizados (Organizados sim!Não é paradoxo, repito) lutarem por causas justas, tendo como regra a conduta e o esforço, a actividade e o compromisso, baseado na rebeldia e na conduta honesta e responsável do individuo
    Defendo a ORGANIZAÇÃO sindical e partidária, isto pode parecer contraditório, sobretudo com a faceta anarco… mas não. Não é!
    O grande desafio que se coloca a qualquer opositor ao neo-liberalismo é fazer ver ao outro trabalhador que a ordem social actual não só não é a desejável, como não é inevitável e que a sua organização, a organização dos trabalhadores foi e é um instrumento fundamental da nossa luta contra os que nos oprimem, contra os que nos roubam e destroem o futuro e os sonhos, sejam eles quem forem, sejam eles portugueses ou estrangeiros.
    O governo de Sócrates há muito que deixou cair a sua máscara de esquerda, apresentando-se claramente imbuído de uma virulência neo-liberal, que não é de todo desconhecida das organizações defensoras dos trabalhadores portugueses. Sócrates fez cair sobre os trabalhadores o deficit da crise, poupando a esse esforço de “concertação nacional” os capitalistas e os empresários. (Aliás o tema inicial deste post abordava exactamente uma situação destas).
    Obviamente que mais cedo ou mais tarde agudizar-se-ão os confrontos sociais (Isto não é do M-L, isto é da vida, é recorrente às lutas dos povos. Sim a modernidade, não acabou com a revolta e a luta dos explorados. È intrínseco, faz parte da vida. Uns a quererem explorar, outros a rebelarem-se.) e então é preciso que as organizações dos trabalhadores estejam à altura da resposta e possam encabeçar o descontentamento popular, não para o moldar ou controlar, tampouco para “ensinar” o caminho, mas para com o esforço individual e colectivo dotá-lo (à revolta) de ferramentas e meios necessários para a luta económica, social e política que se seguirá e alertá-lo para as tentativas de controlo que inevitavelmente aparecerão.
    Este tema é apaixonante e um pouco a martelo, quero deixar ainda este ponto para reflexão: Se o meu amigo entrar hoje num sindicato pouca diferença encontra com uma qualquer repartição de fianças ou algo parecido, onde não falta a respectiva tesouraria e uma série de mangas-de-alpaca, tristonhos e serviçais como qualquer funcionário. O que vê nesses sindicatos é gabinetes e gabinetes, burocracia e pouco mais, ao invés os sindicatos anarquistas do primeiro quartel do século XX (anarco-sindicalistas) o que se encontrava era uma sala de convívio, uma biblioteca, um espaço de debate, de discussão, de analise, de reflexão, até escolas havia nos sindicatos… lá ao canto um pequeno arquivo onde se pagavam as cotizações…
    Nesses sindicatos formavam-se lutadores e combatentes, hoje formam-se corporativistas e interesseiros. Nesses sindicatos organizava-se a ORGANIZAÇÃO, nos actuais desorganiza-se o que resta de ORGANIZAÇÃO.

    Agora pode escrever que o António Ramos mistura tudo, baralha conceitos e tudo o mais que lhe apetecer. Fernando, pode crer eu sou um pouco de tudo isso que você pensa, ou como diria o poeta algarvio António Aleixo:

    Vós podeis chamar-me louco,
    Socialista, comunista e anarquista também!
    No fundo eu sou de tudo isso um pouco
    Particularmente do que de bom tudo isso tem!

  6. Disse eu. “ O António Ramos bem procura mas não encontra”. Refiro-me obviamente ao conteúdo do post. E não temos de facto. A suposta diferença deve-se apenas, ou uma imperfeita interpretação ou a uma deficiente explicação da minha posição. Adiante.

    Já quanto às questões da Organização temos algumas. Mas depois do último comentário do António Ramos até me parece que as “nossas” divergências não são assim tão evidentes. Vejamos:

    Eu não ponho em causa a necessidade de Organização seria estultice. Convém lembrar que estamos falar dos partidos e destes se Organizarem para “influenciar” as associações dos trabalhadores ou outros movimentos de cidadãos.

    É neste aspecto que as minhas observações devem ser colocadas. Nunca por nunca na necessidade, óbvia, das pessoas se organizarem para defenderem interesses colectivos, causas, etc…

    Posto isto onde poderá haver divergências é no “Tipo” de Organização e nos “Fins” da Organização dos partidos no seio desses movimentos.

    O António Ramos defende a necessidade da Organização partidária, a existência de correntes organizadas nos movimentos associativos sindicais e outros para “ fazer ver ao outro trabalhador que a ordem social actual não só não é a desejável, como não é inevitável e que a sua organização, a organização dos trabalhadores foi e é um instrumento fundamental da nossa luta contra os que nos oprimem, contra os que nos roubam e destroem o futuro e os sonhos, sejam eles quem forem, sejam eles portugueses ou estrangeiros.”

    Ora aí está …para “fazer ver”, dizes.
    É o conceito do partido “vanguarda”, o conceito dos “mais esclarecidos”, é o conceito (M-L) do papel do partido. Não nós não precisamos de um partido que nos “faça ver”, seja o partido o PCP o Bloco ou qualquer outro.

    Não caro amigo, os movimentos não devem ser condicionados por “interferências” externas, com a lição “preparada”. Com uma agenda definida.
    Sem dúvidas, precisamos dos melhores activistas, precisamos dos mais combativos, precisamos dos mais esclarecidos e esses podem estar também noutros partidos ou não estar em nenhum.

    A Organização tipo célula ou núcleo, nas empresas ou nos movimentos, tenderá a querer disputar a liderança das associações e não o debate esclarecedor, tenderá a querer conduzir as “lutas”, segundo lógicas partidárias e não os interesses específicos, poderá interessar do ponto de vista da “clubite”, da “contagem de espingardas”, será do agrado dos “chefes” e dos burocratas dos partidos (controleiros ou funcionários), certamente, mas não será boa para as organizações dos trabalhadores ou dos movimentos cívicos.

    Organização sim, claro! Organização para discutir ideias, para formar opiniões, para consolidar valores, para refazer ou adequar ideologias, para estarmos presentes onde a luta se desenvolve e contribuir para as melhores decisões. Para controlar, para orientar, para liderar, porque sim, porque somos os bons, ao gosto das agendas partidárias isso é que não. Devemos estar nas organizações sim, para fraternalmente, como dizes e bem, lembrando os movimentos do século passado, em particular os de tipo anarco-sindicais, para “lutarem por causas justas, tendo como regra a conduta e o esforço, a actividade e o compromisso, baseado na rebeldia e na conduta honesta e responsável do individuo”, aí estamos completamente de acordo.

    Permite-me também terminar, lembrando (de memória) o sábio António Aleixo:

    Se não fosse esta certeza
    que nem sei de onde me vem
    não comia não bebia
    não falava com ninguém
    acocorava-me a um canto
    no mais escuro que houvesse
    deitava as mãos à boca
    e viesse o que viesse.

    E já agora deixa-me repetir-te, nas palavras do António Aleixo, nas quais também me revejo.

    Vós podeis chamar-me louco,
    Socialista, comunista e anarquista também!
    No fundo eu sou de tudo isso um pouco
    Particularmente do que de bom tudo isso tem!

    Um abraço!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s