Contra uma ETA terrorista

eta1.jpg

Em 26 de Setembro de 1975, num fim de tarde, se bem me lembro, deu-se o assalto, seguido de incêndio à Embaixada de Espanha no Porto, em protesto contra a condenação à morte de 5 militantes da ETA e da FRAP. A palavra de ordem gritada a plenos pulmões, por centenas de pessoas era “Viva a FRAP, Viva a ETA, Viva a luta dos povos de Espanha”.

Tenho bem presente as imagens do edifício da Embaixada a arder e da polícia militar, a tentar proteger o que era possível e a afugentar violentamente os manifestantes. Eu estava lá! Esta acção visava colocar pressão contra pena de morte, denunciar o regime fascista de Franco e apoiar os movimentos nacionalistas.

Não me arrependo, pelo contrário, em ter participado naquela acção, apelidada de provocatória pelo PCP e condenada pelos restantes partidos do sistema. Hoje tudo é diferente. Se ontem vim para a rua apoiar a ETA e condenar o regime franquista, hoje viria para a rua protestar contra a ETA em apoio e de solidariedade às famílias das vítimas dos ataques terroristas da ETA.

Mudaram-se os tempos mudaram-se as circunstâncias. A Espanha não é nenhuma ditadura e a independência ou autodeterminação nacionalistas, não se conseguem pelas armas, pelo terror e pela morte de inocentes.

Por isso a minha condenação a esta tentativa de atentado terrorista, reivindicado pela ETA, neutralizado pela polícia espanhola, que a tempo, conseguiu detonou o explosivo colocado numa viatura, no aeroporto de Barajas, em Madrid.

Anúncios

Saddam Hussein foi enforcado

saddam.jpgA barbárie ganhou. Um sanguinário criminoso foi enforcado esta madrugada, por ordem de um tribunal fantoche. O Estado permitiu-se mandar matar.

Ninguém verterá uma lágrima por Saddam Hussein.

Um criminoso assassino não merece compaixão, uma lágrima, um simples pesar. Mas é vergonhoso caber a um Estado, um Tribunal, uma Lei, uma Pessoa, a ordem de matar.

Caberá agora a outros Estados, a outros tribunais a outras leis, julgar outros criminosos. Julgar os criminosos que invadiram um país, instalaram o caos, fizeram a guerra e são responsáveis por milhares de mortes até ao momento.

Essa gente tem nome. Essa gente tem de ser julgada pelos seus crimes. Essa gente tem de ser condenada. Na lista de criminosos, à cabeça estão os nomes de George Bush e Tony Blair.

Fumos…

nunocardoso.jpgA Câmara Municipal do Porto ofereceu em 1997, terrenos ao Salgueiros, um clube atolado em dívidas, para “efeitos de edificação de espaços desportivos, aparcamentos, estação de serviço e construção do novo estádio do Clube”.

Com o clube à beira da falência, por gestão ruinosa, os terrenos oferecidos pela Câmara foram (nove anos depois em hasta pública) comprados por uma empresa imobiliária do dirigente do Salgueiros Carlos Abreu, por 3 milhões de Euros. Uma outra proposta de 15 milhões de um outro licitador, desapareceu misteriosamente.

No processo de doação dos terrenos municipais, envolveram-se pelo lado da Câmara, Nuno Cardoso, Vereador do Urbanismo, depois Presidente e pelo lado do Salgueiros, Carlos Abreu, número dois do Salgueiros, agora Presidente.

Agora voltaram a encontrar-se.

Segundo o Público (notícia não disponível em one-line), Nuno Cardoso passou a sócio de Carlos Abreu na empresa que vai comercializar os terrenos doados pela Câmara.

Estranhas coincidências!

Esquisito também, é Nuno Cardoso dizer que só conhece Carlos Abreu, há uns sete, oito meses, quando os dois, foram os protagonistas, na cedência incondicional dos terrenos municipais ao Salgueiros. Esquisito é fazer sociedade com alguém que só conhece há uns meses.

Para esta nota ficar completa, faltará dizer que o Salgueiros “acabou” ; que o seu estádio foi vendido à Metro, sendo Nuno Cardoso administrador; que o anterior Presidente do Salgueiros, responde em processo-crime por suspeita de fraude fiscal e outro por gestão danosa; que Nuno Cardoso está ser investigado pelo MP, no âmbito da permuta de terrenos com o F.C. Porto, onde a autarquia terá sido fortemente prejudicada.

É o trilátero, futebol, autarquias, construtores, a funcionar em pleno.

Não venham com conversas da treta.

dn27dez.jpg

Segundo o DN, os portugueses gastaram “Quase mil euros por segundo no Natal”. Como? 1 000 Euros ao segundo dá 60 000 ao minuto, 3 600 000 à hora, 86 400 000 euros em 24 horas. Caramba …quanto teriam gasto os portugueses, verdadeiramente neste Natal? Não sou capaz de o dizer. Mas, mil euros por segundo, não foi de certeza.

No desenvolvimento da notícia, verificamos que estas contas se referem a registos de compras, através de máquinas Multibanco desde o início de Dezembro até ao Natal. Dizer que são de Natal é forçar a nota. É carregar na tese de que os portugueses são excessivamente consumistas e vem na peugada de outras notícias sobre o acréscimo do crédito mal-parado e sobre o excessivo endividamento das famílias.

A sensação que fico é que estão a querer fazer de nós uns papalvos.

Os novos catequistas, apóstolos da moral e virtudes públicas, andam inquietos, coitados, com o consumo dos portugueses. Por um lado, fodem-nos tramam-nos com aumento de custo de vida, o fecho de empresas, a retirada de direitos. Depois ainda atiram à cara que os portugueses não sabem gerir o seu dinheiro. Fica tudo a bater certo, não é? Puta que os pariu!… Bardamerda para eles.

Os portugueses não gastam demais. Os portugueses gastam o que podem gastar. Não conseguem é fazer milagres. Alguns se calhar até conseguem, tendo em conta os míseros cêntimos com que são obrigados a viver.

Tudo o resto é treta! Os portugueses não gastam de mais… não gastam mais que outras gentes, outros povos onde se cumpre este ritual do Natal.

Gastam mais do que é normal, é verdade, mas não gastam para si e não gastam acima do que podem. Gastam fazendo sacríficios, para dar carinho e afecto aos que lhes são mais próximos, aos familiares e amigos. Gastam com muitos sacrifícios, mas gastam bem. Gastam para dar a outros. A troca ou a oferta generosa de prendas é muito bonito.

Não nos emprenhem os ouvidos, porra! A maioria dos portugueses não gasta mal, nem gasta muito. Gastam mais neste dia para oferecer um gosto aos outros. A razão de a maioria dos portugueses atravessarem um momento difícil, e nalguns casos, não conseguirem cumprir os seus compromissos, não é porque gastem demasiado ou gastem mal. Não, não é! É porque lhes roubaram o emprego, aumentaram os impostos, os custos dos bens essenciais. Aumentaram as rendas ou os juros dos empréstimos.

Não nos venham com conversas da treta.

[odeo=http://odeo.com/audio/4612283/view]

“Democratizar” a democracia.

Nuno Melo líder do grupo parlamentar do CDS/PP teceu critica pública à direcção e ao presidente, defendendo o regresso de Paulo Portas à liderança do partido.

A posição de Nuno Melo e as reacções dos pataratas dos dirigentes do CDS/PP poderiam suscitar um debate interessante sobre a qualidade da nossa democracia. Vou deixar a minha opinião e confesso que gostaria de conhecer outras.

Em minha opinião, a liberdade de um militante exercer, em público ou em privado, a critica deve ser um dos valores absolutamente inquestionáveis no funcionamento de um partido democrático. Considero mesmo que um partido que não aceite este princípio é um partido-coutada de alguns senhores. É um partido fechado à sociedade e ao activismo partidário. No meu entendimento, um partido de “alma” intrinsecamente democrata, deve ser apelativo à participação cidadã, exigente e responsável e não se deve nunca perturbar, com a exposição pública de divergências.

Quantos partidos existem com esta “alma”? Que partido aceita com respeito, naturalidade e tranquilidade a diferença de opiniões no grupo? Nenhum. Nos estatutos alguns, mas na prática, apenas vão tolerando desde que não provoque “danos”.

Nos grandes partidos, até se permitem fazer esse tipo de criticas, mas são apenas “aparências” democráticas porque o que subjaz são “assaltos” à liderança, apanhar lugares e os crónicos alinhamentos oportunistas aos potenciais chefes.

Tentando ser claro. Uma coisa é a lealdade e a responsabilidade política dos intervenientes que deve ser preservada. Outra bem diferente é tentar silenciar as posições críticas de quem entende ser adequado tornar publica uma diferença de opinião.

Numa situação destas não há nada a fazer que não seja aceitar a regra do jogo democrático. Sem sobressaltos. Não consigo vislumbrar uma situação onde a intervenção do colectivo partidário poderá se sobrepor à livre expressão de um pensamento ou de uma critica.

Uma crítica bem arrumada no plano político e ético pode incomodar, ser injusta, mesmo desagradável, mas renegar este valor fundamental da democracia é impróprio de um partido democrático.

Por isso e independentemente das razões de Nuno Melo (também ele um patarata) só por patetice e pouca cultura democrática, se pode exigir uma demissão, mesmo tratando-se do líder parlamentar, por ter manifestado a sua opinião sobre o curso do seu partido e da sua liderança.

No dia em que os partidos (os militantes) souberem conviver pacificamente com estes aspectos, teremos sem dúvidas uma democracia melhor.

A estocada final na maior empresa nacional.

cartazfestacultura2.jpg*

 

Hoje foi dada a estocada final na maior empresa do país, uma empresa nacional de dimensão internacional. A Portugal Telecom um dos poucos orgulhos do país vai ser entregue de borla a Belmiro de Azevedo. Não me vou repetir. Sobre a OPA da PT escrevi mais de meia dúzia de textos. Sou radicalmente contra a “entrega” da PT a qualquer grupo económico.

O nosso triste país vai perder uma empresa de dimensão nacional e internacional e um serviço público de telecomunicações. Os sucessivos poderes do país abdicaram dos interesses nacionais e deixaram irresponsavelmente a Portugal Telecom desprotegida da ganância devoradora do capitalismo mais decrépito.

A PT vai acabar é quase certo. Mas a nova PT de Belmiro não será nunca a PT, a empresa reserva da memória das telecomunicações. Uma história bonita de 120 anos morre nesse dia.

Em nome dessa memória o nome Portugal Telecom deve acabar também. Seria um provocação o grupo Belmiro de Azevedo “aparecer” como a herdeira das telecomunicações em Portugal.

Os portugueses estão na maioria equivocadas sobre a empresa PT. A memória das pessoas reduz-se aos elevados preços da prestação do serviço telefónico. Mas não sabem muitas coisas. E outras esqueceram.

1. Esqueceram que os altos preços do serviço telefónico provieram de uma empresa monopolista do Estado, usados para subsidiar o Orçamento do Estado no tempo da ditadura.
2. Também se esqueceram que sendo uma empresa pública estava obrigada à prestação do serviço público universal para todos. Para poder haver telefone nos locais mais recônditos, para haver postos públicos, para permitir condições especiais aos reformados e pensionistas.
3. E também não sabem que após a liberalização das telecomunicações a PT esteve, durante alguns anos, impedida de baixar os preços, para dar “espaço” aos novos operadores.
4. E que estava obrigada a ceder as suas infra-estruturas a operadores parasitas que não investiam numa rede própria.
5. E que o regulador não lhes permitia acompanhar ou ter preços mais baixos que a restante concorrência.
6. E que foi impedida de lançar no mercado serviços inovadores porque os outros não tinham capacidade operacional e um “depósito” de conhecimentos técnicos e não investiam em formação e investigação.
7. E que a banda larga da Internet foi retardada por pressão da concorrência que também não permitiu a tarifa plana (preço único independentemente do consumo).
8. E que ainda hoje existe a assinatura telefónica por imposição da Anacom.

E muito haveria a dizer mas não cabe agora aqui neste texto. A Anacom demorou uma eternidade para tomar uma decisão certa e adequada. Foi a recente decisão da separação das redes de cobre e cabo e separar o negócio do retalho, (já depois de declarada a OPA) permitindo as condições para a diversificação dos serviços para alimentar uma melhor oferta técnica e comercial e mais baixos preços.

Com essa medida que teve a concordância da PT, deixou de fazer sentido a OPA. Agora vamos ter menos concorrência no fixo, uma concentração quase monopolista nos móveis e a perda de dimensão das empresas. Com uma certeza …que há melhor oportunidade, Belmiro de Azevedo, parte para outra, provavelmente entregando-a à France Telecom.

Em 1997 o Estado deixou de ter uma participação maioritária com a última fase da privatização. Foi mal para o país. Agora Portugal vai deixar de ter uma empresa de dimensão internacional, para estar nas mãos de um merceeiro. Desse negócio evá de outros, percebe. De telecomunicações é que não. Veja-se o fracasso do grupo na área do fixo, com a Novis, na Internet, com o Clix, no móvel com a Optimus.

Nota: *Cartaz da Festa da Cultura 92
(1º Encontro Nacional da Cultura dos Trabalhadores dos CTT)

por Fernando Publicado em OPA PT

O primeiro dia

[odeo=http://odeo.com/audio/4882083/view]

A principio é simples, anda-se sózinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Sérgio Godinho

Sacanices do Governo Sócrates

edpbloco1.jpg

Confesso que nunca tinha percebido as razões para a Entidade Reguladora dos Serviços Eléctricos (ERSR) e o Governo, reclamarem um aumento de 15,7 por cento das tarifas da EDP.

Havia fortes motivos para não perceber. A EDP é uma das maiores empresas nacionais. Foi eleita a melhor empresa não financeira cotada na bolsa. É uma empresa com lucros fabulosos, ano após ano. Em 2006 irá apresentar os maiores lucros de sempre. A EDP cobra ao consumidor um preço por quilowatt, dos maiores da Europa. É uma empresa em franca expansão internacional. Os portugueses pagam e não bufam os preços que lhes são impostos.

A EDP, apesar de uma presença accionista minoritária do Estado, é uma empresa privada e no mercado nacional, no tocante aos consumidores domésticos, não sofre os efeitos da concorrência. Os preços das tarifas aos consumidores são fixados pelo Regulador dos Serviços Energéticos e estavam indexados à inflação. Esta indexação, apesar dos preços altos que já vinham de trás, garantia que os aumentos anuais não seriam incomportáveis.

Ingenuamente pensava que uma empresa única, com fortes lucros, sem concorrentes, a praticar dos maiores preços na Europa, só tinha razões para estar satisfeita. Estava redondamente enganado.

Comecei por surpreender-me, como todos os portugueses creio, com a proposta da ERSR de um aumento escandaloso das tarifas, no contexto do nosso país. A segunda surpresa, foi o Secretário de Estado Adjunto do sector, concordar com aqueles aumentos, dizendo que eram inevitáveis e a culpar os consumidores.

Afinal o que se passava?

Não sabia, mas agora é certo que o aumento das tarifas eléctricas foi desindexado da inflação, presumo, com a apresentação do orçamento de Estado para 2007. O que o Governo está a pretender fazer é “despejar” nos consumidores, o chamado “défice tarifário” que é o valor calculado e acumulado dos custos decorrente, da construção das infra-estruturas de instalação e transporte da energia eléctrica.

Claro que isto não é inocente.

O Governo está a preparar a privatização da Rede Eléctrica Nacional (a REN deixou o grupo EDP na sequência da liberalização do mercado energético europeu e gere as redes de transporte e de produção electricidade) e está a ser “valorizada” para a vender.

Como afirma Francisco Louçã num artigo publicado no esquerda.net “…estas empresas têm o melhor negócio que se pode imaginar. Usam os poderes de um serviço público, vendem um produto que as pessoas são obrigadas a comprar, têm lucros fabulosos (a EDP tem este ano os maiores lucros da sua história) e ainda conseguem ser pagos por todos os custos que vão tendo. O lucro dá lucro, os custos dão lucros. É, metaforicamente, como a história de Ali Babá e os quarenta ladrões: um abre as portas e os outros entram dentro de casa. Em nome deste alegado “défice”, fazem-se os aumentos deste ano. O problema é que as empresas querem mais e dizem que o “défice” é o dobro: mais de 800 milhões de euros. Portanto, no próximo ano, os aumentos vão ser muito mais acentuados, e é dessa revelação que o governo tem medo acima de tudo.”

Talvez assim se compreenda melhor porque o Governo inviabilizou a ida do Presidente demissionário da ERSR ao parlamento ao suspender “cirurgicamente” o ex-Presidente nas vésperas da audição.

O Bloco já está na rua com uma campanha contra os aumentos e o PCP prepara-se para lançar uma operação idêntica, visando voltar ao modelo da indexação dos aumentos dos preços, à inflacção e contra a privatização da REN.